
Confusão de árbitros no Campeonato Brasileiro lembra os tempos em que a decisão era do juiz da pelada: no grito. Ilustração: IA
Na minha infância, em Parintins – e de tantos –, futebol não precisava de estádio, juiz nem bandeirinha. Bastavam duas chinelas para virar trave e, se tivesse areia, melhor ainda: dava aquele toque de Maracanã com praia. A regra era simples: quem gritava mais alto levava.
Mas aí vinha o problema do gol pelo alto. Foi ou não foi? Dependia da amizade, da bronca e da capacidade de persuasão pulmonar. Às vezes, acabava em briga. Outras, em silêncio mortal e chute na bola para o mato. A pelada terminava sem vencedor, só com ofendidos.
Avançamos algumas décadas, inventamos o VAR, a tecnologia, o chip na bola, o spray que some, o árbitro com microfone e até a regra dos oito segundos para o goleiro repor a bola. E o que aconteceu? Voltamos para o campinho de areia.
Ontem (16/10), o Juventude (RS) resolveu abandonar o jogo contra o Fluminense por não concordar com a marcação de escanteio, que nasceu de uma demora de dois segundos (além dos oito) do goleiro, segundo o cronômetro do árbitro. Dois segundos. Tempo suficiente para decidir uma partida ou perder a paciência com o VAR. Pior é que o escanteio resultou num golaço de cabeça de Thiago Silva.
Enquanto isso, nos bastidores, Leila Pereira (Palmeiras) e Bap (Flamengo) disputam quem reclama mais da arbitragem. Falta pouco para criarem um campeonato paralelo: o “Apito de Ouro”, em que vence quem grita mais na beira do gramado.
Nos jogos, o pênalti para o São Paulo e o pênalti para o Flamengo mostraram que o VAR, apesar de moderno, continua sendo o mesmo amigo da pelada que grita “foi falta sim, eu vi!”. E a arbitragem brasileira, essa entidade sobrenatural que mistura regra com improviso, segue tropeçando no apito.
Agora temos a decisão do Brasileirão, neste domingo (18/10): Palmeiras x Flamengo. Se o Palmeiras vencer, é campeão. Se o Flamengo ganhar, ainda precisa de mil combinações matemáticas e – dirão os torcedores mais céticos – de um sinal divino de Leila Pereira tropeçando no salto.
A torcida, claro, vai torcer. O problema é que a arbitragem insiste em brincar de dono da bola. Quando o juiz da pelada errava, o jogo terminava no grito, na raiva e na promessa de “nunca mais jogo com você”. E é exatamente isso que o Juventude fez: pegou a bola, largou o campo e foi embora.
Domingo vem aí. Esperamos que o futebol ganhe — e o apito, pelo menos uma folga. O brasileiro, que já dribla a vida com salário curto, transporte lotado e fila no posto, merece 90 minutos de diversão… sem precisar brigar pra saber se foi gol ou não.
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