
Pablo Marçal, na hora em que levou a cadeirada de Datena. Veja, no canto direito, abaixo, a cara da moça que fez a tradução para libras
Por Jorge Henrique de Freitas Pinho*
Confesso que cometi um erro. Não foi um erro colossal, daqueles que fazem um sujeito se esconder do mundo, trocar de cidade e até reinventar sua identidade, mas, ainda assim, um erro. Para meu consolo, foi um erro que compartilho com alguns políticos e comentaristas relevantes de direita, que por respeito deixo declinar seus nomes para não manchar suas ilibadas reputações – o que não se aplica a mim, porque não sou político nem comentarista nessa área, apenas um curioso torcedor vítima de sua própria curiosidade e fanatismo – mesmo com ressalvas, recebi entusiasmado a chegada espalhafatosa de Pablo Marçal, como um possível nome promissor para o campo conservador.
À primeira vista, parecia um outsider bem-sucedido, articulado, cheio de energia e, ao menos na teoria, um candidato que poderia trazer algo novo para a política. Mas a verdade é que, em política, a forma muitas vezes engana mais do que o conteúdo. O que parecia ser um líder emergente revelou-se um narcisista teatral, que misturou coaching com messianismo, genialidade com infantilidade e combate político com puro teatro.
Se há um motivo para escrever este artigo, além de manter vivo o questionamento sobre o caráter de quem quer ingressar na política, é garantir que esse registro fique público. Para que Marçal, caso ainda tenha um pingo de autocrítica, reveja sua trajetória. Ou, melhor ainda, para que ele e seus seguidores entendam que, sem que ele seja capaz de se reinventar com seus métodos de transformação pessoal ou talvez com uma bem trabalhada autoanálise filosófica, seu nome deve ser riscado da política de uma vez por todas. O Brasil já tem narcisistas e fanfarrões suficientes no campo da política.
Pablo Marçal surgiu como um coach motivacional, vendendo a promessa de destravar vidas, multiplicar riquezas e transformar fracassados em visionários. Seus eventos lotavam estádios e seu discurso arrebanhava milhares de seguidores.
Todavia, movido por seu aguçado oportunismo, ao perceber que o rótulo de coach não lhe conferia credibilidade política, tratou de renegá-lo como um figurante que, após um breve papel de sucesso, nega ter participado de uma novela fracassada.
De repente, o homem que se orgulhava de ensinar o segredo do sucesso queria que esquecêssemos sua trajetória. Negou seu passado, como Pedro negou Cristo — mas, ao contrário do apóstolo, não havia Gólgota, local onde Pedro foi crucificado de cabeça para baixo, tampouco redenção esperando por ele.
Talvez apenas a incontável série de memes que foram produzidos, ridicularizando sua situação. Algo que ele tentou resolver com suas máximas: receber, transformar e devolver. Estranhamente, não deu certo… De duas, uma: ou a máxima é só lorota ou foi vítima do famoso “Santo de casa não faz milagre!”
Marçal entrou na corrida pela Prefeitura de São Paulo convencido de que era um novo Moisés, pronto para abrir o mar vermelho da política com sua genialidade inquestionável. Mas o mar não se abriu, e ele se viu afundando num oceano de trapalhadas.
O momento mais simbólico de sua campanha — e possivelmente de sua carreira política até o momento — foi o infame debate em que protagonizou um dos episódios mais patéticos da política nacional, algo totalmente incompatível com sua alegada superioridade atlética, sua resistência incansável, sua resiliência absurda e mesmo com sua propalada capacidade de aprender e ensinar.
Durante a transmissão, Marçal decidiu provocar o jornalista José Luiz Datena, também candidato, talvez acreditando que o jornalista reagiria apenas com sua costumeira verborragia inflamada. O problema é que Datena, um sujeito que se irrita com situações que vão da cor de sua gravata até a previsão do tempo, não tem exatamente um temperamento sereno. O resultado? O jornalista, no auge da fúria, desferiu uma cadeirada contra Marçal — e acertou não apenas no corpo do auto-renegado coach, mas principalmente em sua reputação.
Agora, analisando bem a situação, qualquer político minimamente preparado teria se comportado com altivez ou, no mínimo, com alguma dignidade. Teria ficado firme até o final do debate e mantido a tranquilidade mesmo que estivesse sentindo dor.
Mas Marçal não é qualquer político. Em vez de seguir com o debate, resolveu encenar um drama barato. Saiu andando da transmissão, como se tivesse sido atingido por uma estaca no coração, e foi levado por uma ambulância, onde apareceu recebendo oxigênio, como se estivesse à beira da morte.
Logo o grande Pablo Marçal, que se autoproclama um resiliente vencedor do Ironman, não teve nenhum órgão perfurado, não sofreu hemorragia e não perdeu a consciência — mas fez questão de encenar sua “tragédia pessoal”, em um espetáculo patético de vitimização.
Mais tarde, à guisa de justificativa para sua atitude teatral, apresentou radiografia mostrando uma microfissura na costela, como se fosse o troféu de um grande martírio. Ora, para alguém que se gaba de suportar desafios extremos, um trincado ósseo deveria ser menos impactante do que uma cãibra durante o ato de pedalar em sua bicicleta.
E se o episódio já não fosse suficientemente vergonhoso, Marçal tratou de piorá-lo ao afirmar que sua ida cinematográfica ao hospital foi “ideia da equipe de marketing”. Esse detalhe, além de escancarar a encenação, revela outro traço inconfundível de sua personalidade: a completa incapacidade de assumir responsabilidade por seus atos. Como uma criança, flagrada em travessura, correu para culpar os outros, como se ele próprio fosse um mero espectador da própria campanha.
E pensar que essa é a mesma pessoa que se vendia como o líder supremo da resiliência, da superação e do mindset inabalável. No final das contas, sua mentalidade parece ser a de um adolescente mimado, incapaz de arcar com as consequências de suas próprias decisões.
Em sentido totalmente oposto, no ano de 1912, Theodore Roosevelt levou um tiro no peito, pouco antes de um comício. A bala atravessou os papéis do discurso e ficou alojada próxima ao pulmão. Mas Roosevelt não se vitimizou, não fingiu desmaiar e não precisou de ambulância. Ele discursou por mais de uma hora, sangrando, antes de aceitar ser levado ao hospital. Roosevelt, com sua coragem inabalável, mostrou o que é ser um verdadeiro líder. Marçal, por outro lado, encenou uma tragédia onde não existia perigo real, colocando o foco em si mesmo e em sua “vitimização”.
Se a cena da cadeirada não fosse suficiente para afundar sua credibilidade, Marçal tratou de cavar sua própria cova com um golpe ainda mais baixo. Durante a campanha, apresentou um documento falso alegando que Guilherme Boulos era usuário de cocaína. Uma jogada que conseguiu ser ao mesmo tempo suja e tosca, tão inepta quanto ineficaz. Para um homem que se orgulhava de ser um estrategista visionário, sua genialidade investigativa não resistiria a dois minutos de checagem em um programa dominical de fofocas.
Mas o show de trapalhadas ainda não tinha acabado. No segundo turno, Marçal acreditava que Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes implorariam por seu apoio. A realidade, no entanto, foi outra: ninguém se importou. A direita simplesmente o ignorou, e ele, ferido no orgulho, reagiu como um adolescente rejeitado no grupo de WhatsApp da turma.
Tomado por uma crise de relevância misturada com complexo de superioridade, resolveu então correr para os braços de Boulos, seu ex-adversário, aquele mesmo que ele jurava impedir de assumir a prefeitura. E assim surgiu o constrangedor episódio de seu bate-papo amigável com o líder do PSOL, onde Marçal, que outrora se apresentava como um gladiador do conservadorismo, tornou-se um dócil entrevistador, incapaz de rebater até as mais absurdas falas de Boulos. A quem desejava enganar? O homem que se dizia “o cara que jamais deixaria Boulos sentar na cadeira de prefeito” agora estava ali, com sorrisos e elogios, como se o embate nunca tivesse existido.
Era o desfecho perfeito para uma campanha onde a coerência foi chutada para escanteio e a sede por atenção venceu qualquer compromisso ideológico. Um final digno de um político cujo maior talento parece ser a capacidade de se desdizer com a mesma convicção com que antes discursava. Será que Marçal estaria na verdade “modelando”, para usar seu jargão de coach, o comportamento de seu verdadeiro mentor político? Um candidato à reeleição que Marçal considera imbatível em 2026, cujos gestos manuais de campanha inspiraram o famoso Faz o M? Infelizmente, o faz o M adotado por Marçal não se mostrou um M de melhor, mas o de coisa mal cheirosa que não merecer ser escrita nesta crônica, da mesma forma como o gesto de seu verdadeiro inspirador tem sido associado a uma outra palavra que justifica sua conduta na vida pública?
Para fechar sua saga de fiascos, Marçal insistiu em afirmar que Jair Bolsonaro lhe deu três recomendações antes da candidatura. A mais importante? “Não cometa erros, porque a Prefeitura vai cair no seu colo.”
Bem, para dizer o mínimo, errar foi exatamente o que Marçal mais fez em sua ciclotímica campanha — e em escala industrial. De fato, a Prefeitura não caiu no seu colo, mas os memes, a chacota pública e o rótulo de fanfarrão sim.
Se havia uma chance de se consolidar como uma liderança da direita, ele próprio tratou de pulverizá-la. Se queria se tornar um símbolo do conservadorismo, fracassou espetacularmente com suas atitudes teatrais. Se pretendia se firmar como um estrategista, mostrou-se um amador. No final das contas, não passou de um narcisista oportunista que confundiu palco de coach com arena política.
Apesar de tudo, preciso ser honesto: em política, sou pragmático. Entre a maioria dos políticos, vou sempre ficar com o menos pior. Espero sinceramente que o Brasil não me obrigue um dia a votar em Pablo Marçal apenas para impedir que a esquerda do “amor” continue a comandar a Nação.
Esse, sem qualquer sombra de dúvida, seria o tipo de ironia cruel que nem mesmo Machado de Assis, com toda sua genialidade, poderia conceber — e que nenhum eleitor de direita deveria ter de suportar.
Ao querido professor Félix Valois, cujo humor mordaz, ironia afiada e maestria machadiana sempre foram uma inspiração. Esforcei-me ao máximo para alcançar, ainda que de longe, o brilho de seu estilo, que tanto admiro. Se falhei, foi por limitação própria. Se acertei em algo, foi porque segui seu exemplo.