
Resultado do Enamed acende o sinal vermelho nos cursos de Medicina do Amazonas
Saiu o resultado da primeira edição do Enamed, o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, que o MEC e o Inep estão usando como um raio-x dos cursos de Medicina no Brasil. Ele confirmou o óbvio e expôs o inadmissível.
O óbvio: USP e Unicamp apareceram com nota 5, a máxima, em cursos tradicionais. Muita gente vai dizer: “Ah, mas aí tem dinheiro do Estado mais rico e o vestibular peneira os melhores alunos do país”. Sim, verdade, isso pesa.
Só que o Enamed trouxe um dado que desmonta a desculpa facilmente: a Universidade Federal de Sergipe (UFS) tirou nota 5 em Aracaju e também no interior, em Lagarto. Sergipe não é a locomotiva do Brasil. Sergipe tem orçamento de apenas R$ 24 bilhões, este ano. Ainda assim, entregou excelência.
É preciso aplaudir os sergipanos e os potiguases do interior, de Caicó (RN), também com nota 5.
O Amazonas, que tem orçamento estadual perto de R$ 40 bilhões, recebe nota 3 nos cursos públicos — Ufam e UEA — que é um conceito “satisfatório”, mas modesto para um Estado que precisa formar médico de ponta e fixar profissional no interior.
E o mais grave: os dois cursos privados avaliados em Manaus — Nilton Lins e Fametro — ficaram com nota 1, o piso, conceito insatisfatório. Isso não é detalhe técnico. Isso tem consequência: o MEC já anunciou medidas de supervisão para cursos com notas 1 e 2, com redução de vagas e outras restrições. Nota 1 não pode matricular novos alunos.
Você ouviu Fametro? Sim, a instituição dirigida pela professora Maria do Carmo, candidata ao Governo do Amazonas, isto é, a comandar toda a educação do Estado. Imagine isso. Alguém que não cuida da instituição que é a galinha dos ovos de ouro da família, como é que vai cuidar do que é público? Já não basta que quando foi candidata a vice-prefeita foi revelado que não pagava o IPTU e agora nota mínima da Fametro em Medicina?
Agora pense no drama humano por trás disso.
Medicina não é curso de fim de semana. São seis anos para formar generalista, mais residência de dois a seis anos. O jovem entra cheio de sonho, a família se endivida, e lá na frente quem vai depender desse médico é o cidadão comum. Na parede do consultório não vem escrito: “formação deficiente”.
E aqui entra o ponto de saúde pública: medicina não é só hospital. É saneamento, é vacina, é vigilância sanitária, é gestão séria do risco coletivo. Uma sociedade que tolera formação ruim de médico está assinando uma conta para o futuro: mais erro, mais sofrimento, mais custo, mais desigualdade.
Portanto, isso não é ataque a A ou B. É um chamado à responsabilidade.
Se Sergipe consegue nota 5 em Aracaju e em Lagarto, o Amazonas também pode – e deve aplaudir de pé – mas precisa tratar educação e saúde como prioridade de Estado. Agora. Antes que o preço seja cobrado com vidas da nossa gente.
O Enamed não é um detalhe burocrático, nem uma disputa de vaidades entre instituições. Trata-se de um indicador objetivo de qualidade na formação médica, que tem efeito direto na vida real: na consulta do posto de saúde, no plantão da maternidade, no atendimento de emergência, na capacidade de diagnóstico precoce e no cuidado com a população mais vulnerável.
O Amazonas é um Estado que vive uma contradição antiga. Possui um dos maiores orçamentos do Norte e do Nordeste, concentra recursos na capital, tem universidades públicas consolidadas e ainda assim segue incapaz de garantir excelência mínima e uniforme em áreas estratégicas. Em Medicina, essa incapacidade é ainda mais grave, porque a falha não se limita ao desperdício de dinheiro público: ela produz sofrimento e morte.
Nota 3 em instituições públicas não é motivo de celebração. É sinal de estagnação. É o retrato de um sistema que se acomoda no “suficiente” e que se contenta com o básico, mesmo diante de um desafio gigantesco: formar médicos aptos a atuar no interior, na calha dos rios, em regiões isoladas, onde o erro custa caro e a distância amplifica tragédias.
O desempenho das privadas é pior, e por isso mesmo mais escandaloso. Nota 1 significa, na prática, fracasso institucional. É o retrato de cursos que operam como negócio, não como missão acadêmica. Quando o MEC anuncia supervisão, redução de vagas e restrições, o recado é cristalino: não se trata de “perseguição”, mas de uma tentativa de impedir que a precariedade continue se multiplicando.
Sempre que rankings expõem desigualdade regional, o reflexo automático é culpar a geografia, a pobreza ou a falta de estrutura. Esse argumento cai por terra quando Sergipe — com orçamento bem menor — coloca dois cursos com nota máxima. Cai mais ainda quando o interior do Rio Grande do Norte aparece com excelência em Caicó.
O que explica a diferença, então, não é o “destino” nem a “falta de dinheiro”. É gestão. É cultura institucional. É compromisso com mérito, currículo, prática, residência, pesquisa e supervisão.
O Amazonas não sofre de falta de recursos. Sofre de falta de prioridade. O Estado não pode negligenciar o que dá retorno social permanente. A formação médica deveria estar no topo das urgências, mas é tratada como mais um item do catálogo administrativo.
A saúde pública não começa no hospital. Começa no esgoto que corre a céu aberto, na água contaminada, na ausência de vigilância sanitária, na desorganização da atenção básica. Mas a formação médica é o coração do sistema: sem médico bem treinado, o SUS vira um corredor de improvisos.
Quando se tolera ensino fraco em Medicina, o futuro da população é colocado em risco de maneira silenciosa. O cidadão não sabe se o profissional que o atende foi formado com rigor ou empurrado por um sistema que premia o diploma, não a competência.
E há um agravante ético: os alunos. Muitos entraram nesses cursos acreditando em promessas de excelência. Pagam caro, se sacrificam, apostam anos da vida e saem com um carimbo invisível de insegurança. Não por culpa deles, mas por falha do Estado regulador e por irresponsabilidade de instituições que vendem futuro sem entregar qualidade.
Em ano eleitoral, o Enamed vira um teste indireto de governança. Ele mostra que o Amazonas não está apenas em disputa política; está em disputa de projeto civilizatório.
Quem pretende governar o Estado precisa responder, com seriedade, a perguntas simples e incontornáveis:
Por que universidades públicas com tradição não alcançam excelência?
Por que cursos privados chegaram ao ponto de nota mínima?
Quem fiscalizou? Quem permitiu? Quem se beneficiou?
Qual é o plano para recuperar qualidade, antes que o sistema forme profissionais mal preparados e a conta chegue ao cidadão?
O Enamed não acusa pessoas. Ele acusa estruturas. Mas estruturas têm responsáveis.
Se Sergipe consegue, o Amazonas também consegue. O que falta não é milagre. Falta método. Falta prioridade. Falta coragem de enfrentar o atraso — inclusive o atraso instalado dentro da própria educação superior.
E isso precisa ser tratado como o que é: uma urgência de Estado. Agora. Antes que o preço seja cobrado com vidas da nossa gente.
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