Minha ex-aluna Tarita Fernanda ouviu, na televisão, um comentário desairoso à nossa cidade, por conta do recente jogo da seleção aqui realizado. Indignou-se. E com mais do que justa razão. Postou nas redes sociais o comentário que abaixo transcrevo, sem permissão da autora, confiando na leniência que ela há de ter para com esteve velho professor que, tal qual ela, ama e venera a terra em que nasceu:
“O Prefeito fez um pronunciamento, mas eu também posso. Queria saber, por curiosidade mesmo, do fundo do coração, por qual motivo boa parte do povo do sudeste discrimina tanto a cidade de Manaus, o meu lugar. Por que assim…vira e mexe, a gente precisa engolir essa implicância duríssima conosco. Insuportável isso já. Falaram no Sport TV que este jogo da seleção brasileira aqui seria inconveniente. Cara, olha…sabe o que é inconveniente? A ignorância, a discriminação com o norte (com pretexto da distância geográfica e o clima) e a falta de respeito com a minha terra e a minha gente. Por sinal, o amazonense é um dos povos mais alegres, calorosos e receptivos do mundo. Será o nosso jeito carinhoso que incomoda? Sim, porque quem aqui vem percebe logo de cara a solidariedade, hospitalidade, carinho, respeito e educação com que tratamos nossos visitantes. Para se ter uma vaga ideia, amazonense só se cumprimenta por “mano” e “mana” e isso não é à toa não; nosso senso fraternal é diferente do resto do país; tem uma coisa aqui muita mágica.
Inveja das nossas riquezas naturais? Realmente viver à margem do maior rio do mundo, cercados pela maior floresta do mundo é muito chato. E muitos acham que nos ofendem quando nos chamam de índios. Quer saber? Euzinha, sinceramente, pareço legal mas me baseio nesse tipo de comentário para analisar o nível intelectual e moral de alguém. Sorry.
Para fechar o recalque, diante dessa fartura colossal, nossa cozinha beira a perfeição; e aí é covardia. Tudo isso, lindamente testemunhado pelas maiores fábricas do mundo que aqui estão instaladas. Complicado para vocês, né? Compreendo. Mas o que fazer se minha terra é rica em todos os aspectos!? Tanto que aqui tem um sol para cada cidadão, inclusive. Olha, caras, enfim…passou da hora desse povo enjoado se tocar e reconhecer que apesar dos problemas que toda metrópole tem, Manaus oferece encantos únicos e inesquecíveis para quem se desarma e vem aproveitar nosso exemplar cosmopolitismo. Vai ter jogo sim. Muita festa sim. Alegria manauara sim! Superem. Beijo, me liga, Brasil”.
Que beleza! Com estilo descontraído, esbanjando alegria, a jovem desanca, de maneira implacável, uma forma de preconceito que desde tempos imemoriais a imprensa do sul e do sudeste manifesta contra as regiões nordeste e norte (principalmente esta), assim como se fôramos um povo primitivo, vivendo em condições insalubres e indignos de integrar a grande Nação brasileira.
Por que será que isso acontece? Francamente, falta-me cultura sociológica para compreender o fenômeno. O que não significa que eu não o possa ter à conta de pura e simples ignorância, decorrente da falta de visão universal. É assim como alguém que consegue distinguir a árvore, mas não logra ver a floresta. Lembro-me de que, participando de um encontro de advogados numa capital sulista, um eminente causídico daquelas plagas me pediu que, no retorno, desse um abraço fraterno em um colega que mora… em Belém! Disse que o faria e, é claro, por simples questão de educação, não lhe expliquei que estamos a uma hora e quarenta minutos de voo a jato da capital paraense. Seria um amplexo muito dispendioso.
Se não conhecem o nosso mundo, que pelo menos se calem sobre ele. Tolices seriam evitadas e besteiras não seriam ditas, porque, como é de domínio geral, “quem não sabe é como quem não vê”. Sob esse aspecto, e aderindo ao ufanismo da autoria, eu diria, como já o fiz antes, “Não pode saber tudo de beleza quem nunca viu um pôr-do-sol na baía do Rio Negro. De agosto a outubro, quando o farto verão amazonense (obrigado, Chico da Silva, pelo adjetivo) se acha no auge, as águas, pretas como azeviche, bamboleiam ao compasso da brisa morna, com cristas suaves de espuma”, concluindo que “lentamente, todos os matizes se vão alternando, qual num homérico disco de Newton. A trajetória na abóbada chega ao fim e a tonalidade do rubi tomou conta do mundo. Da Vinci e Raphael a fixariam em telas para deleite da Humanidade. Tudo é belo porque o grande rio está esplendoroso. Aos poucos, a mata volta ao verde escuro. E o sol se deita para mais uma noite de amor com as Anavilhanas”.
Só tenho, pois, que cumprimentar a doutora Tarita pela iniciativa de defesa intransigente de nosso pedaço de terra. Esta cidade é bela. E é nossa. Por isso, volto a proclamar: “Não ligues, Manaus. Nós te amamos e se, como toda mulher, não podes prescindir da maquiagem, isso não te faz menos bela. Nem menos altiva. Responde à agressão com o teu sorriso. Deixa que os cães ladrem. São poucos e inofensivos para a grandeza da caravana que representas e que vai passando altaneira na beleza quase cósmica da floresta amazônica”.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...