Carlos Heitor Cony revela, no Liberdade de Expressão, da CBN, que Carlos Drummond de Andrade, com uma timidez típica dos poetas – ou dos mineiros -, costumava abordar interlocutores olhando para o chão. Quando lhe perguntavam por quê, ele dizia: “Olho para o ferro de Itabira”. Itabira-MG, terra natal do grande poeta, tem muito minério de ferro.
É emocionante a figuração que existe aí.
Olhar para o chão, de vez em quando, é mais que um gesto de timidez. No caso de Drummond, tratava-se de demonstração da humildade que marcou sua trajetória. E de homenagem tocante à terra natal.
Em tempos de Festival Folclórico de Parintins, eu, fã de Drummond como a maioria dos brasileiros, olho para o chão de minha terra, procurando nele o boi bumbá que vi criança e me arrastava pelas ruas, levado pela mão de meu pai, estupefato pela fluência dos tiradores de versos e puxadores de toada.
Ficava boquiaberto ao ver as velhinhas, sempre muito quietas e fechadas o ano inteiro, saindo às ruas e dançando naquelas noites juninas.
Olhava cheio de orgulho para meus tios. Santarém, no banjo ou fabricando a dona aurora; Guajarina (mãe de Chico da Silva) dando suporte; Luiz Gonzaga e sua querida Izolina sempre atento, cobrindo qualquer falha – e ele manteve acesa a chama do Caprichoso de 1937 a 1967 quando morreu, debaixo da Dona Aurora, seu lugar cativo na brincadeira.
A riqueza do meu chão é a do papel de seda, que escapava da ponta da lança, da fogueira avisando que o boião está pra chegar, do tipiti, tucupi e da farinha boa. E de tanta coisa bonita que nossos poetas já disseram.
Até um caboquinho da Ilha Tupinambarana, como se vê, tem o seu ferro de Itabira.
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