21/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Custo da tarifa de ônibus, segredinhos que você não conhece

Publicado em 10 de maio, 2023

Custo da tarifa de ônibus

Custo da tarifa de ônibus em Manaus já provocou queima de ônibus e é um tema que volta nas vésperas de eleições

Empresários do transporte coletivo pressionam o prefeito David Almeida para obter uma nova tarifa nas passagens de ônibus. O valor nominal, hoje, está em R$ 3,89. Essa aparente “guerra de preços” tem alguns componentes que o distinto público precisa conhecer.

O preço da tarifa de ônibus na capital da Zona Franca é subsidiado. O que isso significa?

O Governo do Estado, em convênio com a Prefeitura, tornou gratuita a passagem para todos os estudantes. Sim, ninguém mais paga o chamado “passe estudantil”. É grátis. Free. Ou seja, o governador Wilson Lima determinou que essas passagens sejam pagas pela bolsa estadual, pelo dinheiro arrecadado dos impostos de todos os amazonenses.

Subsídio da tarifa estudantil é plenamente justificável. É investimento na veia da educação.

Falta somente algum tipo de cobrança, atrelada, por exemplo, à frequência escolar. Aluno que faltasse às aulas, injustificadamente, teria que devolver o valor daqueles dias ao erário, sob pena de não receber as passagens do mês seguinte. Isso ajudaria a diminuir os gazeteiros, as fugidinhas no horário escolar e até o desvio de objetivo, com passagens sendo entregues a terceiros.

O custo da tarifa de ônibus em R$ 3,89, o valor cheio, também é subsidiado. Os empresários não querem que a passagem passe para R$ 4 ou R$ 5. Querem que a passagem aumente para receber o valor à vista, na catraca. É que a diferença, paga pela Prefeitura, não entra no automático. Depende do fluxo de caixa do erário municipal. Daí que os valores vão acumulando e quanto mais cresce, maior é a dificuldade para receber.

A “guerra”, portanto, tem nuances que precisam ser do conhecimento geral.

Primeiro que, seja como rodar essa roda, o pagamento sai do bolso do trabalhador. Ou do empresário que paga o vale-transporte.

O prefeito Arthur Virgílio, num gesto ousado, retirou 100% do subsídio e repassou para a passagem o valor integral. Houve paralisações. Ônibus foram queimados.

O usuário não tinha a menor ideia de que, na manobra, a tarifa continuou a mesma. Apenas o subsídio foi retirado. O empresário ficou “engessado”, sem poder reclamar um preço maior, diante da grita popular. O pagamento à vista, na roleta, pelo usuário, foi a única vantagem obtida.

A popularidade do prefeito, por conta do episódio, despencou. A chamada “oposição orgânica”, aquela espontânea, que não é feita por robô, foi às alturas.

Arthur Virgílio, gradualmente, fez retornar o subsídio. Sob os aplausos do público, a tarifa “pública” foi mantida. Nessa hora, o usuário não lembra de reajustes de combustíveis, peças, salários, inflação etc. Ninguém parece saber que não há almoço de graça. Tudo isso vai sendo embutido na “tarifa subsidiada”, o valor real.

O importante, dirão alguns, é que o trabalhador não tire do bolso, todos os dias, um dinheirinho suado. Aquele trocado que dá para completar o pão nosso de cada dia. O subsídio, acrescentam, já é dinheiro pago por todos mesmo, descontado dos impostos.

Acontece que dinheiro público é o que constrói obras. O mesmo grupo que usa o argumento acima critica os governantes, quando famílias morrem soterradas por desabamentos, em áreas que não receberam a devida infraestrutura.

É aí que se percebe o dominó chinês em que se equilibram finanças públicas, capacidade administrativa e uso correto dos recursos públicos.

O subsídio do transporte coletivo, em Manaus, está chegando a R$ 40 milhões por mês. Quanto isso significa em escolas, creches, ruas asfaltadas e habitação?

Outro fator importante é o ano eleitoral.

A disputa pela Prefeitura, na sucessão de David Almeida, que ocorrerá em 2024, está antecipada. Os candidatos estão em campo. Pesquisas pré-eleitorais vão sendo publicadas e os postulantes tratam de conseguir o máximo possível de publicidade para elas.

Prefeito conceder reajuste de tarifa de ônibus, numa hora como essa, com a disputa já em campo, é suicídio político. É por isso que os empresários pressionam.

Falta começar a atuar só uma força, para que o caldo fique completinho: uma greve do Sindicato dos Rodoviários.

A opinião pública “não vê” os interesses envolvidos. Não se pergunta: “Se são os empresários que querem reajuste da tarifa por quê motoristas e cobradores é que entram em greve?”. A fórmula é tão antiga que todos conhecem. Em breve, apontando números e planilhas, os líderes dirão que os salários estão defasados e as empresas apontarão a necessidade de reajuste da tarifa para “pagar dignamente” os trabalhadores.

O teatro das tarifas do transporte coletivo em Manaus não é para amadores. Só o protagonista, porém, que é o usuário, parece não conhecer o enredo.

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