
É essa postura cheia de dignidade e o olhar firme, mesmo nos últimos dias, que levaremos para sempre dela
Neste Dia dos Pais (13/08), meu pai resolveu pedir o presente mais precioso. E levou para junto de si minha mãe, aos 95 anos, cinco anos depois da partida dele.
Minha mãe sofreu uma parada cardíaca na noite de sábado (12/08). Foi atendida no 28 de Agosto, se recuperou, animou a todos, mas não resistiu a uma segunda parada e faleceu na tarde deste domingo.
Mamãe passou 45 dias internada, a maior parte em UTI, quando chegou a ser desenganada. Teve arritmia, pressão alta, pressão baixa, instabilidade de toda ordem. Por fim, quando se recuperou e estava prestes a deixar a unidade, os médicos me disseram que não voltaria a se alimentar, exceto pela sonda nasogástrica que usava.
Foi para um apartamento e poucos dias depois retirou a sonda, ela mesma, e pediu café com leite e pão. Comeu. Se recuperou. Chegou a fazer um culto com médicos, enfermeiros e acompanhantes, em que ela mesma cantou, fez o sermão e orou.
Ao voltar para casa, problemas de rins, nova internação e até uma “síndrome de 24 horas”, porque o corpo dela não distinguia mais entre dia e noite, fazendo-a insone por três dias e depois dormir outros três seguidos. Acordava bem e depois ia definhando. Superou tudo isso, surpreendendo a todos.
Em casa, entre nós, nos últimos dias, voltou a caminhar pela casa e estava inquieta. Quando lhe perguntavam o que mais queria fazer, ela dizia: “Me leve para Parintins. Quero ver meus vizinhos, meus amigos”. Já estava suspeitando que, outra vez, teria que lhe fazer a vontade. E farei, nesta terça, para deixá-la junto a meus pais e irmãos.
Sei que a saudade entre meu pai e ela era enorme. Não posso negar a relutância em deixá-la ir. Mas os fados me levaram para distante, no momento da partida.
Meu pai, prestes a falecer, internado, praticamente inconsciente, levantou-se de madrugada e gritou: “Cuidado! Cuidado com os meninos! Olha o carro!”. E depois: “Graças a Deus que não aconteceu nada. Está tudo bem”. Naquele mesmo horário, soubemos depois, meu filho mais novo sofria um acidente, do qual saiu ileso.
Minha mãe vinha tendo visões dele. Com aparente lucidez e olhos bem abertos me dizia: “Teu pai veio me ver”.
Quando deixei a Prefeitura, recentemente, cheguei em casa e a encontrei lanchando. Tomei a bênção, abracei, beijei e ela me perguntou: “Meu filho, você saiu da Prefeitura?” Como? Não sei. Só eu sabia. E, em seguida, segurando minhas mãos: “Faça o que manda seu coração”.
Revelo essas coisas, neste espaço que compartilho com o leitor deste portal, esperando trazer conforto aos que perderam entes queridos. Sei que muitos passaram por experiências semelhantes e falar sobre isso ajuda a amenizar a dor.
Minha mãe passou pela perda de quatro dos cinco filhos, pela ordem, Efraim, Rubem, Suzana e Itamar. Depois dessa dor toda, que nenhuma mãe merece ter, perdeu papai. Não perdeu, em nenhum momento, a fé cristã que sempre a moveu.
Deus deixou o menor de todos os filhos para protegê-la na fase final da vida. Talvez o menos capaz. E deu a mim as condições e a companheira, Tereza, para que pudesse enfrentar as dificuldades e atendê-la da melhor forma possível.
Agradeço às guardadoras, Lizângela e Lilian, incansáveis ao lado dela. À equipe médica, meus amigos Euler Ribeiro, Renato Oliveira Martins e Geraldo Gadelha, o diretor do 28 de Agosto, Paulo Mendonça, demais médicos, enfermeiros, equipes do Santa Júlia e da Beneficente Portuguesa. Todos têm minha gratidão eterna.
Mamãe, Raimunda dos Santos Carmo, sei agora com clareza que você foi e sempre será a fonte da minha fortaleza. Seu olhar, severo, implacável, inflexível, seguirá comigo, como uma lanterna a iluminar a escuridão.
Vele por nós. Saudades.
PS: Mamãe estará sendo velada, a partir deste domingo, às 20h, na funerária Almir Neves da Joaquim Nabuco, velório 2. Seguirá comigo para Parintins, terça-feira (15/08), para culto de corpo presente na Igreja Batista. O sepultamento está marcado para as 11h do mesmo dia, ao lado de Zé Caiá e meus irmãos. Agradeço desde já a todos pela solidariedade.