09/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Seleção Brasileira: ‘Para barco sem direção, não existe vento favorável’

Publicado em 10 de julho, 2014

Um amigo mineiro, de uma infância pobre em Teófilo Otoni (MG), que jamais esquentou os bancos de uma universidade, certa vez disse-me que, antes de conseguir sucesso empresarial em revenda de veículos, teve que ir à falência algumas vezes.

Neste mesmo raciocínio, em Brasília, quando era consultor do Sebrae, conheci a empresária Heloísa Assis (Zica), em uma palestra sobre empreendedorismo, que nos contou como, inconformada com o seu cabelo crespo, resolveu misturar diversos produtos em uma alquimia particular, até chegar a uma fórmula que pudesse relaxar suas madeixas pixaim. A busca dessa fórmula perfeita durou dez anos e nesse período queimou o próprio couro cabeludo e também queimou os cabelos de parentes. Quando, finalmente, conseguiu seu objetivo e cativando o interesse de conhecidos, para ter um cabelo igual, Zica percebeu que poderia lucrar com a fórmula e fundou o salão Beleza Natural (no morro do Catambri, Tijuca-RJ). Em 2013, a Beleza Natural faturou R$ 180 milhões e vendeu 33% das ações de seu negócio por R$ 70 milhões para o grupo GP Investimentos.

As histórias de empreendedorismo de meu amigo mineiro e de Zica se cruzam em três pontos: (1) Uma infância pobre; (2) Persistência para não desistir; (3) Empirismo sistemático até o sucesso.

Nessas duas histórias é certo que a característica mais importante é a perseverança. Sem ela teriam desistido na primeira adversidade e não teriam apreendido com os próprios erros. No entanto, haveria a possibilidade de terem obtido sucesso em menos tempo, se juntamente com essa persistência Heloísa tivesse estudado química e meu amigo mineiro tivesse passado por uma escola de negócios, haja vista que ambos já eram empreendedores natos.

Porém, ao verem seus negócios crescerem, foram abandonando o empirismo e passando a buscar ajuda em sofisticadas ferramentas de gestão, buscando apoio em consultorias e, principalmente, investindo em planejamento. Sem planejamento não é possível criar condições favoráveis para pisar em solo firme ou, plagiando Sêneca: “Para barco sem direção, não existe vento favorável”. Planejar economiza tempo, dinheiro, melhora a gestão quando estabelecidas em objetivos e metas.

A seleção da Alemanha, que nos impingiu a maior humilhação desde 1950, é um exemplo como o empirismo, mesmo nos esportes, já não faz sucesso mesmo com ventos favoráveis, pois ter bons jogadores já não é o suficiente, sendo necessário planejar.

Iniciaram a participação em solo brasileiro em dezembro do ano passado, quando começaram a construir seu Centro de Treinamento (CT), na Vila de Santo André, litoral baiano, a apenas 30 quilômetros do aeroporto de Porto Seguro. O CT é composto de um campo de futebol, um centro de imprensa e de 13 casas, em um total de 65 quartos confortáveis, criando uma atmosfera de uma vila sossegada, muito distante dos grandes e congestionados centros urbanos. Porém, a escolha do local não foi aleatória, mas estrategicamente planejada e logisticamente adequada às locações das primeiras partidas da seleção alemã, que ocorreram no nordeste. Ao final, todo o complexo será colocado à venda, pois na verdade trata-se de um projeto imobiliário de alto padrão.

Não é somente na escolha de construir seu próprio CT que a Federação Alemã de Futebol surpreende, mas com o uso da tecnologia para alcançar melhores resultados.

Com a parceria que firmou com a SAP, empresa mundialmente conhecida por seus aplicativos de gestão integrada, foi desenvolvido um software que analisa com riqueza de detalhes o desempenho de cada um dos seus atletas nos treinamentos e nas partidas, bem como analisa seus adversários. Logicamente, a partir da análise das deficiências é possível planejar melhorias, assim como aprimorar estratégias para atingir os melhores resultados. O mais importante neste software é que a informação não é exclusiva da equipe técnica, mas difundida entre todos os jogadores, que as recebem em seus dispositivos móveis (tablets, smartphones etc.).

No jogo contra o Brasil, por exemplo, o técnico Joachim Löw determinou que se atacasse a Seleção Brasileira com velocidade, pois o aplicativo já havia sinalizado que nossa zaga tinha dificuldade em recompor-se em ataques rápidos. O software mapeou os pontos fracos do Brasil e permitiu à equipe alemã planejar estratégias para vencer o jogo.

Se a equipe alemã é um espelho de planejamento, a composição de nossa seleção foi baseada no empirismo, a começar pelas convocações, com inúmeras tentativas de erros e acertos, desde a era Mano Menezes, quando se fez a opção por uma renovação radical.

Da seleção base de 2010 (do técnico Dunga) restaram apenas Júlio César, Thiago Silva e Ramires, que ficaram para 2014, e nomes como Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Ganso, Robinho e Pato passaram e não prosperar com Felipe Scolori.

Enquanto isso, a seleção alemã manteve o técnico, assim como oito jogadores da seleção que foi terceira colocada em 2010.

Jogadores como Schweinsteiger, Klose, Podolski, Kroos, Khedira, Neuer e Phillip Lahm trouxeram a experiência de copas passadas e agora estão às portas dos píncaros da glória. Absolutamente não desejo aqui dizer que o Dunga devia ter sido mantido como técnico, mesmo porque sua estreia como técnico ocorreu na Seleção Brasileira, em uma aventura de Ricardo Teixeira (ex-presidente da CBF). O que desejo apontar aqui é a desorganização e a falta de investimento em planejamento estratégico, na maior paixão do povo brasileiro que é a sua seleção nacional.

Em relação à seleção da Argentina, não vou entrar em maiores detalhes, mas à exceção do técnico Maradona, praticamente a seleção de 2010 é a base desta seleção atual, com sete jogadores daquela época (Messi, Mascherano, Di Maria, Aguero, Higuain, Romero e Max Rodriguez), mas que já foram fregueses dessa Alemanha, quando foram eliminados na última Copa por 4 a 0, nas quartas de final. Assim, o jogo do domingo terá um significado especial, pois o histórico conspira para que a seleção germânica seja a grande vencedora desta Copa, mas os argentinos estão motivados e Messi até já cantou a “musiquinha” infame que a torcida portenha trouxe para o Brasil, para gerar provocações entre os brasileiros. Não arrisco dizer quem será campeão, mas torço para que os argentinos voltem para casa chupando o dedo.

Quanto à Seleção Brasileira, nesta aventura que foi trazer para o Brasil uma Copa do Mundo, com todas as deficiências em planejamento e atrasos para entregar as obras necessárias para o evento, tudo isto contribuiu para a decepção do povo brasileiro e a falta de planejamento também se refletiu na formação de um elenco fraco e muito abaixo da altura do espetáculo. O fracasso da Seleção Brasileira é um exemplo de como é importante planejar para se ter sucesso, inclusive no futebol.

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Autor
João Lago

* João Lago é professor universitário, mestre em Administração (Estratégica / Marketing), tem 10 ...

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