“O mundo tropical tem em suas mãos o futuro agrícola do mundo”.
Pierre Gourou
A produção do setor primário no Amazonas, segundo dados do IBGE e da Secretaria de Planejamento, responde por apenas 4% do Produto Interno Bruto do Estado. A incipiência da economia de origem agrícola, pecuária e hortifrutigranjeira não é uma novidade quando se analisa a macroeconomia do Amazonas. Há fatores de ordem cultural, econômico e relativos ao meio ambiente que limitam o incremento desses indicadores.
Os ameríndios que aqui viveram antes da chegada do europeu, mantinham basicamente uma cultura nômade de subsistência, onde o extrativismo silvestre predominava. Por outro lado, as políticas econômicas desenvolvidas, quase sempre voltadas para um único ciclo produtivo – especiarias amazônicas, borracha e polo de eletroeletrônicos – obstruíram a diversificação da produção, sobretudo no interior do Estado. Por fim, a pressão cada vez maior pela preservação dos estoques da biodiversidade da Amazônia é outro fator preponderante para o atraso do setor.
Em brilhante estudo sobra a Amazônia, publicado em 1976, Djalma Batista retrata o problema da falta de alimentos, sobretudo nas comunidades do interior do estado. Ali o autor trata a carência de alimentos no cardápio diário dos ribeirinhos como drama, problema número um, círculo vicioso e causa de subnutrição. Eis algumas conclusões a que chegou um dos grandes cientistas da nossa região:
“A análise biológica e química da dieta amazônica revela um regime alimentar com inúmeras deficiências nutritivas. Tem-se de logo uma impressão de sua impropriedade na sua extrema pobreza, ou mesmo ausência de alguns alimentos protetores: da carne, do leite, do queijo, da manteiga, dos ovos, das verduras e das frutas.”
“…os cardápios ficaram restritos a uma pobreza muito grande, que leva à monotonia, talvez dentro do círculo vicioso de que pouco é o material de que dispõem, especialmente hortigranjeiro. O prato de resistência é sempre o peixe, quando tem.”
“Para superar tais deficiências, recomenda a concentração de esforços em metas prioritárias, representadas pela expansão das culturas de hortaliças, fruteiras, feijão, oleaginosas e milho, ao lado da avicultura e da pecuária de leite”.
Os dados de 2011 do IBGE/SEPLAN, publicados quase quarenta anos depois, indicam que ainda pode haver crianças de seis meses “sendo alimentadas com peixe cozido e pirão de farinha no interior”, conforme indicava o autor naqueles idos dos anos setenta. Nossa responsabilidade é preservar a Amazônia, mas não podemos abdicar de cuidar das pessoas que nela vivem.
Uma leitura precipitada poderia levar um verde a pensar que Djalma Batista fosse um defensor dos ruralistas. É exatamente o contrário. Um dos nossos mais respeitados estudiosos classificava a Amazônia como uma esfinge a ser decifrada.
As civilizações europeias e asiáticas aprenderam a cultivar e pesquisar a terra para dela obter seu sustento há milhares de anos. Por outro lado, o modelo de civilização ocidental somente adentrou os rios e a hileia amazônica há pouco mais de quinhentos anos. Daí a necessidade de desvendar seus mistérios, pesquisar e dominar técnicas de cultivo e produção que possam conviver em harmonia com o meio ambiente.
* Júnior Brasil é Perito em Contabilidade e Finanças, especialista em administração Pública e Mes...