05/SET 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Arthur Virgílio, o político com dedicação exclusiva à política e afastado do Executivo justamente por causa disso

Publicado em 02 de novembro, 2012

Poucos se perguntam como o ex-senador Arthur Virgílio Neto, vindo da “província”, como considera o senador Eduardo Braga, pode se tornar o mais influente parlamentar do Brasil, de acordo com votação dos 100 escolhidos pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), como os melhores da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

A fórmula não é muito simples, mas a base dela é tomar um café apressado com a família e repetir a dose em algum hotel da cidade, onde esteja alguém com quem precise conversar. No almoço, raramente feito em casa, nova rodada de conversas políticas ou troca de informações com jornalistas. À noite, depois de ser o último a deixar o gabinete, retornando telefonemas selecionados numa extensa lista anotada pela diligente secretária Ju, o jantar, claro, em torno de outros políticos ou mais jornalistas.

Tem outro título, usado apenas nos bastidores, que Arthur Virgílio conquistou, em seus 12 anos como deputado federal (1983-1986, 1995-1998 e 1999-2002) e oito anos como senador (2003-2010): o rei dos colunistas políticos. Com um faro de fazer inveja a qualquer jornalista, ele sabe o que é notícia e quem dará o devido valor a cada informação que lhe chega às mãos.

Arthur, como prefeito, duplicou a estrada da Cidade Nova, que denominou de Avenida Max Teixeira. A média de mortes por atropelamentos na pequena via, com pista única em cada sentido, era de 11 por mês;

Asfaltou a avenida Grande Circular (Autaz Mirim). Alguém há de lembrar que, em frente ao ginásio Zezão, no inverno, a lama tornava o trecho intransponível, inclusive para pedestres. Os prefeitos antes dele não a asfaltaram perdidos na polêmica sobre se seria estadual ou municipal. Ele fez as pazes com Gilberto Mestrinho, que derrotara na disputa da Prefeitura, e resolveu a querela. Ter reatado com Mestrinho, aliás, foi considerado por muitos como um dos fatores que o levaram a ficar tanto tempo afastado do Executivo. O povo, que votou nele como anti-Mestrinho, teria se sentido traído. O que poucos sabem é que o reatamento se deu por admiração ao velho político – admiração genuína, que continuou depois, mesmo quando Mestrinho ficou sem cargo eletivo – e porque a Prefeitura corria sério risco de ficar inviabilizada financeiramente, sem o apoio do Estado;

Planejou, terraplanou e desapropriou a extensão da avenida Djalma Batista, no ponto entre o viaduto Ayrton Senna, em frente à Unip, e o Aeroclube;

Planejou, licitou, reservou os recursos e iniciou a obra do calçadão da Ponta Negra;

Tirou a frota de ônibus da cidade da idade média mais velha do Brasil para a segunda menor idade média do País, atrás apenas de Curitiba;

Transformou a cidade na segunda mais limpa do País, atrás apenas de Fortaleza. E Manaus só perdia, como mais suja, naquela época, para a Bahia. Para refrescar as memórias: a sujeira era tão institucionalizada que havia “lixeiras viciadas” (locais onde se joga lixo tão costumeiramente que ninguém mais consegue limpar) na Marcílio Dias com Praça da Polícia, Eduardo Ribeiro com Henrique Martins (ao lado da Mesbla) e Eduardo Ribeiro com Quintino Bocaiúva (ao lado da Lobrás), entre outros locais do Centro. Tudo isso foi retirado, em grande parte graças à saída dos camelôs da zona central;

A verdade é que o episódio dos camelôs foi usado, eficientemente, diga-se, como “cala-boca” da administração de Arthur Virgílio na Prefeitura. Quem ia querer no Executivo um político que, quando foi fazer asfalto, exigiu o estudo laboratorial do solo, para atingir o mesmo tempo de duração que a Estrada do Aeroporto? Ou que não aceitava fazer rua sem drenagens superficial e profunda? Ou que enterrou 600 quilômetros de tubos? Ou que enfrentou a previsão da Organização Mundial de Saúde (OMS) de que Manaus teria 300 mil infectados pelo cólera, fazendo a epidemia passar longe desta capital? Isso dá um prejuízo para as indústrias de obras maquiadas e várias outras…

Ficou até difícil dizer que os camelôs foram retirados, naquela época, por pressão das entidades comerciais da cidade e do próprio Governo do Estado – incomodado com a queda na arrecadação do ICMS. Ninguém diz que a retirada em massa, dos cerca de 12 mil ambulantes que atuavam no Centro, foi feita pela Polícia Militar (PM). Coube à Guarda Municipal a manutenção do Centro limpo. E aí entraram em cena os tubarões do comércio, que enriqueceram com a mão de obra grátis dos camelôs, especialmente o dono do Sukatão, o falecido Jumbo Miranda, estimulando os ambulantes a partirem para o confronto.

A Guarda Municipal, ou “os rapas”, como ficaram conhecidos, tinha um contingente de 600 homens. Arthur demitiu 1.200, ou seja, renovou duas vezes esse efetivo. Nem assim conseguiu se livrar da sina de “prefeito que bateu nos camelôs”.

Outro dia conversei com um ex-camelô. Em plena campanha, ele se queixava para mim de que o próprio Arthur, em pessoa, o havia espancado. “Onde”?, indaguei, “em que lugar do Centro você viu o Arthur em confronto com os camelôs?” “Não me lembro”, respondeu ele. “Quanto anos você tem?”, insisti. E ele: “28 anos”. Ou seja, nascido em 1984, nosso “denunciante” tinha 8 aninhos quando ocorreu a retirada, em 1991. Arthur jamais se envolveu, pessoalmente, em confronto com ambulantes.

O escritor inglês George Orwell, autor de livros como “1984”, “A revolução dos bichos” e outros, deu outra bola dentro quando disse que “a história é escrita pelos vencedores”.

Arthur Virgílio Neto apoiou José Cardoso Dutra, então deputado federal do PMDB, partido do governador da época, Gilberto Mestrinho. Verdade é que o governador não deu um décimo do empenho do prefeito e, embora tenha conseguido o impensável feito de ir para o Segundo Turno com o favoritíssimo Amazonino Mendes, Dutra foi derrotado.

Arthur investiu tudo o que pôde de capital político naquela eleição de 1992. Foi a mais disputada já ocorrida em Manaus. Até mesmo o apoio financeiro que empresários próximos haviam guardado para uma possível candidatura dele ao Governo do Estado, em 1994, foi para o fundo de campanha. E perdeu.

Amazonino iniciou uma trajetória de mando político que o levou pela segunda vez ao Governo do Estado, com direito à reeleição (1995-2002), deixando na Prefeitura seu jovem vice-prefeito, Eduardo Braga. Este, por sua vez, mergulhou em derrotas durante alguns anos, até reencontrar Amazonino, em 2002, e deste receber o apoio decisivo para se eleger governador. Braga tornou-se tão forte que enfrentou e venceu Amazonino, em 2006, na campanha da reeleição.

A eleição deste ano, quando Eduardo Braga, com suas articulações de bastidores, jogou no colo do povo de Manaus a chance de uma revanche pela derrota para o Senado, dois anos antes, ofereceu a Arthur Virgílio Neto a oportunidade de reescrever sua história política no Executivo. Ele tem sobre os ombros o peso de provar que não é só “bom de parlamento”.

Só um aviso aos navegantes: quando Arthur foi prefeito, o expediente, não raro, terminava tarde da noite e recomeçava muito cedo, pela manhã. Trabalhar com ele é para quem tem tutano e coragem para enfrentar esses horários.

Arthur Virgílio está vacinado. É um político experiente. Tem tudo para melhorar Manaus muito. No mínimo fazendo com que os políticos vejam outra forma de governar, como aconteceu após sua passagem na Prefeitura, quando Manaus viu iniciar a era da construção de viadutos e passagens de nível. O pessoal botou para trabalhar.

Boa sorte Arthur. Manaus está precisando de sua energia.

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