06/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

O movimento da ‘geração esquecida’ e o pensamento caciquista de não permitir ‘cristão novo’ na política

Publicado em 24 de fevereiro, 2014

Marcelo Ramos, Rebecca Garcia, Hissa Abrahão e Marco Antônio Chico Preto encontraram um viés de entrada na chamada “grande política” do Estado. Fizeram, com o encontro do final de semana passado, quando decidiram emitir um manifesto contra decisões de cúpula e a favor da pluralidade, um movimento fundamental em política: ocuparam o espaço vazio da oposição no Estado. É essa a ideia? Não? Mas foi o que aconteceu na prática.

Os deputados estaduais Luiz Castro e Zé Ricardo, além do próprio Marcelo Ramos, fazem oposição na Assembleia Legislativa. Atiram para tudo quanto é lado em busca de algum lugar, no espaço cada vez mais restrito para eles na imprensa. Castro é do PPS, onde a estrela é Hissa Abrahão; Zé Ricardo é do PT, onde o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Valdemir Santana, tem levado todas e quando não leva vêm Dilma e Lula e levam para eles. Marcelo está no PSB, onde o ex-prefeito Serafim e o vereador Marcelo Serafim são os donos – e o primeiro-filho é desafeto explícito do xará.

Ramos, por outro lado, tem afinidade com Marina Silva, que está fazendo uma série de exigências para se tornar vice de Eduardo Campos, na chapa à Presidência da República do PSB. Os dois descem em Manaus no mês que vem. E se Marina e Eduardo Campos chegarem dizendo que querem um palanque com Marcelo Ramos candidato ao Governo? A família Serafim, por mais que esperneie, terá que aceitar.

A oposição no Amazonas, enfim, está num gueto sem saída.

Marcelo, Hissa, Rebecca e Chico Preto estão dizendo que há alternativas ao desenvolvimento do Amazonas, fora da elite vencedora e mandante do Estado. Afirmam que são integrantes da “geração perdida” – um conceito que percorre o mundo sociológico e sempre volta à tona, quando os mandatários envelhecem – e, apesar de preparados, nunca tiveram espaço para influir nas decisões de cúpula.

Os quatro miraram contra o chapão, com o governador Omar Aziz, o prefeito Arthur Virgílio e uma carrada de prefeitos – que em época de eleição governamental costumam se comportar como “Maria vai com as outras”, em busca da sobrevivência administrativa – apoiando a candidatura de Eduardo Braga ao Governo do Estado. Todos empurrados pela vantagem dele nas pesquisas – internas e externa – e pelo puxão de orelha do ex-presidente Lula e da presidente Dilma. Acabaram por acertar, no entanto, no vácuo da oposição.

Como pode um Estado do tamanho do Amazonas viver do “sim senhor” para tudo que o Governo manda? Oposição é o lado da política que cobra, sem amarras, apontando alternativas e detonando as más ideias. Se os últimos governos que passaram pelo Amazonas fossem tão brilhantes, o interior amazonense não seria o que é. E talvez o seja porque não apareceu ninguém com autoridade política, intelectual e moral para dizer onde está o erro e qual o caminho certo a seguir.

Os ocupantes de cargos de mando têm uma lógica de sobrevivência: quanto menor for o número de aspirantes aos postos-chaves melhor. Por que admitir um nome novo postulante ao cargo de governador? Será uma sombra, no mínimo, mesmo que perca a eleição.

Marcelo, Rebecca, Chico Preto e Hissa não virarão, da noite para o dia, um grupo igual ao formado por Arthur Virgílio, Mário Frota, Félix Valois e Serafim Corrêa, no Muda Amazonas, de 1986, que frutificou em dois prefeitos de Manaus, um vice-prefeito e vários outros ocupantes de cargos de primeiro escalão. Peitou Gilberto Mestrinho e Amazonino Mendes explicitamente. Mas os novos líderes colocaram a cara na janela e tornaram-se visíveis. São árvore nova na paisagem pálida da política “mais do mesmo” do Amazonas.

Que, dada a dimensão do gesto, venham atitudes concretas. A política espera muito desse manifesto que vem aí.

Veja mais notícias em Opinião

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.