
Lembranças da Francesa, o lago onde o Governo do Amazonas pretende realizar o Prosai e fazer o saneamento, observador privilegiado da história da Terra dos Bumbás. Fotos: Elinaldo Tavares
O lago da Francesa entrou no Prosamim do Interior, o Prosai, do Governo do Estado. O anúncio, feito pelo governador Wilson Lima no último fim de semana, em Maués, traz um turbilhão de recordações. O local está para Parintins como Ponta Negra, Tarumã e Puraquequara, juntos, estão para Manaus. Foi porto seguro, balneário, zona de pesca, logradouro preparatório da vida cabocla. Além, é claro, de referência geográfica do Caprichoso na Ilha Tupinambarana.

Nas seca, o imenso lago se transforma nesse filete d’água

Toda aquela pujança da cheia dá lugar a um cenário desolador na vazante
A Francesa é estuário da avenida Amazonas, principal da cidade, que, em frente à Catedral, a pavulagem denominou de “Broadway”. Mas isso é coisa moderna, decorrente do estágio atual do Festival Folclórico de Parintins.
O lago era muito próximo de selvagem, na vida parintinense da década de 1970.
As águas eram férteis. As margens recobertas por denso igapó, onde frondosas lombrigueiras dominavam o cenário. O mureru vicejava nas vazantes, fazendo a faxina do que houvesse de poluição.
Era aí que os pescadores, com pouco esforço, conseguiam a boia e a farinha. O que isso significa? É uma das expressões mais caras da vida na ilha. O pescador leva uma cambada de peixe para a família e deixa outras tantas para vender e comprar a farinha. Isso em pouco tempo, um fim de tarde, por exemplo, com pouquíssimas tarrafeadas.
Peixe? Que peixe? Eles faziam roda. Era facílimo, para pescadores experientes, localizá-los. A canoa voltava abastecida de mapará, charuto (cubiu), apapá, aracu, jatuarana, carauaçu, tucunaré, pacu, jaraqui, um ou outro surubim etc. Na época certa havia também bodó e tamuatá.
Na enchente, as águas se tornavam ainda mais cristalinas e sobravam pontas de areia, quase praias, logo transformadas em balneários. Até mesmo jangadas de toras, das poucas serrarias que existiam na cidade, serviam como ponto de banho.
A garotada adorava as porfias de natação, atravessando o lago de um lado para o outro. O nado era “sem estilo” – mete o peito e vai. Os pais arrancavam os cabelos, mas era impossível conter os aventureiros daquelas águas profundas.
Tudo isso na Francesa? Sim. As habitações ainda eram raras.
O lago foi reformado, aterrado, cortado por avenida e ocupado por feira de peixe.
O municipal Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) fincou os poços de abastecimento da cidade na cabeceira. É aquele local onde começa o bairro de Palmares, atrás do curral do Caprichoso. Ocupou uma área extensa. Tirou o igapó e criou até um campinho de futebol.
Acossado pelo aumento do número de barcos e adensamento habitacional no Município, aos poucos o lago se tornou poluído.
Um Prosamim dos sonhos recuperaria toda essa área. Não dá para refazer o aterro principal. É possível – e necessário -, porém:
1) transferir a feira para margem e liberar o curso d’água, construindo pequena ponte na avenida consolidada;
2) reocupar a área do Saae;
3) organizar o porto, via acordos com Prefeitura, Marinha e Ministério dos Transportes, para evitar a saturação;
4) promover a coleta e o tratamento de esgotos.
Parintins não vira Município modelo, em saneamento básico, sem resolver o problema da Francesa. O lago, que alimentou, transportou e deu lazer a várias gerações, tem a chance de renascer. A água, sinônimo de vida, pode voltar a respirar, até porque se renova nos ciclos enchente-vazante.

A escadaria, o lixo e os barcos ancorados

A vetusta francesa ainda guarda beleza para encher os olhos, quando o sol está nascendo

E há partes bem cuidadas, ajardinadas, embora privadas

O curso d’água ainda se mantém como importante corredor de entrada e saída do parintinense

Na cheia, plena, enche os olhos. Falta pouco para transformar a Francesa num local exemplar
Francesa ressuscitada? Dá até toada.
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