05/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

O choro de Lindolfo, a paixão de Luiz Gonzaga e as confusões que revelam a atual falta de amor ao boi bumbá

Publicado em 03 de junho, 2013

O Festival Folclórico de Parintins, a mais expressiva festa popular do Amazonas, deitou bases sólidas ao longo de quase 50 anos, mas bebeu nas origens dos bumbás Caprichoso e Garantido, que este ano comemoram centenário. O amálgama do evento foi a paixão dos fundadores, entre os quais Lindolfo Monteverde, pelo Garantido, e Luiz Gonzaga, pelo Caprichoso.

Lindolfo, homenageado pelo Garantido no CD “Quem manda é a galera”, numa gravação resgatada dos arquivos do ex-apresentador Paulinho Faria, solta alguns versos e chora. Ele estava se recuperando de um derrame e canta num fio de voz.

Luiz Gonzaga, que durante mais de 30 anos “botou” o Caprichoso nas ruas, doente e proibido pelos médicos de participar da brincadeira, não tomou conhecimento do impedimento e dançou a noite inteira debaixo de Dona Aurora, a boneca de pano gigante do bumbá. Saiu, de madrugada, para falecer.

O fundador do Garantido chora. Quantas lembranças passaram por aquela cabeça encanecida, dos tempos em que o bumbá desfilava pelas ruas, com ele à frente, atraindo atenções, distribuindo alegria. Como deve ter sido difícil ouvir a própria voz, famosa pela potência, num registro quase incompreensível, frágil, fraco.

Um dos fundadores do Caprichoso, Luiz Gonzaga fazia enorme esforço para não deixar morrer a brincadeira. Mas tinha no desfile, embaixo da Dona Aurora, o grande momento pessoal. Era seu passatempo predileto. Deixar isso de lado era pior que a morte e ele exerceu seu direito de brincar, brincar e brincar… até o fim.

O choro de Lindolfo Monteverde e a paixão de Luiz Gonzaga são exemplos da paixão pelos bumbás. A festa chegou a um impasse na transmissão. O Garantido deve ter sua apresentação no bumbódromo transmitido pela Rede Calderaro/ Record News e o Caprichoso pela TV Amazonas/ Amazonsat. Interesses individuais e orgulho pessoal se misturaram para levá-la a esse gargalo, que pode prejudicar a divulgação nacional do Festival Folclórico.

Os bumbás sobrevivem aos indivíduos. Isso é história. A mesma história que tornou eternos os que souberam usar o esforço individual para torná-los ainda maiores e tudo fizeram para trazer mais e mais colaboradores para dentro da festa.

O exemplo está aí. É só seguir.

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