
Entenda o Panavueiro na cúpula da segurança pública, entre David Brandão (esquerda), Walter Cruz (centro) e Mariolino (direita)
Feriadão se aproximando e sempre que isso acontece os índices de violência dão um salto. Agora, em plena campanha, segurança calcanhar de Aquiles do governador, candidato à reeleição, a cúpula se reúne para traçar planos. Os estilos são diferentes. David Brandão mais calmo e diplomático. Mariolino político, matreiro. Walter Cruz, o “xerife”, nomeado com poderes sobre os demais, bate na mesa. Explode o descontentamento latente das últimas semanas, desde que a nomeação de Walter se deu, com entrevista coletiva bombástica. Os reflexos são imediatos. O comandante da PM e o delegado geral pedem demissão. Amazonino intervêm. Pede para os dois ficarem. Brandão não aceita. Mariolino, depois de muita ponderação, resolve ficar. Depois acaba saindo. Frederico Mendes volta a ser delegado-geral da Polícia Civil. Está criado mais um imbróglio no comando que deveria agir unido, no clima caótica da segurança pública amazonense.
Na terça (04/09), quando a coluna foi publicada, Mariolino havia voltado atrás e ficado. Só depois, no começo da noite, Amazonino o trocou por Frederico.
A segurança, com números diários de mortes correspondente a chacinas, precisa de comando real e imediato. Um comandante, com muitos outros de igual patente, jamais conseguirá se impor no grito. É preciso muita habilidade, conversa, jeitinho, adulação mesmo, para conseguir realizar. E esse não é o estilo do coronel Walter Cruz, que chega sempre de carrinho nas divididas. A saída seria o apoio do governador, experiente e dono da autoridade institucional. Problema é Amazonino dividido entre cuidados com a saúde, lazer e campanha, dando impressão de falta de tempo para governar.
O governador, diante das mortes e do recrudescimento da guerra do tráfico, deveria tomar atitudes junto à segurança, que vão além da retórica. O “toma que o filho é teu” da nomeação de um “xerife”, definitivamente, não resolve o problema. Só cria rusgas entre comandos porque fixa ideia de incompetência dos preteridos na indicação para o posto. Traficantes e criminosos de todas as latitudes só respeitariam se Amazonino reunisse cúpulas e conversasse com subordinados. O “chefe” precisaria se movimentar, à luz da mídia, como Zé Roberto se movimenta nas sombras. A guerra é de tiro, mas é também de inteligência, marketing, ação, mobilização. É aí que o cidadão está perdendo. Tomando um banho. Levando um couro baiano. Pegando capote, pra usar a linguagem contemporânea da mesa de dominó.
O coronel David Brandão permaneceria no comando da PM. Mas não aceitou conviver com as ordens do coronel Walter Cruz. Ele sai para dar lugar ao coronel José Cláudio Nonato da Silva. Que, por sinal, foi anunciado em entrevistas pelo coronel Walter e não pelo comandante, o governador.
O delegado Mariolino Brito saiu para valer. Protocolou a carta de demissão na Polícia Civil. Pediu o chapéu e foi embora. Amazonino o chamou para reunir na sede do governo, que agora funciona no Tarumã. Mariolino teria ido lá, na casa do chefe, conversado, ponderado que precisava sair e dando as razões. O governador apelou à amizade e ao relacionamento antigo entre os dois. Mariolino resolveu ficar, mas, como viraria uma “cunha” na autoridade absoluta de Walter Cruz, acabou saindo.
O delegado Frederico Mendes foi substituído como delegado-geral por Mariolino Brito. Agora volta no lugar dele. É mais uma demonstração do jogo de acerto-erro do governo estadual.
O coronel Walter Cruz, como já aconteceu outras vezes, entrou num tudo ou nada. Tem, por enquanto, o apoio do secretário particular de Amazonino, major PM Otávio Queiroz de Oliveira Cabral Júnior. É daí que vem a força dele. Têm a cara de Otávio Júnior, aliás, as mudanças na PM.
Enquanto a cúpula da segurança se digladiava pelo poder, hoje (04/09), cinco homens encapuzados protagonizaram mais violência no bairro União. Eles mataram dois, a tiros, deixando uma vítima ferida. Na segunda-feira (03/09), diante do aniversário de um dos “chefões” do crime organizado, Manaus assistiu a foguetório correspondente ao Réveillon. Houve queima de fogos em bairros como Redenção, Compensa, Mauazinho e Mutirão, enfim, por toda cidade. É assim que, de Zé Roberto ao vapor da esquina, o crime vai tomando conta da rotina amazonense.
O bairro União, onde tiroteios e mortes se tornaram comuns, fica numa zona central de Manaus. É parte do Parque 10, um dos mais conhecidos e bem localizados bairros de classe média em Manaus. A área tem alta densidade populacional. Nas vielas do União se movem moradores e estudantes universitários, principalmente de Ciesa e UniNilton Lins, tentando driblar engarrafamentos. A situação chegou ao ponto de polícia e traficantes “aconselharem” a não passar por lá. Virou zona vermelha, como morros cariocas, com pontos de vigilância armada. E moradores passaram a circular com os vidros abertos, para não serem confundidos com criminosos rivais.
Problema para Amazonino explicar aos seus eleitores: como alguém quer se reeleger governador se, estando no cargo, tem tanta falta de apetite para governar? O expediente em casa é exceção. Não pode virar regra, se não resvala do Estado para o indivíduo. E o Estado não é individual, como revela o problema da segurança pública, que só será resolvido com a união de todos. E tudo começa na disposição do governador de liderar o combate ao crime.
Veja mais notícias em Panavueiro