
Custo da tarifa de ônibus em Manaus já provocou queima de ônibus e é um tema que volta nas vésperas de eleições
Empresários do transporte coletivo pressionam o prefeito David Almeida para obter uma nova tarifa nas passagens de ônibus. O valor nominal, hoje, está em R$ 3,89. Essa aparente “guerra de preços” tem alguns componentes que o distinto público precisa conhecer.
O preço da tarifa de ônibus na capital da Zona Franca é subsidiado. O que isso significa?
O Governo do Estado, em convênio com a Prefeitura, tornou gratuita a passagem para todos os estudantes. Sim, ninguém mais paga o chamado “passe estudantil”. É grátis. Free. Ou seja, o governador Wilson Lima determinou que essas passagens sejam pagas pela bolsa estadual, pelo dinheiro arrecadado dos impostos de todos os amazonenses.
Falta somente algum tipo de cobrança, atrelada, por exemplo, à frequência escolar. Aluno que faltasse às aulas, injustificadamente, teria que devolver o valor daqueles dias ao erário, sob pena de não receber as passagens do mês seguinte. Isso ajudaria a diminuir os gazeteiros, as fugidinhas no horário escolar e até o desvio de objetivo, com passagens sendo entregues a terceiros.
O custo da tarifa de ônibus em R$ 3,89, o valor cheio, também é subsidiado. Os empresários não querem que a passagem passe para R$ 4 ou R$ 5. Querem que a passagem aumente para receber o valor à vista, na catraca. É que a diferença, paga pela Prefeitura, não entra no automático. Depende do fluxo de caixa do erário municipal. Daí que os valores vão acumulando e quanto mais cresce, maior é a dificuldade para receber.
A “guerra”, portanto, tem nuances que precisam ser do conhecimento geral.
O prefeito Arthur Virgílio, num gesto ousado, retirou 100% do subsídio e repassou para a passagem o valor integral. Houve paralisações. Ônibus foram queimados.
O usuário não tinha a menor ideia de que, na manobra, a tarifa continuou a mesma. Apenas o subsídio foi retirado. O empresário ficou “engessado”, sem poder reclamar um preço maior, diante da grita popular. O pagamento à vista, na roleta, pelo usuário, foi a única vantagem obtida.
A popularidade do prefeito, por conta do episódio, despencou. A chamada “oposição orgânica”, aquela espontânea, que não é feita por robô, foi às alturas.
Arthur Virgílio, gradualmente, fez retornar o subsídio. Sob os aplausos do público, a tarifa “pública” foi mantida. Nessa hora, o usuário não lembra de reajustes de combustíveis, peças, salários, inflação etc. Ninguém parece saber que não há almoço de graça. Tudo isso vai sendo embutido na “tarifa subsidiada”, o valor real.
O importante, dirão alguns, é que o trabalhador não tire do bolso, todos os dias, um dinheirinho suado. Aquele trocado que dá para completar o pão nosso de cada dia. O subsídio, acrescentam, já é dinheiro pago por todos mesmo, descontado dos impostos.
Acontece que dinheiro público é o que constrói obras. O mesmo grupo que usa o argumento acima critica os governantes, quando famílias morrem soterradas por desabamentos, em áreas que não receberam a devida infraestrutura.
É aí que se percebe o dominó chinês em que se equilibram finanças públicas, capacidade administrativa e uso correto dos recursos públicos.
O subsídio do transporte coletivo, em Manaus, está chegando a R$ 40 milhões por mês. Quanto isso significa em escolas, creches, ruas asfaltadas e habitação?
Outro fator importante é o ano eleitoral.
A disputa pela Prefeitura, na sucessão de David Almeida, que ocorrerá em 2024, está antecipada. Os candidatos estão em campo. Pesquisas pré-eleitorais vão sendo publicadas e os postulantes tratam de conseguir o máximo possível de publicidade para elas.
Prefeito conceder reajuste de tarifa de ônibus, numa hora como essa, com a disputa já em campo, é suicídio político. É por isso que os empresários pressionam.
Falta começar a atuar só uma força, para que o caldo fique completinho: uma greve do Sindicato dos Rodoviários.
A opinião pública “não vê” os interesses envolvidos. Não se pergunta: “Se são os empresários que querem reajuste da tarifa por quê motoristas e cobradores é que entram em greve?”. A fórmula é tão antiga que todos conhecem. Em breve, apontando números e planilhas, os líderes dirão que os salários estão defasados e as empresas apontarão a necessidade de reajuste da tarifa para “pagar dignamente” os trabalhadores.
O teatro das tarifas do transporte coletivo em Manaus não é para amadores. Só o protagonista, porém, que é o usuário, parece não conhecer o enredo.
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