06/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Primeiros transplantados de rins de doador falecido no Amazonas recebem alta

Publicado em 01 de agosto, 2011

“Mudança de vida” e “sensação de liberdade” são expressões que passaram a fazer parte do vocabulário de dois amazonenses que, no início deste mês, protagonizaram o primeiro transplante de rins oriundos de uma pessoa falecida realizado no Amazonas. Em menos de 20 dias, Nilson Gomes Pinheiro, 31, e Rivelino Jean da Costa, 39, receberam alta hospitalar esta semana, passam bem e, agora, caminham rumo a uma nova vida.

Foto: Nonato Duarte

Nilson Gomes comemora a alta com familiar

O transplante, pioneiro, foi coordenado e executado pelo Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado da Saúde (Susam), que, nos últimos anos, vinha readequando a rede estadual de saúde para que esse tipo de procedimento pudesse se tornar realidade. Antes disso, o Estado só era capaz de realizar transplante de rim e córneas entre doadores vivos.

Os rins foram doados com o aval dos familiares de um mototaxista que estava internado no Hospital Pronto Socorro João Lúcio e, aos 31 anos, morreu por não resistir aos danos de um acidente na BR-174, rodovia que interliga Manaus e Presidente Figueiredo. “Sem essas pessoas (familiares), solidárias no difícil momento do luto, não haveria transplante”, destacou o titular da Susam, Wilson Alecrim, no dia do transplante, em 8 de julho último.

Vida nova – Incerteza, dor e sofrimento são elementos que, segundo Nilson Gomes, pertencem ao passado dele. Nilson foi um dos dois pacientes pioneiros que recebeu o rim de um doador falecido. Ele, que dependia de hemodiálise três vezes por semana para continuar vivo há oito anos, foi liberado do período de observação pós-operatória na última segunda-feira, dia 25.

“Quando me ligaram dizendo que eu estava selecionado entre dez pessoas compatíveis com um doador falecido, eu não esperava. Foi uma boa surpresa”, lembra ele. “Fui ao Hemoam fazer o exame e, quando voltei para casa, ligaram de novo dizendo que eu tinha que me internar porque seria possível, talvez no mesmo dia, fazer a cirurgia”.

Foram quatro horas contínuas de cirurgia. “Nos primeiros eu sentia aquelas dores (do pós-operatório), mas já me sentia feliz. Confiante na torcida das pessoas que estavam rezando por mim”, recorda o transplantado, que passou 18 dias sendo observado diária e constantemente pelos médicos.

A certeza do fim dos problemas renais veio com o resultado de uma biópsia, que eliminou riscos de rejeição imediata do novo rim pelo organismo. “Foi aí que a minha vida mudou. Apesar do bom tratamento que eu tive, estava doido para chegar em casa e ficar com a minha família, que está vibrando até hoje”.

Na cura, Nilson encontrou a chance de retomar o domínio de sua vida e voltar a sonhar com coisas simples, mas limitadas pela doença até então. “Agora vou tomar bastante água, suco… porque antes não podia tomar muito líquido”, comenta. “Vou poder voltar a fazer coisas que eu gosto e tive de abandonar, como jogar futebol com os amigos”.

Sobre o futuro, o transplantado planeja retomar os estudos e seguir carreira profissional na área de informática. Entre os novos planos a curto prazo está uma viagem de férias a Santa Catarina, mesmo lugar no qual ele cogitou a hipótese de se deslocar, no ano passado, para fazer o transplante de rim por ser um estado referência na área.

“Essa viagem eu queria fazer há muito tempo, mas não tinha como. Como eu dependia da hemodiálise, não tinha como sair. Me sentia preso a esse tratamento. Agora é sensação de total liberdade”, comemora. Nas próximas semanas, Nilson segue em uma dieta especial e nas sessões finais de hemodiálise, além do reforço de medicamentos para ajudar o rim a se adaptar ao novo corpo.

 

Consolidação

A alta dos primeiros pacientes beneficiados, para coordenadora estadual de transplantes, Leny Passos, significa a consolidação de um serviço que deve agilizar o atendimento à lista de 449 pacientes renais crônicos que aguardam um transplante. “Tivemos um êxito muito grande, estamos aptos a fazer novas captações. Isso vai se tornar corriqueiro”.

Leny Passos informa que há outra possível captação de rim de pessoa falecida em andamento. “Nós já tivemos duas tentativas. A primeira, apesar de a família ter liberado, o doador tinha uma doença que impediu a doação”, comenta, ao reforçar que é essencial que os interessados manifestem a vontade de ser doador à família ainda em vida.

 

Plano diretor

Entre as principais metas do Governo do Estado na área da saúde, segundo Leny Passos, é traçar um plano diretor de transplantes para os próximos quatro anos. “Queremos definir o que vamos fazer daqui para frente. Vamos reunir todas as entidades envolvidas, públicas e privadas, em um grande discussão para que sejam criadas metas a serem seguidas pelo Amazonas.”

O pontapé inicial desse planejamento será dado já nesta segunda-feira, dia 1º de agosto, quando chegam a Manaus, a convite da Susam, equipes do coordenador nacional de transplantes, Heder Murari Borba, e o assessor do Ministério da Saúde na área de transplantes, Silvana Raia.

Na programação está prevista uma visita às instalações das unidades locais envolvidas no transplante pioneiro, bem como uma reunião de trabalho com a cúpula da saúde para apresentação das propostas dos Governos Estadual e Federal para a área. “Vamos mostrar nosso êxito e as dificuldades que queremos vencer”, diz Leny Passos.

 

Estrutura preparada

A captação de rins já pode ocorrer em qualquer unidade de urgência e emergência das redes de saúde pública e privada. Todas contam com comissões de profissionais da saúde incumbidos de acionar a Central Estadual de Transplantes, instalada na Fundação Hospital Adriano Jorge, em casos de possibilidade de doação, explica Leny Passos.

Autorizada a doação do órgão pela família do falecido, a movimentação é imediata. Da lista de pacientes inscritos para receber um rim, são selecionados aqueles compatíveis geneticamente com o doador e por grau de prioridade (idade, tempo de espera etc). Leny Passos afirma que a definição de quem recebe um órgão doado ocorre com base no resultado de exames pré-operatórios.

Esses exames são feitos no Hospital Santa Júlia, unidade particular parceira do Governo Estadual onde são feitos os transplantes renais, e no laboratório de HLA (sigla em inglês para Antígenos Leucócitos Humanos) da Fundação de Hemoterapia e Hematologia do Amazonas (Hemoam). Podem ser doadores pessoas entre 0 e 60 anos, com boas condições físicas e sem qualquer infecção.

A primeira experiência do Amazonas serviu para aperfeiçoar os próximos procedimentos do tipo. “Estamos produzindo um relatório para que tudo isso se torne mais rápido e eficiente. Nele entrará uma série de situações que observamos que podem ser otimizadas, desde a identificação do potencial doador até o acompanhamento do paciente transplantado”.

O tempo entre a captação do rim e o transplante no paciente não ser mais de 24 horas. Por isso, o órgão doado deve ser transportado imediatamente, após a captação, para a unidade hospitalar onde o transplante irá ocorrer, no caso do Amazonas, no Hospital Santa Júlia, que já acumula 169 procedimentos desse tipo realizados.

 

Mais avanços

Agora que está pronta a estrutura necessária para a captação de órgãos de doador falecido, a rede de saúde do Governo do Amazonas já se prepara para avanços ainda maiores. Segundo informações do secretário da Susam, Wilson Alecrim, a meta do Estado é implementar serviços de transplante que ainda são inéditos no Estado, como de fígado e de coração.

Os transplantes de fígado, conforme Alecrim, devem ser colocados em prática dentro de seis meses, enquanto os de coração serão priorizados logo em seguida. A estratégia para acelerar o início dessas ações é capacitar equipes de profissionais da saúde do Amazonas junto a hospitais nacionais de referência.

Parceria semelhante à estratégia é o termo de cooperação firmado, no dia 14 de julho último, entre o Governo do Amazonas e o Instituto do Coração (Incor) da Universidade de São Paulo (USP). A iniciativa vai permitir, a partir de 2012, o início de cirurgias em crianças e adolescentes cardiopatas no Hospital Universitário Francisca Mendes (HUFM).

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