
Dia do Jornalista, todos se sintam homenageados por dois dos maiores, Mário Monteiro (esquerda) e Wilson Nogueira
O Dia do Jornalista, comemorado neste 7 de abril e em várias outras datas, é chance para pensar aspectos discutidos sobre a profissão. Cláudio Abramo (falecido em 1987), em “A ordem do dia”, deixa um conceito lapidar: “Sou jornalista, mas gosto mesmo é de marcenaria. Gosto de fazer móveis, cadeiras, e minha ética como marceneiro é igual à minha ética como jornalista – não tenho duas. Não existe uma ética específica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão.”
No momento, há muita cadeira desmanchando por aí, na hora do uso, e o jornalismo precisa de reflexão.
Aproveito para homenagear todos os colegas. E o faço em duas figuras, Wilson Nogueira e Mário Monteiro. Tem outros que, apesar de poucos, estão nesse nível, claro, mas aí, se fosse citar todos, essa homenagem ia virar um livro.
Resumir as vidas profissionais dos dois não é nada fácil.
Wilson, nascido em Parintins, iniciou a carreira no jornal Médio Amazonas. Era uma publicação mimeografada, em quatro páginas, com muita fofoca e sangue. Veio para Manaus e foi fazer polícia na Rádio Baré, onde havia expoentes do ramo. Mas se destacou tanto que acabou virando estrela da reportagem no Jornal do Commercio, do mesmo grupo.
Daquele início, que parecia indicar um mergulho no submundo do jornalismo, Wilson se tornou editor-chefe no Commercio e depois em A Crítica. Saiu da Ilha Tupinambarana com o Ensino Fundamental e mergulhou nos estudos, paralelamente ao trabalho, sendo hoje um dos jornalistas com mais títulos acadêmicos do Amazonas, incluídos aí mestrados e outras pós, pós e pós, além de escritor, com diversos livros publicados.
Mário Monteiro de Lima, que foi presidente do Sindicato dos Jornalistas em horas difíceis, tendo conduzido o barco com maestria, era um azougue na datilografia e depois na digitação. Dono de texto brilhante, o cara foi responsável por algumas das mais refletidas e bem-feitas primeiras páginas de A Crítica, que editou por anos a fio. Era também advogado e exerceu cargos de direção em jornais.
São belos exemplos do que acontece com o jornalismo atual: ainda na faculdade, o estudante é contratado pelos veículos, tradicionais ou da mídia digital, como “estagiário”, ganhando salário de merreca. Aí se forma, se qualifica, fica traquejado na profissão e ninguém mais quer contratá-lo, para não pagar o salário devido. Muitos desistem e se “escoram” em assessorias, onde vão ficando, ficando e terminam por aí.
A conclusão do ilustre leitor parece óbvia: não vale a pena, nesse contexto, atingir o nível de excelência de um Wilson Nogueira ou Mário Monteiro.
O problema é que essa tem sido a regra do mercado. E se tornou a grande armadilha da profissão. Quanto mais qualificado, o jornalista está mais preparado para oferecer o melhor aos leitores, telespectadores ou internautas. Dando-se o contrário, no caso específico aqui abordado.
Manaus já teve grandes redações. A indústria do jornal chegou perto da perfeição. Uma equipe de esportes de A Crítica, que dirigi, chegou a ter editor, dois sub-editores e dez repórteres – além dos diagramadores, revisores e fotógrafos, que eram parte da equipe geral do jornal. Isso se refletiu em excelente momento de diversos esportes, a começar pelo São Raimundo, além de destaques na natação, jiu-jítsu, judô e até boxe e xadrez. A visibilidade atrai patrocinadores e incentivava a qualificação.
Hoje não há, em qualquer veículo, redação atual na cidade do tamanho daquela de Esportes. E vinham ainda, devidamente estruturadas, as editorias dos diversos segmentos (Cidade, Política, Nacional, Internacional, Polícia, Economia, Cultura). Jornalista para chegar a editor de qualquer uma delas tinha que ter gramado um bocado ou não segurava o rojão.
Wilson e Mário, parabéns, no Dia do Jornalista. Vocês são o melhor que a profissão pode construir. Tomara que todos fossem iguais a vocês.
Bora continuar lutando, colegas.