08/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Fiscal da Receita Federal vence concurso no órgão comparando Manaus à ‘Macondo de 20 casas de barro e taquara’

Publicado em 28 de novembro, 2016

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O Terminal de Cargas (Teca) do aeroporto Eduardo Gomes é um dos maiores arrecadadores de impostos do Brasil

A Receita Federal admitiu como vencedor, na 7ª edição do concurso “Histórias de Trabalho da Receita Federal”, o texto do atual chefe da Delegacia de Maiores Contribuintes de São Paulo (DEMAC/SP), Marcos Libório Fernandes Costa. Ele faz uma longa descrição da vida em Manaus (14 páginas, 25,5 mil caracteres), onde foi chefe da fiscalização no Terminal de Cargas (Teca) do aeroporto Eduardo Gomes, num relato tão talentoso quanto preconceituoso e desinformado.

Libório trata a cidade como a fictícia Macondo, de Gabriel Garcia Marques, no romance Cem Anos de Solidão, peça exemplar do realismo fantástico (não mágico, como diz o texto), tentando escapar pela tangente, explicando que Manaus “tem mais de 20 casas de barro e taquara”.

O vencedor confunde Eldorado (ou será Coroado?) com Colorado e a Cachaçaria do Dedé com a do Didi. Queixa-se de que aqui falta vacina contra dengue – que só agora a ciência está testando, imagine no já longínquo 2010, quando ele chegou! Queixa-se até da falta de colônia portuguesa, sintoma claro de que não andou pela avenida Joaquim Nabuco nem viu uma instituição centenária e atuante chamada Beneficente Portuguesa.E também da falta de funcionamento do GPS, algo que São Paulo continua tendo em comum com Manaus.

O Elliot Ness, como se auto-sugere, tem uma pena talentosa colocada a serviço de brincadeira de mau gosto com o povo manauara e amazonense. Expõe a própria xenofobia em comparações grotescas da São Paulo “civilizada” com a “clareira no meio da selva” que é Manaus. E não deixa de ter razão: a capital paulista não é uma clareira, mas se tornou a própria selva (de pedra), após ceifar a Mata Atlântica.

Marcos Libório, em seu libelo anti-manauara, apresenta detalhes que coloca sob suspeita o próprio funcionamento da Receita Federal e desconfia do trabalho dos colegas. Mergulhado no egocentrismo, ele conta dois casos em que conseguiu descobrir crimes contra o contribuinte: a entrada de desbloqueadores de sinal de TV a cabo e de componentes eletrônicos de baixa eficiência. No primeiro, Ness, ou melhor, Libório, faz uma pesquisa nos cadastros, dá um telefonema e descobre que o portador de mercadoria dita de uso pessoal tinha loja de eletroeletrônicos; no segundo, o componente de baixa qualidade é flagrado por sua formação pessoal, que lhe dá “vantagem em relação aos colegas”.

No campo das contravenções, descaminho e contrabando, aliás, apresento ao nosso Elliot Ness, agora bem pertinho dele, uma rua chamada Santa Efigênia e um nome, o do chinês Law Kin Chong. Talvez aí o volume de mercadoria ilegal ultrapasse esses 15 itens brilhantemente flagrados por ele.

Ora, o que se imagina é que a Receita Federal tenha procedimento padrão, capaz de detectar casos comezinhos como os citados no texto e que não dependa tanto da “altíssima capacidade” individual do funcionário gabola. Ou, se dependesse, bastaria lembrar a disputa acirrada nos concursos de fiscal para saber que essa é uma mão-de-obra qualificada, indigna da suspeita levantada pelo vencedor.

Marcos Libório Fernandes da Costa encerra o texto com o que deveria ter começado. Derrete-se ao bolo de tapioca da colega de trabalho manauara, após maratona de queixas dos produtos à base de mandioca e do coentro, e confessa as lágrimas que derramou na despedida.

Um texto com pretensões sócio-antropológicas nunca pode ser tão preconceituoso e reducionista. Um paulista é tão brasileiro quanto um manauara. O calor é tão forte aqui quanto no verão paulistano ou carioca ou até mesmo europeu.

Lamentável é que o júri de um concurso como esse, envolvendo a instituição Receita Federal, premie a forma sem análise do conteúdo. E acabe discriminando brasileiros que estão entre os que mais contribuem e menos recebem de nosso País.

Manauara mais radical poderia mandar alguém assim procurar uma Macondo em São Paulo mesmo. Basta ir a Heliópolis ou Paraisópolis ou a alguma das centenas de favelas paulistanas ou das milhares que o Brasil produz.

Ao contrário do que diz o autor, Manaus tem como grande “defeito” o espírito acolhedor, que permitiu a oriundos de outras plagas construírem fortunas aqui. Sem preconceito. Sem xenofobia.

Quando a gente pensa que já viu tudo nessa vida…

 

Clique aqui para ler o texto integral do vencedor do concurso da Receita Federal.

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