05/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Bumbás ganham certidão negativa. Patrimônio sai da penhora

Publicado em 20 de junho, 2023

Bumbás ganham certidão

Bumbás ganham certidão, a partir de acordo celebrado nesta terça (20/06), no TRT11. Na foto, o grupo que estava na sede do TRT11, com o presidente Audaliphal (esquerda) e o advogado da Amazonastur, Ruy Mendonça (paletó escuro)

Os bumbás Caprichoso e Garantido ganharam Certidão Positiva com Efeito Negativo de débitos trabalhistas, a conhecida Certidão Negativa de Débito (CND). Isso se deve ao acordo celebrado no Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região (TRT11), esta terça (20/06), que se torna um dia histórico para o Festival de Parintins. Levanta-se um véu que o leitor vai conhecer a partir de agora, sob o manto das más administrações dessas agremiações seculares e Patrimônio Cultural do Brasil.

Há, infelizmente, diferença grave entre as situações dos dois bumbás.

O Garantido, cujo presidente, Antonio Andrade, revelou dificuldades para fechar este ano, teve o curral principal leiloado. Só o recuperou porque o arrematante, Grupo Samel, decidiu devolvê-lo, de livre e espontânea vontade. E ainda deixou R$ 1,3 milhão, valor do arremate, como patrocínio para o bumbá, que deu liquidez ao acordo trabalhista e serão pagos de imediato.

Há mais. O empresário Heider Picanço, fornecedor de ferragem em Parintins, arrematou o Galpão da Cibrazem e o prédio da Escolinha de Artes Paulinho Faria. Até os tambores da Batucada foram penhorados. O Garantido precisa, urgente, de ajuda jurídica.

O bumbá, com o acordo, ganha a CND trabalhista e precisará buscar as certidões negativas fiscais, nos âmbitos municipal, estadual e federal. Este portal não conseguiu informação sobre se o Garantido possui esses documentos, uma vez que os leilões satisfizeram parte das dívidas.

O Caprichoso, que já tinha todas as certidões, menos a trabalhista, está livre. O ganho é enorme.

O acordo retira a penhora de todo o patrimônio do bumbá: Curral Zeca Xibelão, o principal, Escolinha de Artes Padre Miguel de Pascalle, Escritório Central e Almoxarifado, Clube de Campo, Casa do Movimento Marujada, Galpão Central de Alegorias, galpão de Alegorias de Madeira, terreno ao lado do galpão central e até o Galpãozinho, onde funcionam tribos, tuxauas, costureiras, vaqueirada etc.

As penhoras da Escola de Artes e do Zeca Xibelão foram feitas por Babá Tupinambá, ex-presidente e atual vereador de Parintins. O acordo acaba com todas elas.

Como tanta coisa foi penhorada? A Justiça saía correndo atrás de patrimônio. “O curral principal já está penhorado, então vamos penhorar agora um galpão”. E assim tudo foi penhorado.

 

Livre para receber verbas públicas

Caprichoso e Garantido precisam recorrer a artifícios para receber os recursos, por exemplo, do Governo do Estado. São o Movimento Amigos do Garantido (MAG) e o Movimento Marujada, do Caprichoso, que recebem e prestam contas dessa verba.

Há momentos em que, para executar transações comerciais, o bumbá precisa pagar taxas pesadas, de até 20%, para intermediários, mesmo sendo isento de impostos.

Até agora, antes do acordo, Caprichoso e Garantido não podiam receber diretamente recursos oriundos da Lei Rouanet. Agora, o azul e branco está apto e o vermelho e branco tem tudo para também se habilitar.

O fim das penhoras é tão significativo que o Caprichoso fará, no fim deste ano, uma caça às emendas parlamentares. Isso mesmo, parlamentares poderão destinar recursos ao bumbá, que está legalmente habilitado para isso.

O Caprichoso paga os trabalhadores com pix, no lugar dos pacotes com dinheiro vivo, antes entregues nos galpões. Usa cartão de crédito. Tem todas as certidões negativas.

É uma enorme tristeza ver que o Garantido não fez essa lição de casa. Há desbalanço na disputa da arena? Claro. Essas coisas afetam a construção do apresentado no Bumbódromo, embora a garra das galeras sempre ajudem a tirar diferenças.

Antonio Andrade, presente na reunião do acordo, parecia um peixe fora d’água. Recebeu ajuda do chefe da Procuradoria Jurídica da Amazonastur, Ruy Mendonça, que deu sugestões substanciais para o acordo.

 

Renúncia

Andrade é um torcedor fanático do Garantido. Daqueles que davam o sangue na arquibancada e se matavam, anonimamente, para levar o boi à arena. É filho de um ilustre morador da Baixa. A história administrativa dele, nesta e na gestão anterior, a criação de grupos como os Talibãs, numa referência nada elogiosa ao radicalismo xiita, e Comando Delta, que cuidava de jurados, firmaram uma imagem difícil. A tentativa de prorrogar o próprio mandato, após os acontecimentos do ano passado – quando a torcida provocou incêndio no curral – e a carta com o pires do Garantido na mão, esta segunda, são golpes duríssimos.

Nada que uma renúncia imediata, como gesto de grandeza, em nome do Festival Folclórico e do Garantido, não possa aliviar. Como coordenador da Direção Geral de Espetáculo (DGE), cargo nunca antes ocupado por um presidente, Antônio Andrade ainda teria um papel importante no boi amado. Nunca é tarde. Melhor renunciar que ser renunciado.

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