05/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Emerson, o fotógrafo da Amazônia e do modo de vida em meio à natureza parintinense, em versos

Publicado em 14 de agosto, 2020

Emerson o fotógrafo da Amazônia

Emerson o fotógrafo da Amazônia foi homenageado no Teatro Amazonas, pela Orquestra de Violões e grandes intérpretes. Foto: Marcos Santos

“Quando amanhece o dia aqui na mata/ eu sinto o cheiro de paz sem fumaça/ e o meu coração/ Bate suave, macio, como a brisa que sopra/ do rio que amarrota o capim verdejante, na beira do estirão./ E o sol que desponta por cima da serra/ encerra o momento mais lindo da terra/ que é o amanhecer./ Seu manto dourado derrama no vale/ e o lago, água preta pura cristalina/ parece um mar de cristal./ Ouço o canto rasgado de uma ariramba/ Que alegre reclama sua pescaria/ Está meio ruim./ Ouço o canto ao longe de um japiim/ lembro carros, buzinas e apitos estridentes/ e começo a rir./”.

“Quando anoitece o dia, aqui na mata/ olho pro céu e vejo pinguinhos de prata e o mais lindo luar./ Uma coruja começa o seu canto triste/ alguém pega a viola e arpeja baixinho/ uma canção de ninar./ Faz muito calor, na varanda ato a rede/ e durmo tranquilo, aqui no vale verde/ malfeitores não há./ Rogo a Deus proteção pra estas terras/ que livre as matas dos golpes das serras/ pra vida continuar./ Ouço o canto rasgado de uma ariramba…”

O parintinense não precisa de mais nada para ver aí a digital de Emerson Maia. Ouça a música, ao final desta matéria.

 

O fotógrafo

O poeta, que faleceu esta sexta (14/07), sabia como ninguém fotografar a Amazônia, em meio à diversidade de fauna e flora parintinenses. Deixou fotos, em versos, que são instantâneos do cotidiano da vida interiorana, ribeirinha, cabocla. O índio destribado, o ribeirinho na terra firme e o caboclo, mesmo na selva de pedra, sentem o lufar da brisa e o cheiro do chão amado.

Em “Canto puro”, a música cujos versos estão nos dois primeiros parágrafos, Emerson “fotografa” o amanhecer e o anoitecer. Descreve o ambiente com maestria e, músico habilidoso, usa as escalas como ênfase da narrativa.

“Canto puro” é a poesia que mais define Emerson, pessoalmente. Ele estudou em Belém e poderia continuar por lá, tranquilamente. Tinha construído vida profissional, como músico. Afinava pianos para os grandes artistas, viajando pelo País. Mas preferiu voltar para Parintins e de lá nunca mais mudou. Voltou para se tornar um ícone do Festival Folclórico, como levantador oficial do Garantido e poeta dos dois bumbás.

Os versos “lembro carros, buzinas e apitos estridentes/ e começo a rir/” são a expressão do que sentia: em meio à natureza no estado mais puro, ria às gargalhadas de felicidade pelo acerto da opção pela paz do campo, ao invés das grandes cidades.

Emerson Maia era dono de uma marina e fábrica de gelo, em Parintins, às margens do rio Amazonas. Viveu cercado de mulheres bonitas. Casou com Ana Garcia (falecida), com quem teve Ticiana Garcia Maia Hagge. Depois casou com Aimê Novo Faria, mãe de Emerson Faria Maia e Osmar Faria Neto. E estava casado com Andrea Pereira, mãe de Leon Pereira Maia e Edwal Pereira Maia.

Os irmãos Ednea, Erivaldo e Júnior Maia estão providenciando a transferência do corpo para Parintins. Edwal Maia, o irmão mais velho, mora em Belém. A Prefeitura Municipal decretou luto oficial de três dias. A mãe, dona Lady Maia, aos 94 anos, foi poupada pelo Alzheimer da despedida.

Emerson nasceu dia 4/06/1954. E fica entre nós para sempre. Está entre a “gente, que partiu pra ficar”.

Ouça “Canto puro”:

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