
Teatro, Largo, história e planejamento podem criar a Manaus dos sonhos
O livro Um conto de duas cidades (A Tale of Two Cities), de Charles Dickens, retrata o caos de Paris e Londres em tempos passados. Sim, essas mesmas metrópoles hoje exaltadas pelo turismo e pelo luxo — o coração do chamado “circuito Elizabeth Arden”, o ápice do requinte mundial — já foram um verdadeiro lixo. Pois bem: a capital da Zona Franca, que acaba de completar 356 anos, está em situação melhor do que aquelas cidades naquele tempo. A Manaus dos sonhos não está tão distante assim; o que falta é uma dose cavalar de boa vontade e espírito público.
Foi o Barão Georges-Eugène Haussmann quem literalmente tirou Paris da lama. E, após o grande incêndio de 1666, Sir Christopher Wren fez o mesmo com Londres. Ambos eram arquitetos, e ambos tiveram o respaldo do poder: Haussmann contou com o imperador Napoleão III — de tão bom gosto que vivia em Versalhes —, e Wren teve como patrono o rei Carlos II, o “monarca alegre”, responsável por restaurar a monarquia inglesa. Em comum, os dois casos tiveram o elemento que faz toda diferença: vontade política.
Nada melhor do que seguir o curso da história. Manaus precisa de um projeto amplo, duradouro, capaz de virar a página escrita pelas favelas nascidas do boom da Zona Franca.
Em um futuro não tão distante, algumas perguntas soarão inacreditáveis: por que Manaus matou seus igarapés? Por que eles não servem como alternativa de transporte e turismo?
A primeira resposta, como sempre, cairá no velho “fator cultural”. E aí lembraremos o que a tal “cultura regional” fazia com o Igarapé de Manaus — até que o Prosamim resolveu colocar ordem na casa. A segunda objeção será a de sempre: “não dá por causa da enchente e da vazante”. Pois bem: Estrasburgo, na Alsácia francesa, enfrenta o mesmo problema e resolveu há séculos — construiu eclusas em 1687. Ou seja, a engenharia moderna não teria qualquer dificuldade em domar o fluxo das águas.
O rio Negro é o maior exemplo de um meio de transporte subutilizado. Durante o #SouManaus2025, a Prefeitura mostrou o potencial ao acelerar a chegada de convidados usando o porto do São Raimundo e o ancoradouro do Mirante Lúcia Almeida. Foi uma viagem rápida, agradável, diferente e segura — sem engarrafamentos nem a corrida por vagas de estacionamento.
Manaus também precisa de ruas que sigam adiante. A Umberto Calderaro (Paraíba) termina no CSU do Parque 10. A Eduardo Ribeiro morre na Praça do Congresso. Em vários bairros, como ao lado do Latu Sensu, uma única casa interrompe o traçado e transforma o que poderia ser uma excelente via em um labirinto. As “vias sucessoras” viram serpentes agonizantes: o trânsito trava, e o manauara perde horas preciosas do seu dia a dia.
A Manaus dos sonhos é possível. Falta apenas alguém planejar. E começar.
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