O período Pós-Revolução Industrial foi marcado por uma densa referência ao trabalho, tanto na estruturação social como na produção do sujeito contemporâneo. Com a crise da sociedade centrada no trabalho, sobretudo no ano de 2020, alguns valores e categorias são repensados e demandam uma nova abordagem, já que a maioria de nós, antes privados desse sabor, descobriu o ócio.
O domínio do trabalho na estruturação social passa a ser substituído, pois nem todos podem trabalhar em home office, e surgem ideias que colocam o tempo livre, o ócio e o lazer no papel de elementos estruturantes do novo contexto social e isso a maioria de nós já percebeu de cara com o isolamento social que nos foi posto.
Há, entretanto, um fenômeno até então desconhecido de nós, sobreviventes do novo séc. XXI, que inclusive, caminha de encontro a ideia de ócio convivida por todos, a SINDROME DA PRODUTIVIDADE PANDÊMICA. Mas, afinal o que é isso?!
Você com certeza conhece alguém que nesta pandemia fez trilhões de planos de desengavetar ideias, fazer faxinas, estudar idiomas, malhar e orquestrou tantos outros planos até para ajudar a manter a própria sanidade mental diante do já jazido mundo conhecido que se desconstrói diante de nós.
A maioria de nós, antes da pandemia, tinha uma rotina puxada com uma “amalgama de trabalho, família e estudos” e, muito comumente, as 24 horas diuturnamente nos oferecida pela natureza não nos fazia justiça às necessidades infindas do conturbado dia-a-dia.
A inquietação do homem comum acaba sendo a sede pelo acumulo, a necessidade de se obter informação e/ou coisas que os torna mais competitivo frente ao seu principal rival: o outro homem comum. Há tantos homens e mulheres quanto se possa contar se acotovelando e irrequietos, ávidos por acumular currículo, e todos, é claro, com apenas 24 horas em seu dia e, obviamente, algo deverá ser negligenciado. O acúmulo pelo acúmulo, neste sentido, nada mais é que aprender por aprender e estes caminhos levam para a perda de propriedade, sobriedade e até mesmo a capacidade de realmente ter prazer em compreender, pois o aprendizado técnico ganha maior importância, pois em geral é esse saber tecnicista que garante salários.
O caso é que a necessidade de especialização, ao mesmo tempo seguida de uma intensa multidisciplinaridade (deve-se saber também um pouco de tudo), ganhou o mercado e o mercado faz do conhecimento o mesmo que faz com o capital: multiplica com a finalidade de buscar maiores ganhos e a tendência do futuro é uma acentuação desta perspectiva. Não raro torna-se natural a busca por dois empregos, por duas faculdades, a busca pela renda à parte com a intenção de talvez cultivar o tempo, mesmo sendo uma ilusão, hoje esta perspectiva foge e acabamos abraçados por ela, senão engolidos.
Na esteira do novo séc. XXI, os indivíduos antes escravizados pelo ideal “workaholic” foram apresentados ao ócio e, aparentemente, decidiram tirar o atraso dos projetos preteridos em nome do ideal tecnicista e laboral do antigo séc. XXI.
Surge nesse cenário o grupo de indivíduos dispostos a fazer o dia render “36 horas” com projetos outros, até esquecidos e renegados, mas redescobertos no encarceramento domiciliar e como a sanha por aproveitar tempo é grande, já que não sabemos quanto tempo mais o cárcere pandêmico irá durar. Os indivíduos, muitos até influenciados pela “autoajuda coach”, apareceram com a ideia de fazer o “pouco tempo fluir com a maximização dos resultados em seus projetos”, ledo engano. Isso aí é o que eu chamo a “SINDROME DA PRODUTIVIDADE PANDÊMICA”, até onde eu sei, fui a primeira pessoa a chama-la assim, mas se você, meu estimador leitor, souber uma forma de melhor identifica-la, fique à vontade.
Pode-se dizer que a questão aqui é a gestão do tempo. Analisar que é possível ter tempo para o conhecimento técnico e/ou pelo trabalho e a busca pelo conhecimento que melhor convém, mas se calcularmos a precisão de tempo que nos sobra e que realmente necessitamos, sobra pouco, pois além de tudo, necessitamos de uma vida social, da aventura, da autorreflexão, do tempo em família, da produtividade artística, do auxílio ao próximo, do trabalho e até mesmo de um tempo de despreocupação.
Como ficará os projetos não terminados dos que hoje se tornaram superprodutivos? Todos sabemos que ninguém consegue ficar fluente em um novo idioma em apenas algumas semanas, para ficarmos apenas em um único exemplo. Se nada mudar na concepção intrínseca da nossa relação do tempo com os diversos afazeres diuturnos em nossas vidas, a sensação de vazio existencialista continuará a fazer de nós apenas as mesmas máquinas de acumular currículo do antigo séc. XXI.
Mas tudo isso, ao fim e ao cabo, vale a pena? Talvez a maioria diga que sim, pois hoje se acredita que é vantajoso protelar as necessidades de vida em detrimento do bem financeiro (bem “maior” nos roda hoje e infelizmente acaba por nos definir como pessoas) e que hoje ganha atalho pelo conhecimento. Não se pode descansar, o que é natural para qualquer ser vivo, pois logo se é tomado como indivíduo cansado, ultrapassado, extinto e preguiçoso, pois aquele que não vê no final do túnel apenas o pote de ouro está fora da realidade onde se deve matar um leão por dia. A questão toda, é que há aí uma roda gigante viciada, pois, este ciclo tende a ser eterno: mais informação, menos tempo, mais trabalho, menos família, outro tanto de informação e menos conhecimento de vida prática.
Somos seres com uma enorme capacidade de aprendizado e adaptação e, até onde sabemos, somos os únicos seres na terra dotados de consciência e capazes de produção intelectualista, artística e tecnicista, mas a capacidade de modelar essas habilidades deve estar ligada também ao impreterível prazer do acaso de suas modelagens, e não a busca incessante por elas.
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