
Estou em plena Covid-19, pela segunda vez, essa praga que teima em fazer o mundo refém
É regra básica do jornalismo que jornalista não é notícia. Outra, menos conhecida, é a de não usar primeira pessoa em editorial. Tentemos, aqui, cruzar esses limites, em nome da solidariedade e do espírito público, com parcimônia, para falar dessa praga chamada Covid-19.
É minha segunda infecção. A primeira ocorreu fim de novembro/2020. Passou triscando no auge da variante Gama, a “do Amazonas”, que deu no colapso de oxigênio.
A segunda vez, agora, vem no auge da Ômicron, essa praga que pega só do trisca e desafia o mundo.
A primeira foi bem mais difícil, com 40% do pulmão comprometido, embora tratada em casa. Houve apoio de respirador (CPAP), fisioterapia e medicamentos. A Samel fez todo o tratamento, à distância, exceto para os exames de tomografia, realizados em hospital.
O CPAP foi fundamental, nos momentos de crise, quando o pulmão doía e o vírus embarreirava o sono.
Depois, no período de sequelas, ficou sensação de febre leve, que os termômetros marcavam em 36,5 graus, no máximo.
A segunda infecção, atual, Ômicron, é totalmente diferente. O conhecimento da doença está muito mais avançado. O tal “tratamento precoce” saiu de moda. Os testes estão bem mais disponíveis. O número de infectados em 24 horas bate recordes seguidos. É hora da vacina, sobre a qual incrédulos depositam tantas dúvidas.
Tomei as três doses. Duas Coronavac, uma Pfizer.
Segunda (17/01) registrei leve dor de cabeça. Levíssima. Indo e vindo. Terça, a dor (leve) ficou mais tempo e apareceu a tal febre baixa, com coriza, acompanhada de certo desarranjo intestinal.
Não usei medicamento. Tinha acabado de sair de uma fase de corticoides, para enfrentar persistente pressurização nos ouvidos. Fiquei em alerta, esperando a piora dos sintomas para procurar auxílio médico, ciente de que o sistema começava a dar sinais de ocupação.
Terça para quarta, o sono foi complicado. As costas doíam. Fiquei a um palmo de ir para hospital. Levantei. Caminhei pela casa. Foi aí que lembrei de uma regra da primeira vez, quando os médicos mandavam dormir de bruços, para proteger o pulmão. O sono, ainda assim, só veio perto da manhã.
Quarta para quinta, outra vez com as costas doendo, consegui dormir pouco melhor. E quinta para sexta, as dores haviam diminuído e o sono foi mais tranquilo.
Colegas que pegaram a Ômicron me disseram que os sintomas deles desapareceram em cerca de 48 horas. Outra testou, 11 dias depois, e ainda estava com o vírus ativo. Os meus sinais, seis dias depois, ainda persistem, mas são leves.
O exame conclusivo foi feito cinco dias após o início dos sintomas, ontem, sexta-feira (21/01), com resultado positivo. A previsão é que amanhã (23/01), o período de transmissão do vírus encerre.
Nada, porém, é seguro quando se trata do coronavírus. Nem é preciso dizer que, neurastênica, personalidade múltipla, a praga parece ter um figurino para cada infectado. Ou seja, o que aconteceu comigo – essa coisa dos sintomas leves e nem precisar ir ao médico – pode ser diferente com outro.
Ficam lições. Quem pegou, pega de novo. Quem vacinou a dose tripla pega, mas os sintomas são leves.
A Ômicron é só do trisca. É preciso usar máscara, álcool em gel e manter o distanciamento o tempo inteiro. É uma reação do vírus parecida com a de jogar farofa no ventilador. O problema é que, com tantos hospedeiros sem proteção vacinal, o coronavírus tem amplo criatório de novas cepas. E ninguém sabe o que vem por aí.
Melhor prevenir que entrar na onda de aprendiz de feiticeiro. Que parece ter possuído tantos espíritos mundo afora.