19/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

As festas do interior e o impacto do balde d’água atirado pelo Governo do Estado

Publicado em 02 de setembro, 2015

É muito fácil, em Manaus, pegar um cineminha, passear no shopping ou curtir um show de um dos grandes artistas/ grupos nacionais. No interior do Amazonas, onde não há nenhum cinema, o povo abraça qualquer evento como os náufragos se agarram à tábua de salvação. Daí o impacto do balde de água fria que o Governo do Estado acaba de jogar nas festividades interioranas, com corte drástico da ajuda financeira, a começar por Ciranda de Manacapuru e Festival da Canção de Itacoatiara (Fecani), passando pela Feira Agropecuária do Careiro Castanho (Agropec), as festas “setembrinas”, e chegando até ao incensado Festival de Parintins.

Há um ponto, no qual as autoridades estaduais “mãos de tesoura” procuram se apoiar, que é perfeitamente lógico: é preciso dar um basta à farra de dirigentes sem qualquer outra atividade, vivendo exclusivamente do desvio das verbas públicas destinadas a essas festas.

Até aí, porém, há incongruências na atitude governamental. Por quê, verificada essa modalidade de roubo, os responsáveis não são identificados e punidos? Se prestações de contas são sonegadas, qual a razão de o Estado insistir tanto em “jeitinhos” para continuar repassando recursos, sem que a opinião pública possa apontar na cara de quem se presta a esse papel?

O calendário de festas no interior amazonense é extenso. Quase toda cidade tem uma. Seria o caso de se estabelecer uma rota turística, com incentivo em transporte, hospedagem e infraestrutura gastronômica, para ampliar a atividade econômica em torno delas. Os adventistas, que realizam o Campori esta semana, em Rio Preto da Eva, estão dando um show de organização e estruturação do espaço.

A administração estadual, além disso, não pode esquecer a lição de Abraham Lincoln: “Tenha a opinião pública a seu favor e todo o resto lhe será possível”.

No lugar da habilidade na gestão dos cortes, justificáveis em face da crise econômica, desastres seguidos. Foi o caso da Ciranda e do Fecani, cujos dirigentes foram avisados, bruscamente, a menos de um mês da realização dos eventos, do corte raso de todo e qualquer apoio financeiro. O mesmo governador José Melo, momento seguinte, volta à mídia para anunciar que “vai arranjar” metade do valor esperado.

O Governo do Estado fez barba, cabelo e bigode. O desastre foi econômico, com os comerciantes precisando cancelar compras e rever estoques, e político, com o senador-ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga, recebendo no colo prefeitos e dirigentes dos Municípios atingidos. Foi ovacionado nas festas, enquanto o governador, se comparecesse, teria que reforçar a segurança.

Tivessem tais medidas sido anunciadas seis meses antes e os rumos seriam outros. A saída de buscar alternativas na iniciativa privada, ao mesmo tempo, é perfeitamente viável e desejável, embora muito difícil sem a atuação do Governo do Amazonas, como indutor do processo.

A inabilidade é tamanha que, mesmo hostilizado pelas cidades atingidas pelos cortes, o governador José Melo não pode negar segurança e infraestrutura mínimas às festas. Como fazer o Fecani sem tapar as crateras da rodovia Manaus-Itacoatiara? Ou Ciranda sem reforçar a sinalização na área em obras da Manaus-Manacapuru? Sem policiamento, a festa não é possível. E confusão tem repercussão internacional, como se viu recentemente, após o fim de semana de 35 assassinatos em Manaus.

É dever do governante zelar pelas finanças públicas, no orçamento presente e no investimento passado. Afinal, se a manutenção de um prédio está sendo difícil, a saída seria derrubá-lo? No caso dessas festividades, preservá-las é zelar por todo o dinheiro que tantos governos anteriores investiram na realização de décadas de eventos.

As festas do interior precisavam sim de uma sacudida. Mas não é matando o doente que se cura a doença.

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