09/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Um dia no Fórum

Publicado em 16 de janeiro, 2026

Por Felix Valois

Não existe advogado digno desse nome que nunca tenha estado, nos corredores ou nos átrios dos fóruns, em conversas informais cujos temas vão do futebol a mulheres, passando, é lógico pelas agruras que enfrentamos no dia-a-dia da emperrada máquina judiciária.

E surgem, então, histórias de juízes que são exímios na aplicação do agravo de gaveta, eis que uma demanda perante eles tende a se tornar eterna como o tempo e o espaço. De coleguinhas que confundiram embargos infringentes com estado de flagrância. E (por que não?) de magistrados que superaram a fase da dúvida, adquirindo a plena certeza de que são deuses.

Tudo ajuda a superar o estresse que se apresenta inevitável quando o cliente nos indaga do andamento de sua causa, indignado porque ela não termina. Aí exsurge a necessidade de paciência oriental, porque é óbvio que o cliente não pode entender a razão da demora, na medida em que nós mesmos não temos condições de compreendê-la.

Uma dessas conversas a que aludo jamais me saiu da memória. Na segunda metade dos anos sessenta, o fórum ainda funcionava no Palácio da avenida Eduardo Ribeiro e eu engatinhava na profissão, saído que fui da “jaqueira” no longínquo ano de 1965.

De uma roda, bem no meio do salão de entrada, participavam, entre outros, o professor Adriano de Queiroz e um desembargador.

Mestre Adriano, culto, humanista, professor de direito na acepção mais pura e verdadeira que se possa dar à expressão, era de uma ironia ferina e impiedosa.

O magistrado, que não era especialmente conhecido por sua inteligência nem por seus dotes na ciência de Ulpiano, num determinado momento da conversa e com ares de quem inventou a roda, exclama a respeito do tema em discussão: “Tive uma idéia!”

A voz anasalada do professor se fez ouvir imediatamente, cruel e implacável: “Não diga!?”

Fora outro o objeto da gozação, as gargalhadas teriam sido intermináveis. Na presença do divino senhor, entretanto, os circunstantes foram dando um jeito de se afastar para, longe dali, rirem a bandeiras despregadas.

Mestre Adriano de Queiroz se foi em 1969 e, com ele, começou a desaparecer toda uma geração de advogados que deveria servir de exemplo e paradigma a quantos optam pela sofrida profissão.

Exercê-la, não há de ser apenas a busca da recompensa pecuniária, traduzida nos honorários. Tem ela algo de sublime, algo capaz de transformar o verdadeiro advogado num misto de piedoso pastor e assistente social, candente e destemido diante da arrogância, mas humilde e benevolente com quantos buscam a realização de direitos primários, postergados por uma ordem jurídico-social injusta desde o nascedouro.

Pego-me a sonhar. Não importa. Pelo menos por isso não pago imposto. E, o que é melhor, lembra-me que estou vivo porque vida há de ser sempre sinônimo de esperança.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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