
Luiz Gonzaga do Caprichoso, a família, com todos os que estão em Parintins, foi agradecer a João Paulo Faria (de vermelho e branco) e ao pai dele, Zezinho Faria (de vermelho).
Luiz Gonzaga, um homem simples, pescador e calafate (calafetava barcos), foi aviltado em sua memória. Ninguém nunca levantou um cipó requisitando para Roque Cid o título de “fundador do Boi Bumbá Caprichoso”. E, mesmo assim, com evidências pífias, absolutamente pueris, a Família Gonzaga viu, de repente, o nome de seu Maior desaparecer do contexto histórico do Caprichoso. Até que, ano passado e este ano, numa insistência que nos faz muito bem, João Paulo Faria, o JP Faria, Amo do Garantido, reviveu nos versos a verdade dos fatos, em pleno Festival de Parintins.
O que houve? Dodozinho Carvalho, então presidente do Caprichoso, ousou recuperar a casa onde morava a viúva de Luiz Gonzaga, tia Izolina. Ainda era a mesma casa de madeira, enorme, com um salão espaçoso, onde o Boi Bumbá Caprichoso foi, durante décadas, cuidadosamente guardado. Construiu a casa de alvenaria que permanece no mesmo lugar, na Travessa Rio Branco. Foi assim que, em vida, Izolina recebeu um pouco do muito que ela e tio Luiz deram pelo bumbá, pouco antes de falecer, aos 106 anos.
Há nos bumbás uma política lamacenta, pantanosa, onde chafurdam os mais obscuros interesses. Daí que, para eliminar Dodozinho e seu grupo político, era preciso reduzir a obra da gestão dele a pó. Foi por isso que Márcia Baranda, presidente, reuniu um grupo para conduzir a história para Roque Cid, afastando o nome de Luiz Gonzaga.
Só isso? Só. Ah, tem mais um detalhe: há integrantes do Caprichoso com um complexo de vira-latas inaceitável e injustificável. Essa gente, no lugar de mergulhar na rica história do nosso boi, quer porque quer imitar o Garantido. Foi um amo que fundou o Garantido? O Caprichoso, onde nunca o tirador de verso teve o papel de “dono”, também precisa ser fundado por um amo, Roque Cid, no caso. É um boi de promessa? Roque também fez uma promessa, ao chegar a Parintins, de que fundaria um boi. Já ouviram essa história? Pois é, igualzinha à do Garantido.
Luiz Gonzaga era humilde. O melhor peixe ele trazia para Elias Assayag, avô do vereador Matheus Assayag, pré-candidato a prefeito de Parintins, e para Raimundo Dejard Vieira, o Didi Vieira. Não cobrava nada. Queria apenas, no mês de junho, o veludo e o pó brilhante, para cobrir o boi, e um “mamote” de cada um para a feijoada do “Dia da Morte”, em julho.
Luiz Gonzaga, porém, tinha uma moral danada na cidade. Quando algum conhecido tomava umas cachaças a mais e fazia algum tipo de arruaça, ele era chamado, fosse dia ou fosse noite, para ir tirá-lo da cadeia. E voltava com o preso, “ralhando” muito, mas em liberdade. Como conseguia essa autoridade? Com uma frase: “Deixe ele comigo, doutor!”.
Luiz Gonzaga é tio de Rubem dos Santos, que dá nome à maior arena esportiva do Amazonas, em Parintins, irmão de Zé Caiá, e tio adotivo de Chico da Silva, que está aí, vivinho, para contar a história verdadeira.
Nossa família é humilde, simples, trabalhadora, tendo construído cada tijolinho da existência na base da raça e de muito trabalho. Não nos demos conta do tamanho da injustiça, nem que reverberaria com tanta força nos anos seguintes. É, afinal, o tempo da comunicação e a virulência dela se abateu sobre Luiz Gonzaga de forma fulminante.
Há mais. O Caprichoso, este ano, faz justa recordação do Urubuzal, o Parque das Castanholeiras. Lá, o Festival de Parintins se realizou, um ou dois anos, e o Caprichoso se apresentou um ano, na década de 1970.
O Urubuzal, nesses tempos em que a memória parece nada valer, vai entrando nas mentes das pessoas como “o local onde nasceu o Caprichoso”. Ou, no mínimo, “o Caprichoso nasceu na Sá Peixoto, o Esconde”. Nenhuma das duas coisas é verdade. O Caprichoso nasceu na Travessa Rio Branco, oriundo do Boi Galante (que nasceu em terreno ao lado da casa de Luiz Gonzaga), no quintal do Tio Luiz, onde ficou até ele falecer.
O “Esconde” é reduto da Família Cruz, também de grande tradição no Caprichoso, que jamais negou Luiz Gonzaga. Naquela rua, a Sá Peixoto, o Caprichoso brincou alguns anos, num terreno de tia Osmarina e tio Santarém, ela irmã mais velha de Luiz Gonzaga, a alguns metros do Urubuzal. E seo Élcio Cruz foi presidente do Caprichoso.
No curral Zeca Xibelão foram erguidas três estátuas, numa pracinha, simbolizando os nomes principais do Caprichoso. Roque Cid está em destaque e Luiz Gonzaga aparece em um banco, como que reverenciando-o, ao lado de Seo Luizinho. É mais uma agressão. Seo Luizinho foi importantíssimo, ao ceder o terreno da casa dele para o Caprichoso – deu a alma pelo boi! –, no início da década de 1980. Mas vários outros ex-presidentes, como Acinélcio Vieira e Rai Viana, ou matriarcas, como Ednelza Cid, mereciam o mesmo espaço na história do bumbá.
Honra, tradição, amor pelo Caprichoso e pela memória de nosso tio são parte da vida dessa família. Foi assim que, num gesto extremado, todos vestiram branco e foram reverenciar João Paulo Faria, o Amo do Garantido. Nada de vermelho. Nada de “se não cultuam a memória de Luiz Gonzaga mudamos de boi”. Nada disso. Somos azul e branco e vestimos branco (se estivesse em Parintins, eu estaria ao lado deles) em respeito ao Garantido, em sinal de paz e como um luto de protesto pela memória de Tio Luiz.
Até quando a verdade precisará ser esgrimida na cara dessa gente, pelo bumbá que é nosso adversário? Até quando gritará, no Bumbódromo, como ontem (28/06), manchando o trabalho primoroso do presidente Rossy Amoedo? Quantos presidentes mais sofrerão essa vergonha? Vergonha só sente quem tem.
Viva o Caprichoso. Viva Luiz Gonzaga. A poronga não vai apagar.