04/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Rodovia Manaus-Manacapuru e a falta de compromisso com a coisa pública

Publicado em 20 de dezembro, 2021

Rodovia Manaus-Manacapuru

Rodovia Manaus-Manacapuru está duplicada e inauguração ocorre no sexto governador, Wilson Lima, que discursa durante o ato. Foto: Diego Peres/ Secom/ Divulgação

A rodovia Manaus-Manacapuru está duplicada. Muda radicalmente as vidas dos brasileiros de Manaus, Iranduba, Manacapuru e Novo Airão, de forma direta. E, indiretamente, atinge todos os Municípios das calhas dos rios Solimões, Purus, Juruá e Japurá – basta que se faça um porto decente em Manacapuru. A inauguração da duplicação, nesta segunda (20/12), pelo governador Wilson Lima, marca o fim de uma odisseia inacreditável. Atravessou seis governadores e, sob esse aspecto, é uma ode ao desperdício e à falta de compromisso com o dinheiro público.

É ofensa a esse contingente de beneficiados dizer que essa rodovia “leva do nada a lugar nenhum”. Tal frase só serve a caçadores de aforismos baratos. Pode até soar bem, para os haters das mídias sociais, mas é sim ofensiva. O investimento é alto e poderia ser direcionado a outro setor? Discutível. Mas considerar essa gente, tão brasileira quanto quaisquer outras, “nada” é ofensa à dignidade humana e, para ficar no mínimo, falta de sensibilidade política.

 

Não esqueçam a Rosa de Hiroshima

Como diz Vinícius de Moraes, em “Rosa de Hiroshima” (1946), eternizado por Ney Matogrosso e os Secos e Molhados, com música de Gerson Conrad: “Mas oh não se esqueçam/ Da rosa da rosa/ Da rosa de Hiroshima/ A rosa hereditária”. Não esqueçam que a travessia era feita numa balsa. Em fim de semana e feriado as filas eram quilométricas e duravam horas. Ninguém tinha o direito de adoecer do lado de lá ou de voltar mais cedo para afagar as crianças, se estivesse do lado de cá.

A viagem Manaus-Manacapuru, enfim, durava até cinco horas. Hoje dura, rodando nos 80 quilômetros regulamentares, pouco mais de uma hora.

A frase de Álvaro Maia, na década de 1960, “no Amazonas as estradas são os rios”, ainda é usada como justificativa para governantes cruzarem os braços. A ponte Jornalista Phelippe Daou e a duplicação da rodovia Manaus-Manacapuru, como também a revitalização da Manaus-Itacoatiara (AM-010), provam o contrário.

 

Vergonha na BR-319

A estrada, no Amazonas, é caminho de cidadania. A mesma que luta pelo asfaltamento da BR-319, a maior vergonha nacional brasileira.

Como pode, com o orçamento que tem, o Governo Federal se deixar emaranhar por lobbies e permitir que cidadãos atravessem lama e poeira o ano inteiro? Que a Força Nacional não consiga trafegar por ela para trazer segurança aos amazonenses? Ou que brasileiros destas plagas morram sem oxigênio porque a lama e a buraqueira seguraram tanques, na hora do sufoco da pandemia?

Argumentem com um pai, como o procurador de Justiça Públio Caio, que “foram e seriam poucas” as vidas salvas por essa via. Ele carregou um tanque de oxigênio nas costas até o hospital e salvou a vida do filho e de outro paciente ao lado. Duas vidas. Certamente menos que os tanques da BR-319 salvariam e, ainda assim, totalmente relevantes.

 

Financiamento

Dinheiro? A duplicação da AM-070, inicialmente, custou R$ 224 milhões. O financiamento é do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Bastava, a partir daí, licitar, desapropriar, contratar, medir e receber a grana, para pagar o empreiteiro vencedor.

Nos Estados Unidos, a partir do momento em que uma obra como essa começa, os prazos se tornam públicos. Faz-se um seguro e o poder público não gasta com aditivos. A seguradora se encarrega de cobrar a pontualidade e é a construtora que paga multa se atrasar. A viúva não tem mais nada a ver com desembolso porque o dinheiro está lá, na conta específica.

Nada justifica esse tempo todo de obra, ofendendo à capacidade do povo amazonense.

 

Estrada e ponte

Essa duplicação começou, na verdade, com a construção da ponte Jornalista Phelippe Daou. Que, aliás, foi calculada em cerca de R$ 300 milhões, passou para R$ 600 milhões e foi terminar em mais de R$ 1,1 bilhão. Tem mais: tinha ciclovia, uma pista indo e outra voltando, porto e mirante, com restaurante, que se tornaria fácil, fácil atração turística internacional, ao descortinar o rio Negro ao visitante. Aumentou o valor concomitantemente à diminuição dos benefícios da obra. Incrível.

A ponte levou cinco anos para ser construída. Era tempo mais que suficiente para duplicar a estrada. Nessa veia aberta de falta de planejamento, porém, a ponte ficou pronta e, no dia da inauguração, milhares de carros manauaras passaram por ela, indo engarrafar a esburacada rodovia Manaus-Manacapuru, em pista única. Onde, incrivelmente!, ninguém tinha providenciado qualquer tipo de fomento à gastronomia ou ao turismo e as pessoas não tinham onde ir ou amargavam decepções na estrutura precária da via.

 

Planos e déjà vu

Em 1976, um ônibus mergulhou nas águas escuras do rio Urubu, na travessia feita por balsa, próximo a Itacoatiara. Morreram 39 passageiros. O governo militar construiu as três pontes da rodovia Manaus-Itacoatiara. Dizia-se, à época, que aquilo seria uma revolução e Itacoatiara cresceria até conurbar (juntar) com Manaus.

Não aconteceu quase nada porque faltou planejamento.

Agora, duplicada a rodovia Manaus-Manacapuru, é preciso saber o que fazer com ela e entender que se trata de um instrumento importante, caro e que precisa de fomento. É preciso evitar o déjà vu.

O porto em Manacapuru é urgente. Vai receber produção e passageiros dos altos rios, que economizarão muitas horas de viagem de barco vindo pela estrada.

Surge aí a necessidade de melhorias na estrada Manacapuru-Novo Airão (AM-352). Ela foi construída seguindo uma cobra morrendo. Só pode ser, para ter tantas curvas.

Wilson Lima promete retirar essas curvas, diminuindo o perigo e a distância. O turismo em Novo Airão, que está bombando, agradece.

 

Só para lembrar:

A rodovia Manaus-Manacapuru foi idealizada, planejada, anunciada e começou a ser faturada por volta de 2010, o último dos oito anos do então governador Eduardo Braga. Se contar desde o início do planejamento da ponte começou em 2003.

Agora conte de lá para cá: são 18 anos desde a ponte, dos quais 11 anos de “obra” de duplicação, com pouco mais de 80 quilômetros, atravessando seis governadores.

A ponte Jornalista Phelippe Daou é a cereja do bolo. Os 3,6 quilômetros de ponte estaiada e concreto levaram cinco anos de obra, de 3 de dezembro de 2007 a 24 de outubro de 2011, a data da inauguração.

É ou não é uma odisseia, narrada em forma de ode ao desperdício?

Veja mais notícias em Opinião

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.