
O 28 de Agosto e o Dona Lindu estão sob nova direção. É preciso atenção redobrada dos órgãos de controle e da sociedade em geral. Foto: Evandro Seixas/SES-AM
O Panavueiro do fim de ano foi grande. Os médicos das cooperativas de Traumatologia e Ortopedia (Itoam) e Instituto de Cirurgia (Icea) deixaram o Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto. A Associação Goiana de Integralização e Reabilitação (Agir) administra, desde dezembro, tanto o 28 de Agosto quanto o Instituto da Mulher Dona Lindu. Trata-se de uma Organização Social de Saúde (OSS). Mas, além disso, a coluna quer meter o bedelho na eleição de 2026 e na recente posse de prefeitos, que deixou para trás ex-prefeitos com liderança robusta. Vamos lá.
Cooperativas médicas foram uma criação do então governador Amazonino Mendes para resolver um problema dos hospitais estaduais: os médicos fingiam que trabalhavam e o governo fingia que pagava. Amazonino triplicou os salários/mês, mas (sempre tem um “mas”) deixou uma arapuca. Os contratos só ficam inadimplentes quando o Estado deve três meses. Daí que, é praxe, todos os anos, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) atrasar os salários dos médicos.
Os médicos que deixaram o 28 de Agosto são alguns dos mais tarimbados do Amazonas. Aquele hospital, naquela correria, vai calejando os profissionais. Há questões fundamentais. Como não houve acordo (financeiro-profissional), das cooperativas com os novos gestores, médicos de outros Estados, Goiás, principalmente, estão ocupando os cargos. O governador afirma que o atendimento melhorou, mas como ficará quando houver a tradicional volta dos que não se adaptam ou não renovam contratos?
O Governo do Estado tem dito que até fevereiro vai zerar o pagamento atrasado das cooperativas. Tomara. O orçamento da saúde leva pelo menos um quarto (25%) do orçamento estadual, que este ano é de R$ 31,5 bilhões. Ou seja, a Sefaz disponibilizará em torno de R$ 8 bilhões para o setor. Wilson Lima, trabalhador de carteira assinada, antes de chegar ao cargo, sabe muito bem o que representa salário atrasado. Salário é sagrado.
Organizações Sociais de Saúde fracassaram rotundamente, para usar uma expressão de Leonel Brizola, no Rio de Janeiro. Foram colocadas para correr, a bem do serviço público. A natureza delas é “sem fins lucrativos” e, grosso modo, apresentam projetos, recebem o dinheiro e trabalham depois. Nasceram para desburocratizar a gestão e aprimorar o uso do dinheiro público. São, na teoria, “a sociedade ajudando ocupantes do Executivo”.
O portal estudou os problemas que levaram ao caos no Rio de Janeiro e outras plagas. É nisso que o Amazonas precisa ficar de olho. Aqui vai uma lista:
1) médicos e fornecedores estão sendo pagos em dia? Porque se OSS recebe na frente, não pode atrasar nem meia hora;
2) a “desburocratização” não elimina a livre concorrência. Quais empresas estão concorrendo e ganhando as tomadas de preços? São as mesmas? A prática danosa é pegar três empresas parceiras, numa “concorrência”, digamos, “caseira”, e escolher a mais conveniente – e não a melhor.
3) a prática do dia-dia melhorou? O governador afirma que havia paciente tomando antibiótico há 30 dias, aguardando cirurgia. Disse que esse prazo seria reduzido para menos de 24 horas. Os órgãos de controle têm os mecanismos para fiscalizar.
4) quais os salários dos chefões da OSS, os administradores, os nomes por trás de tudo? Saúde é feita por médico. Gestor ficar com a parte do leão, daqueles gulosos, é distorção grave.
Antes do caos, enfim, a sociedade tem instrumentos para fiscalizar. Em saúde, o “voto de confiança” pode significar vidas perdidas.
A eleição para prefeitos municipais e vereadores, em 2024, virou uma corrida de estruturação da campanha de 2026. A síntese do momento é Omar Aziz correndo solto para chegar ao Governo do Estado e Eduardo Braga garantindo a reeleição, em uma das duas vagas no Senado.
Wilson Lima disse, na reunião de fim de ano com os deputados estaduais, que é candidatíssimo ao Senado. Para isso, diz a lei, terá que deixar o governo no começo de abril do ano que vem. Trabalha para reverter a imagem que o derrotou, em Manaus, Parintins e outras cidades, em 2024.
Com Renato Jr. vice-prefeito e Tadeu de Souza governador – o que ocorreria com a saída de Wilson Lima para o Senado – o cenário é o ideal para David Almeida. Nunca mais, em tempo algum, ele teria condições tão favoráveis para concorrer ao Governo do Estado, seu grande objetivo.
Há vozes, dentro do Governo do Estado, defendendo que o governador fique na cadeira, até o fim do mandato, faça um acordo com Omar Aziz e depois este o nomeie para uma vaga no Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM). É tão bom assim? É.
Um grande filósofo da política, que não autorizou revelar a fonte, diz que o gestor público se engana muito facilmente. Pode até trabalhar de 5h à meia-noite, mas se ficar atrás de uma mesa, assinando papéis e tomando água e café, isso não significa nada. Prefeito tem que realizar, diariamente, porque, lembrando Margareth Tatcher, está gerindo o dinheiro que o contribuinte deixou de levar para casa e pagou em impostos.
Há ex-prefeitos cheios de gás. É o caso do prefeito Bi Garcia, de Parintins, que conseguiu eleger o sucessor, Mateus Assayag, numa vitória expressiva. Bi é apontado como possível vice na chapa de Omar Aziz e até para concorrer ao Senado.
Enquanto há ex-prefeitos com grande potencial, após os oito anos no cargo, outros estão desvalorizando a própria trajetória. É o caso do agora ex-prefeito de Borba, Simão Peixoto. Ele dificultou ao máximo a transição para Raimundo Santana de Freitas, o Toco Santana, que ganhou na oposição. Tanto que, só na Justiça, o novo prefeito conseguiu acesso a documentos.