03/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Prefeitos de Parintins, Xibiu, Gláucio, Bi e o melhor do Festival

Publicado em 23 de fevereiro, 2024

Prefeitos de Parintins

Prefeitos de Parintins mexeram na estrutura da Festa dos Bumbás até aqui e Isabelle Nogueira (foto), que teve reportagem na Revista Billboard Brasil, vai atrair mais público. É preciso refletir

O Festival de Parintins 2024 promete. Isabelle Nogueira, a cunhã-poranga do Garantido, que está no BBB24, desperta a curiosidade brasileira e o interesse da TV Globo. A Festa dos Bumbás parece prestes a romper o regionalismo dos últimos anos e voltar ao cenário nacional. Movimento Marujada e Amigos do Garantido preparam o rufar do tambor em Manaus, com frisson que não se via há tempos. O otimismo dominante tem toda justificativa. E nessas horas é preciso um pouco de história e reflexão.

O Festival de Parintins tornou o Bumbódromo pequeno. O local, inaugurado pelo governador Amazonino Mendes, em 1988, foi concebido para 12 mil pessoas. Virou um escândalo nacional, durante a obra, chamado de “elefante branco na selva amazônica”. “Jamais vai lotar”, diziam os críticos. Lotou tanto, na primeira noite, que quase provoca um desastre: os engenheiros, no dia seguinte, comprovaram que os ferros das vigas de sustentação ficaram retorcidos pelo peso. Um reforço foi feito às pressas para a segunda noite. Logo, logo se falou em “público de 50 mil pessoas”, que, com todas as reformas, o Bumbódromo não comporta nem hoje.

Como essa discussão de público sempre dá em confusão, aí vão os números oficiais:

Arquibancadas do povão – 3.078 pessoas em cada uma;

Arquibancada especial – 1.653 de cada lado;

Arquibancada central – 296 cada;

Reunindo tudo, inclusive camarotes, o total de pagantes é de 6.132 pessoas. Pegue os da arquibancada gratuita (3.078 X 2 = 6.156), mais os camarotes de autoridades, patrocinadores, bumbás etc. e o total não chega a 20 mil lugares. É esse o público máximo do Bumbódromo.

Saída? Derrubar tudo e fazer um novo, sem os penduricalhos que foram sendo colocados ao longo do tempo. Vale lembrar que a Arena da Amazônia, estádio gigantesco, construído para a Copa 2014 e que abrigou jogos da Olimpíada 2016, tem capacidade máxima de 44.300 espectadores. Ou seja, o público vai chegar a uns 30, 35 mil, se muito.

Bares e restaurantes dos arredores do Bumbódromo já fazem um pouco isso, mas é hora de criar os “fan fests”, locais gratuitos onde o público que não vai ao Bumbódromo teria comodidade para ver a Festa dos Bois e só pagar a bebida. É só seguir os moldes da Copa do Mundo e da Olimpíada.

O ano de 2024, portanto, com a superdivulgação prenunciada, pode significar mais crítica à infra deficitária de Parintins ou aos preços elevados. É preciso ter cuidado para que a lei da oferta e da procura, que se impõe sempre, não transforme tudo num tiro no pé.

E sempre, nessa hora, quando o otimismo é a nota, é preciso um pouco de história.

O Festival de Parintins nasceu na Juventude Alegre Católica (JAC), numa acanhada quadra onde se disputavam peladas de futsal e vôlei. O espaço para o público, ao lado da Catedral de NS do Carmo, era mínimo. O ufanismo da época falava em 5 mil pessoas na plateia, mas quem conhece o local sabe que não cabia. Tanto que, nos anos seguintes, a festa andou pelo Parque das Castanholeiras, o “Urubuzal”, terreno do Ipasea e estádio Tupy Catanhede. Até que o prefeito Gláucio Gonçalves construiu o “Bumbódromo de madeira”, no exato local onde hoje existe o de alvenaria.

O Caprichoso, com Elcio Fonseca, presidente, Zazá, amo e tirador de toada, Ana Celeste de Miss do Boi e Cleó Marques de Rainha do Folclore, trajando inéditos maiôs, sacudiu os alicerces da festa. O Garantido reagiu com Jair Mendes e o seu Boi Biônico, se mexendo todo, numa alusão ao “homem de 6 milhões de dólares”, o Cyborg, seriado de sucesso na TV. E veio ainda com os capacetes gigantescos, concorrência às joias artesanais (mas pequenas) produzidas anualmente por Zeca Xibelão, que hoje dá nome ao curral do Caprichoso.

A Festa dos Bumbás foi feita a muitas mãos. Os fundadores do Caprichoso, Luiz Gonzaga à frente, Lindolfo Monteverde, fundador do Garantido, a família Maia, Didi Vieira… e os prefeitos de Parintins Gláucio Gonçalves, Raimundo Reis Ferreira, o Xibiu, e Bi Garcia têm papel relevante.

Gláucio, na década de 1980, criou o “Bumbódromo de madeira”. Era, em miniatura, um pouco do que existe hoje, com arquibancadas para as torcidas e alguns camarotes. Foi nele que o governador Amazonino Mendes decidiu construir o Bumbódromo atual.

Xibiu, concorrente político de Gláucio, levou o Festival de Parintins à TV Globo, em seu primeiro mandato (1981-1984). A “Vênus Platinada”, como chamava Ibrahim Sued, tinha perto de 100% da audiência nacional. Depois, no segundo mandato, Xibiu foi mais ousado. Contratou o publicitário Valdo Garcia para fazer um documentário “capaz de entrar na Globo”. Valdo chamou o diretor Edilson Martins, que havia dirigido vários programas do Globo Repórter. E este trouxe o cinegrafista-fotógrafo Silvester Campi, o primeiro a filmar um surfista dentro do tubo e dono de um programa sobre surf no Fantástico.

Valdo também chamou a mim e Nelson Brilhante como produtores.

O documentário se chamou “O boi bumbá no planeta água”. Trouxe o entorno de Caprichoso e Garantido, com as paisagens deslumbrantes de Parintins, e, como fios condutores, Braulino, pescador, autor de “Tic-Tic-Tac”, que o programa lançou, mais Horácio, vaqueiro, amo e autor de toadas antológicas do Caprichoso.

Foi um sucesso. Dez minutos no Fantástico e seis minutos na CNN, então primeira e única rede de TV planetária. Xibiu, que anda esquecido, merece uma estátua pela iniciativa, que tornou a Festa dos Bumbás conhecida nacional e internacionalmente.

Bi Garcia, o prefeito atual, fez outro gesto que passa despercebido. Vai além da iniciativa de devolver aos bumbás tudo o que a Prefeitura consegue de excesso de arrecadação no período da festa, prática que mantém desde o primeiro mandato. Ele, agora, chama juiz e promotor locais e faz ampla explanação aos jurados. Conta a história dos bumbás e do Festival de Parintins. Explica armadilhas. Diz o que se espera deles. E, sobretudo, afastou o nefasto “vigia de jurado”, caminho pelo qual entravam subornos e tudo o mais que você possa imaginar, para agradar os ilustres julgadores.

Os bumbás podem voltar a viver grandes momentos, com Studio 5 lotado, TV Amazonas entupindo a programação com itens dos bumbás e Globo divulgando a festa a torto e a direito. Mas é bom se preparar para isso.

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