20/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Demissões em massa desestruturam a indústria da comunicação e resvalam no risco do improviso

Publicado em 07 de fevereiro, 2017

Jornais são indústrias imensas, estruturadas a partir das gigantescas rotativas como essa

A transição tecnológica proporcionada pela Internet, com as várias aplicações em mídias sociais (blogs, portais, FaceBook etc), estão provocando uma série de mudanças na comunicação planetária. O ingrediente da crise, com repercussão profunda na arrecadação via publicidade (anúncios), tem agido como fermento nesse processo. Surgem, como resultado, as demissões em massa nas redações, especialmente na mais estruturada e organizada indústria do meio, os jornais. É aí que o improviso ameaça se impor.

Jornais têm raízes profundas. São estruturados a partir das máquinas rotativas. São corpos “básicos” gigantescos e torres para dobra, encadernação, cores etc. Elas têm tanta importância que as maiores publicações construíram prédios enormes para abrigá-las. Departamentos administrativo, comercial, recursos humanos e todos os outros, inclusive as redações, são dispostos nos arredores da “máquina” impressora.

Hoje, com o avanço das novas mídias, as tiragens foram diminuindo. Folha de S. Paulo e Estadão, os dois maiores jornais do Brasil, que chegaram a tiragens superiores a 1 milhão de exemplares/dia, especialmente aos domingos, despencaram para os arredores dos 300 mil, nos melhores dias.

As impressoras foram ficando subutilizadas, mas o chamado “custo de partida” se manteve. Os três principais jornais manauaras têm rotativas que gastam mais de mil exemplares, antes de ajustar as cores e atingir o nível de excelência requerido. E isso após muitos avanços industriais, que reduziram essas perdas.

Ainda não há, no mercado, uma experiência digital completa e competitiva, tipo as impressoras caseiras, para concorrer com as grandes rotativas de jornais e revistas de grandes tiragens.

A solução encontrada pelas empresas têm sido o corte de pessoal. A análise é rasa: demitem-se os jornalistas com os maiores salários, os tidos como “estrelas”, aqueles reconhecidos pelo mercado e que antes podiam se dar ao luxo de produzir menos, investindo na qualidade.

As redações vão, aos poucos, devido às demissões em massa (“passaralhos”, no jargão jornalístico), deixando de lado a outra ponta responsável pela excelência da indústria jornalística: a estruturação.

Blog ou portal consegue se manter vivo – embora sem ser competitivo e respirando por aparelhos – publicando uma ou duas minguadas notas diárias. O jornal tem que estar nas bancas todos os dias, com volume que justifique o preço de capa e dê sustentação aos anúncios.

Abro parênteses. Tive a honra – e trabalhei das 10h de sexta às 5h de sábado – de fechar sozinho, numa edição especial do Dia das Mães, mais de 40 páginas do “sanfona”, um caderno que crescia com a demanda dos anúncios em A Crítica. Fecho parênteses.

A estrutura que garante o conteúdo, na redação, passa pelas editorias (cidade, política, polícia, economia, geral, esportes, cultura, opinião, últimas, capa etc.), que têm equipes próprias, editor, subeditor e um grupo mínimo de repórteres. Já dirigi editoria de esportes com 10 pessoas.

Essa organização, que poderia ser transferida para os portais, está sendo desestruturada, com a ilusão de que as novas mídias criaram também superjornalistas, capazes de sozinhos garantirem a cobertura dos assuntos que envolvem as diversas editorias.

É preciso ressalvar que jornalista, que se preze, jamais pode justificar não saber cobrir esporte porque sempre trabalhou em polícia ou vice-versa. A profissão não é “jornalista esportivo” ou “jornalista de polícia” ou “jornalista de economia”. É jornalista. Ponto final.

A questão é que as divisões, tradicionais nas redações de jornais, mantêm o foco, incentivam o cultivo de fontes, criam vínculos fundamentais. Sem elas, como parece ser a tendência indicada pelas demissões, o risco de que repórteres saiam atirando para todo lado e o que hoje é organizado vire um mar de improviso é muito grande.

As demissões estão atingindo gordurinhas ou ferindo raízes? Por que os anunciantes hesitam tanto em migrar para a mídia digital? São dúvidas do momento.

Tomara que os dirigentes da indústria da comunicação consigam entender o processo inteiro, olhem a floresta e não apenas a árvore, fazendo a transição correta, sem desestruturar a informação. O leitor agradece.

Veja mais notícias em Opinião

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.