05/SET 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

O simbolismo do abre e fecha no retorno do supermercado DB da Ponta Negra

Publicado em 04 de março, 2013

Em 2010, a Prefeitura fechou o retorno do supermercado DB da Ponta Negra. E reabriu, alguns dias depois. A alegação era de que havia necessidade de construir alternativas. Nasceram os retornos em frente ao Ministério Internacional da Restauração, em frente ao Canamari, na entrada do bairro Santo Agostinho, e em frente ao Comando Militar da Amazônia (CMA). Com força e com coragem foram fechados os retornos do Ministério Público Estadual (MPE) que, talvez pensando em não atuar em causa própria, ficou pianinho. E, mais recentemente, fecharam os retornos do próprio CMA. Os caminhões do Exército hoje são obrigados a dar uma volta maior. Os militares nada disseram, em nome da civilidade e da integração ao processo democrático.

Em 2013, no dia 1º deste mês, a Prefeitura fechou o retorno do supermercado DB. “É com base em estudos de trânsito realizados na cidade, para dar maior fluidez ao tráfego naquela área”, justificou um técnico municipal. Estava certo. O trânsito melhorou muito. Todos estavam elogiando. Ninguém saiu prejudicado porque o freguês do DB, vindo da Ponta Negra, ficou com um semáforo (para o dono do supermercado chamar de seu) e o retorno que lhe permitia entrar na loja sem precisar acessar a complicada Bola do Carrefour. Na saída, o cliente precisava apenas trafegar cerca de 200 metros e fazer o retorno logo à frente, antes da Igreja da Restauração. Estava tudo certo. A sociedade até havia fechado os olhos àquele grotesco acinte do semáforo que ficou.

Mas, hoje, dia 04/03, caminhões foram mobilizados. Às pressas, os tubos de colocação do semáforo foram levantados e os fios reconectados febrilmente. Retorno, semáforo, empáfia e altivez de dono da cidade do empresário Sidney Pedrosa estão de volta ao local.

Manaus lembra a história do supermercado DB. Uma família muito simples, trabalhadora, enfiou a cara na pequena empresa atacadista, herança dos pais, que nasceu acanhadamente no Centro da cidade, e a transformou num estrondoso sucesso varejista.

A cidade assistiu o império crescer a olhos vistos, sem deixar de manifestar certo orgulho por aquilo ser o fruto do suor de líderes dedicados, talentosos, trabalhadores. Eles souberam tirar daí o combustível das conquistas que vieram a seguir, puxando o trem do segmento na cidade – o primeiro hipermercado manauara, na rua Umberto Calderaro Filho (Paraíba), o segundo, na Ponta Negra, o terceiro, na Cidade Nova, e tantos outros que perdi a conta.

As araras, porém, símbolo da empresa, começaram a se empolgar mais com o próprio colorido das penas que a investir na relação com o cliente. Nasceu a suntuosa mansão às margens do lago do Tarumã, afrontando o Ministério Público e a Justiça Federais, tão ciosos na proteção às obras próximas aos cursos d’água, a ponto de aplicar multa milionária ao condomínio Riviera da Ponta Negra, construído muito depois.

E vieram os episódios dos retornos.

Foram fechados os retornos da imprensa, na avenida André Araújo. TV Band, TV A Crítica, jornal A Crítica, rádio A Crítica, TV Amazonas, rádio Amazonas FM, Amazonsat, bem que esboçaram alguma reação, mas não conseguiram resistir ao apelo do “interesse público”.

Havia mais retornos absurdos na cidade. O enorme investimento feito pela Prefeitura nas passagens de nível da Constantino Nery, Djalma Batista e Paraíba, nos viadutos da Recife e do Coroado esbarrava nos semáforos e saídas do Amazonas Shopping. Tudo foi retirado. O empreendimento obrigado a construir passarela e uma baia para a parada de ônibus. Ou isso ou fiscalização diária.

Não parou aí. O Manauara Shopping também barreirava o trânsito da Recife e da Paraíba, com faixas de pedestres que causavam grandes engarrafamentos. Foi obrigado a construir duas passarelas, uma para cada rua, com Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) celebrado junto ao MPE.

E o DB da Ponta Negra, com dois semáforos e dois retornos? Virou um capricho pessoal de Sidney Pedrosa. Esquecido de que foi na humildade e no trabalho que construiu tudo que tem, o empresário resolveu vergar a autoridade constituída da cidade. Mostra poder econômico, político e jurídico. É assim que se fechar ele abre.

Só há uma ponta de esperança. Um dia, naquela reflexão diária à qual se entrega, talvez ele lembre dos velhos tempos na Escadaria dos Remédios. E aí, mergulhado nesse princípio, chegará à conclusão de que não pode ser a exceção à regra de civilidade a que a Prefeitura tenta submeter o trânsito de Manaus. Pensará: “Mas e se eu mantiver esses retornos abertos, como é que vou poder me sentir seguro numa sala de cinema, se os fiscais não terão moral para fechá-la, ou como saberei se a carne que compro para vender no meu supermercado tem qualidade, se os responsáveis também hesitarão, imaginando se algum Sidney Pedrosa poderoso não estará de plantão, vigiando-os, pronto a abrir o que eles fecharem?”

Aí, então, finalmente, dará a ordem: “Podem fechar os meus sinais e os meus retornos. Eu sou criativo e vou encontrar uma forma de continuar vendendo os tubos sem agredir minha cidade”.

Esses semáforos e esses retornos são um símbolo. Mesmo com todo o poder adquirido, lá no íntimo de Sidney Pedrosa ainda deve repousar aquele sujeito humilde, admirado por todos, que trabalhava feito um mouro e se fez digno de tantas conquistas. Tomara. Eu não perco a esperança.

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