
Dia dos Povos Indígenas é uma celebração para o povo dos manaós, diz Caio André, em seu artigo semanal
Caio André*
Há uma grande e inquestionável ignorância nacional em relação aos indígenas. O Dia dos Povos Indígenas, 19 de abril, deixa isso muito claro. São tantas publicações equivocadas, com confusões que atravessam a história. Ainda existe quem acredite que indígena é somente alguém que vive no meio do mato e fala um idioma incompreensível.
Sou oriundo do esporte, como quem me conhece sabe, e nós, “boleiros”, conversamos muito, na famosa “resenha”, o papo descontraído, após peladas ou treinamentos.
Uma dessas conversas me trouxe recordações do tempo especial, que merece ser lembrado, no qual o Amazonas era destaque no cenário futebolístico nacional, com o São Raimundo. O time viajou para Pelotas (RS), onde enfrentaria o Brasil, no mata-mata do Campeonato Brasileiro de 1999. Foi uma guerra. Os moradores xingavam os “índios do Amazonas” e foi preciso atuação firme da polícia para evitar algo pior.
O São Raimundo respondeu em campo. Ganhou a ida por 1 a 0 e na volta, em Manaus, meteu 3 a 0, com um “chocolate”, como falamos na linguagem do futebol.
Ocorre que Pelotas-RS é território das etnias charrua e minuano, além de ter recebido guaranis, há mais de 500 anos. É reconhecida pela excelência como cidade universitária.
O fanatismo por futebol, que provoca a exacerbação das torcidas organizadas, explica bastante do que aconteceu no estádio Bento Freitas. Mas uma cidade de origem indígena hostilizar um time por, supostamente, ser formado por indígenas? Demonstra bem a quantas estamos do conhecimento real de nossas raízes.
Outro exemplo? No Festival de Parintins, onde a temática indígena é predominante, os indígenas eram tratados como o Tonto, personagem do gibi Zorro, e usavam uma pena na cabeça, até meados da década de 1980.
Os bumbás de Parintins evoluíram, se atualizaram e hoje são receptáculos e divulgadores expressivos da cultura indígena. Tomara que o Brasil evolua também.
O Dia dos Povos Indígenas é uma oportunidade para homenagear todos os manauaras, herdeiros dos manaós. Bem como todos os amazonenses, da capital e do interior, que guardam na cultura cabocla muito do manancial indígena.
Feliz Dia dos Povos Indígenas, todos os anos, pelas memórias dos que se foram e pelas vidas que virão.
* Caio André é vereador e presidente da Câmara Municipal de Manaus (CMM).