
Omar x Marina, ontem (27/05), no Senado, debateram o asfaltamento da BR-319, uma rodovia vital para o Amazonas
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, foi à Comissão de Infraestrutura do Senado, ontem (27/05). Trombou com o senador Omar Aziz (PSD-AM), que a confrontou claramente com Lula: “O presidente assumiu o compromisso de asfaltar a BR-319 e, até onde eu sei, ele ainda é o presidente”, atacou Omar. Marina não economizou nos argumentos: “Só de o presidente Fernando Henrique (1994) anunciar o asfaltamento, o desmatamento aumentou 119%”. Aí entrou no debate o senador Plínio Valério (PSDB-AM) e, como elefante em vidraçaria, azedou o clima e Marina se retirou.
O que fez Plínio? Começou a participação dizendo que respeita Marina “como mulher, mas não como ministra”. Ela, que não tem nada de boba, pegou a deixa: “Sou as duas coisas e estou aqui convidada, como ministra. Se você não pedir desculpas (“Não vou pedir desculpas!”, repetiu Plínio) vou me retirar”. E foi embora.
Síntese: Omar tentou enquadrar Marina com argumentos; Plínio perdeu a mão e vitimizou a ministra. O resultado é que, em seguida, o presidente Lula, que se recupera de uma labirintite, telefonou para ela e disse que “se sentiu melhor” ao vê-la se retirar. Ou seja, ponto para o não asfaltar e aumenta o abismo que nos distancia do asfaltamento.
Ao fim deste editorial estão postados os vídeos da sessão no Senado. Na íntegra. Para você tirar suas próprias conclusões.
A BR-319 (Manaus-Porto Velho) é a única via de interligação terrestre dos Estados do Amazonas e Roraima ao resto do Brasil. O asfaltamento é uma necessidade. Nenhum País, entre os desenvolvidos, deixaria uma região estratégica, como é a Amazônia, isolada desse jeito. É burrice estrutural e contra a segurança nacional. Floresta Negra, na Alemanha, Ardennes, na Bélgica, e Maine, nos EUA, são recortadas por ferrovias e rodovias.
Há nove Municípios do Amazonas que dependem diretamente da BR-319: Careiro da Várzea, Careiro Castanho, Autazes, Manaquiri, Nova Olinda, Novo Aripuanã, Manicoré, Borba e Humaitá. Sem contar Manaus, cujo abastecimento está ligado ao funcionamento da estrada. E, mais que isso, a logística da Zona Franca de Manaus (ZFM) não pode prescindir de nenhum modal (fluvial, terrestre ou aéreo), diante da grande distância de São Paulo, o centro distribuidor nacional.
Os EUA expressam orgulhosamente, como síntese da Doutrina Monroe (James Monroe, 1817-1825), um plano de desenvolvimento de 200 anos: “Onde houver um americano, lá estará o governo dos Estados Unidos”. O governo brasileiro, com a intransigência de Marina, está se lixando para os milhares de brasileiros que pisam na lama no inverno e comem poeira no verão. Não importa se, como lembrou Omar, morreram 15 mil amazonenses por falta de oxigênio, sem a estrada para apressar o socorro. Nem se viatura da Força Nacional, com Manaus sitiada pelo crime organizado, capotou no lamaçal e foi parar num barranco.
Marina, que demonstrou não estar muito preocupada com o presidente que a nomeou, tem razão em um argumento: tem sido usada como bode expiatório para esconder a incompetência dos que prometeram asfaltar a estrada e não asfaltaram. Nesse biombo cabem o ex-ministro Alfredo Nascimento, o ex-presidente Jair Bolsonaro e o próprio Lula. Também está correto dizer que os 15 anos em que ela permaneceu fora do Ministério do Meio Ambiente (2008-2023) não foram suficientes para mover os que a tomam como principal obstáculo para asfaltar a rodovia – embora isso esconda a militância dela, que nunca deixou de existir.
A ministra, ao citar o percentual de 119% de desmatamento, usa um sofisma matemático. O número é forte, fortíssimo, ainda mais reforçado pelo prestígio acadêmico do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Só que esconde os fatos. Se a rodovia estava 2% desmatada, a título de exemplo, os tais 119% elevam o percentual desmatado para 4,38%. Acaba a grandiloquência do argumento. Ainda mais no recorte usado, que é de 31 anos.
Há uma ação, ainda em curso, que pede a “proibição de manutenção” da BR-319. É o cúmulo do absurdo. Caminhões e caminhonetes tracionadas atolam todos os dias no chamado “trecho do meio”. Buracos se abrem nas margens da estrada, de uma hora para outra, em toda a extensão, por conta das várzeas e da falta de cuidado. Até a fiscalização ambiental, curiosamente, atola em todas essas dificuldades, quando tenta combater desmatamentos e queimadas.
Marina Silva é política experiente. Angariou apoio dentro e fora do governo. Transformou o debate num confronto homem x mulher. Além do telefonema de solidariedade de Lula, a primeira-dama Janja da Silva chegou a chamar os senadores envolvidos de “bando de misóginos”. “A violência política de gênero e raça tenta nos calar todos os dias”, disse a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco.
No confronto Omar x Marina, ela ouviu que, se fosse ministra, “Brasília seria construída em 100 anos e não em cinco, Copacabana e Ipanema não existiriam, Camboriú seria inviável e os túneis de Carlos Lacerda e os governadores de São Paulo não existiriam”. O presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado, Marcos Rogério (PL-RO), bolsonarista, cortou o microfone da ministra e o debate subiu ainda mais de tom. Plínio Valério foi lá e quebrou os últimos cristais que restavam.
A “avaliação ambiental estratégica, para pensar a governança”, a frase de Marina Silva para justificar a demora no asfaltamento da BR-319, está sendo tratada pelo ministro dos Transportes, Renan Filho. As pontes que caíram nos rios Curuçá (28/09/2022) e Autaz Mirim (08/10/2022) serão inauguradas em setembro, três anos depois (uma vergonha). E, ainda assim, as populações de Roraima e Amazonas continuarão isoladas do resto do Brasil, que não sofre, nem quer saber do sofrimento diário dessa gente.
O confronto com Marina Silva põe em teste a habilidade dos políticos amazonenses. Amazonino Mendes, em 1994, encarou Fernando Henrique Cardoso, acertou os ponteiros com o então governador de Roraima, Neudo Campos, obteve autorização do Governo Federal e asfaltou os mais de 300 quilômetros da BR-174 (Manaus-Boa Vista) dentro do Amazonas e Neudo o restante dos cerca de 500 quilômetros, até Boa Vista, ainda não asfaltados. Entre Boa Vista e Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, já havia asfalto.
Quando esse Brasil sem alma, mergulhado em dogmas, assolado pelo confronto Lula x Bolsonaro, vai parar para pensar em sofrimento, miséria, angústia, isolamento e desenvolvimento estratégico? Está cada vez mais difícil.