
Rodovia Manaus-Manacapuru está duplicada e inauguração ocorre no sexto governador, Wilson Lima, que discursa durante o ato. Foto: Diego Peres/ Secom/ Divulgação
A rodovia Manaus-Manacapuru está duplicada. Muda radicalmente as vidas dos brasileiros de Manaus, Iranduba, Manacapuru e Novo Airão, de forma direta. E, indiretamente, atinge todos os Municípios das calhas dos rios Solimões, Purus, Juruá e Japurá – basta que se faça um porto decente em Manacapuru. A inauguração da duplicação, nesta segunda (20/12), pelo governador Wilson Lima, marca o fim de uma odisseia inacreditável. Atravessou seis governadores e, sob esse aspecto, é uma ode ao desperdício e à falta de compromisso com o dinheiro público.
É ofensa a esse contingente de beneficiados dizer que essa rodovia “leva do nada a lugar nenhum”. Tal frase só serve a caçadores de aforismos baratos. Pode até soar bem, para os haters das mídias sociais, mas é sim ofensiva. O investimento é alto e poderia ser direcionado a outro setor? Discutível. Mas considerar essa gente, tão brasileira quanto quaisquer outras, “nada” é ofensa à dignidade humana e, para ficar no mínimo, falta de sensibilidade política.
Como diz Vinícius de Moraes, em “Rosa de Hiroshima” (1946), eternizado por Ney Matogrosso e os Secos e Molhados, com música de Gerson Conrad: “Mas oh não se esqueçam/ Da rosa da rosa/ Da rosa de Hiroshima/ A rosa hereditária”. Não esqueçam que a travessia era feita numa balsa. Em fim de semana e feriado as filas eram quilométricas e duravam horas. Ninguém tinha o direito de adoecer do lado de lá ou de voltar mais cedo para afagar as crianças, se estivesse do lado de cá.
A viagem Manaus-Manacapuru, enfim, durava até cinco horas. Hoje dura, rodando nos 80 quilômetros regulamentares, pouco mais de uma hora.
A frase de Álvaro Maia, na década de 1960, “no Amazonas as estradas são os rios”, ainda é usada como justificativa para governantes cruzarem os braços. A ponte Jornalista Phelippe Daou e a duplicação da rodovia Manaus-Manacapuru, como também a revitalização da Manaus-Itacoatiara (AM-010), provam o contrário.
A estrada, no Amazonas, é caminho de cidadania. A mesma que luta pelo asfaltamento da BR-319, a maior vergonha nacional brasileira.
Como pode, com o orçamento que tem, o Governo Federal se deixar emaranhar por lobbies e permitir que cidadãos atravessem lama e poeira o ano inteiro? Que a Força Nacional não consiga trafegar por ela para trazer segurança aos amazonenses? Ou que brasileiros destas plagas morram sem oxigênio porque a lama e a buraqueira seguraram tanques, na hora do sufoco da pandemia?
Argumentem com um pai, como o procurador de Justiça Públio Caio, que “foram e seriam poucas” as vidas salvas por essa via. Ele carregou um tanque de oxigênio nas costas até o hospital e salvou a vida do filho e de outro paciente ao lado. Duas vidas. Certamente menos que os tanques da BR-319 salvariam e, ainda assim, totalmente relevantes.
Dinheiro? A duplicação da AM-070, inicialmente, custou R$ 224 milhões. O financiamento é do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Bastava, a partir daí, licitar, desapropriar, contratar, medir e receber a grana, para pagar o empreiteiro vencedor.
Nos Estados Unidos, a partir do momento em que uma obra como essa começa, os prazos se tornam públicos. Faz-se um seguro e o poder público não gasta com aditivos. A seguradora se encarrega de cobrar a pontualidade e é a construtora que paga multa se atrasar. A viúva não tem mais nada a ver com desembolso porque o dinheiro está lá, na conta específica.
Nada justifica esse tempo todo de obra, ofendendo à capacidade do povo amazonense.
Essa duplicação começou, na verdade, com a construção da ponte Jornalista Phelippe Daou. Que, aliás, foi calculada em cerca de R$ 300 milhões, passou para R$ 600 milhões e foi terminar em mais de R$ 1,1 bilhão. Tem mais: tinha ciclovia, uma pista indo e outra voltando, porto e mirante, com restaurante, que se tornaria fácil, fácil atração turística internacional, ao descortinar o rio Negro ao visitante. Aumentou o valor concomitantemente à diminuição dos benefícios da obra. Incrível.
A ponte levou cinco anos para ser construída. Era tempo mais que suficiente para duplicar a estrada. Nessa veia aberta de falta de planejamento, porém, a ponte ficou pronta e, no dia da inauguração, milhares de carros manauaras passaram por ela, indo engarrafar a esburacada rodovia Manaus-Manacapuru, em pista única. Onde, incrivelmente!, ninguém tinha providenciado qualquer tipo de fomento à gastronomia ou ao turismo e as pessoas não tinham onde ir ou amargavam decepções na estrutura precária da via.
Em 1976, um ônibus mergulhou nas águas escuras do rio Urubu, na travessia feita por balsa, próximo a Itacoatiara. Morreram 39 passageiros. O governo militar construiu as três pontes da rodovia Manaus-Itacoatiara. Dizia-se, à época, que aquilo seria uma revolução e Itacoatiara cresceria até conurbar (juntar) com Manaus.
Não aconteceu quase nada porque faltou planejamento.
Agora, duplicada a rodovia Manaus-Manacapuru, é preciso saber o que fazer com ela e entender que se trata de um instrumento importante, caro e que precisa de fomento. É preciso evitar o déjà vu.
O porto em Manacapuru é urgente. Vai receber produção e passageiros dos altos rios, que economizarão muitas horas de viagem de barco vindo pela estrada.
Surge aí a necessidade de melhorias na estrada Manacapuru-Novo Airão (AM-352). Ela foi construída seguindo uma cobra morrendo. Só pode ser, para ter tantas curvas.
Wilson Lima promete retirar essas curvas, diminuindo o perigo e a distância. O turismo em Novo Airão, que está bombando, agradece.
A rodovia Manaus-Manacapuru foi idealizada, planejada, anunciada e começou a ser faturada por volta de 2010, o último dos oito anos do então governador Eduardo Braga. Se contar desde o início do planejamento da ponte começou em 2003.
Agora conte de lá para cá: são 18 anos desde a ponte, dos quais 11 anos de “obra” de duplicação, com pouco mais de 80 quilômetros, atravessando seis governadores.
A ponte Jornalista Phelippe Daou é a cereja do bolo. Os 3,6 quilômetros de ponte estaiada e concreto levaram cinco anos de obra, de 3 de dezembro de 2007 a 24 de outubro de 2011, a data da inauguração.
É ou não é uma odisseia, narrada em forma de ode ao desperdício?