05/SET 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Enchente preocupa, mas alarme político faz com que as trombetas soem mais alto

Publicado em 08 de maio, 2012

A enchente de 2009, recorde de todos os tempos, levou o nível do rio Negro, no porto de Manaus, a 29 metros e 77 centímetros. Hoje, logo cedo, quando deu seu informe diário às emissoras de rádio, Valderino Pereira da Silva, o homem que mede o nível do Negro há 23 anos, anunciou que o rio está a 25 centímetros da marca histórica. É grave. Muito grave. Mas ainda não chegamos lá.

Cabe uma análise fria da situação.

A prevenção é necessária. Então, como todo mundo sabe que Anamã vai ao fundo todos os anos, mesmo nas cheias médias, por que nada se fez em todo esse tempo para retirar as pessoas da várzea e transferi-las para um ponto mais alto?

Em Boca do Acre, onde esse processo já aconteceu, as pessoas insistem em permanecer na cidade velha, em detrimento do Platô do Piquiá, em terra firme. E são esses remanescentes que provocam o “estado de emergência” e depois o “estado de calamidade pública”, com a indigesta prerrogativa de dispensa de licitação para comprar da madeira a qualquer outra coisa.

Em Urucurituba, a maioria mudou para a cidade nova e a velha se tornou o vilarejo de Augusto Montenegro, mero pouso de verão, com os moradores cientes de que, vindo a enchente, todos têm que se mudar.

Em Manaus, com o Governo do Estado gastando mais de US$ 1 bilhão para retirar famílias das margens dos igarapés, a cheia não deveria causar a comoção que está causando. O prefeito Amazonino Mendes chegou a dizer que está tão preocupando que “vai se endividar todo” para acudir os flagelados.

Primeiro, para ficar bem claro, há um ato falho na manifestação do prefeito e ex-governador, que também é ex-empresário da construção civil e deve estar raciocinando como tal: quem se endivida não é ele, mas o Município. Talvez nem haja qualquer risco para sua administração porque as dívidas ficarão para seus sucessores. Mas isso todo mundo sabe, principalmente ele. É puro gosto por essa retórica parnasiana.

Soa como simpático gesto de desprendimento do governador Omar Aziz mobilizar pessoal e máquinas para acudir à emergência da enchente na capital. Mas essa é também forte denúncia de que a Prefeitura não fez sua parte na coleta de resíduos nos igarapés ou na educação dos moradores de suas margens, para evitar o acúmulo de lixo que tanto “escandalizou” o senador Eduardo Braga – como se ele não visse isso todos os anos. Além do mais, o dinheiro investido na capital bem podia acudir os verdadeiros ribeirinhos, que estão isolados no interior.

A enchente, enfim, é um prato cheio, quase derramando, para demagogias de todas as latitudes. Insisto: a Assembleia Legislativa e as Câmaras Municipal têm a obrigação de criar rubricas no orçamento obrigando à licitação antecipada de alimentos, colchões, madeira etc., tanto para a enchente quanto para a vazante. Não esqueçamos que, em 2010, ano seguinte à grande cheia, a seca também foi recorde. Logo, ano que vem, ninguém vai poder alegar ter sido pego de surpresa…

Mantenha-se atento aos demagogos de plantão. Eles não têm o menor pudor em tirar proveito do sofrimento dos flagelados pela enchente.

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