
Brasil na era Trump (foto) parece estar vivendo um enredo de folhetim, mas a coisa é séria
O presidente norte-americano, Donald John Trump, deu um xeque na soberania brasileira, com exigências duras, em áreas que só ao Brasil competem. Aumentar em 50% os impostos sobre exportações é só parte do corolário. A alternativa, como disse em carta, é o País “parar a perseguição” ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Criou-se um gargalo real, um momento difícil. É quando, sob pressão máxima, o espírito público se impõe. Um desafio para estadista, uma quimera que precisa varar o cipoal de paixões clubistas, Lula x Bolsonaro, antes de ter qualquer chance de agir.
Trump revelou, entre as últimas manifestações sobre o Brasil, um dos desejos ocultos nessa escaramuça. Trata-se do acesso “facilitado” às reservas de terras raras, o grande filão do mundo atual. O solo nacional tem 20% das reservas mundiais.
Terras raras, só para deixar claro, são essenciais do carro elétrico aos smartphones, passando pelas indústrias aeroespacial e petrolífera. A China está na frente nessa corrida e tira daí grande parte da influência global de que desfruta.
Voltando à querela de Trump, os efeitos podem ser diferentes do que ele deseja. O primeiro é que Lula, com popularidade baixa e vendo as chances de reeleição apertarem, voltou a ter um discurso. Tem levantado plateias, com a ênfase possível na voz rouca, esgrimindo frases como “o Brasil é dos brasileiros”. Há quanto tempo o leitor não ouvia um discurso desses, inflamado, do presidente?
O presidente norte-americano, longe de ser um estadista, está focado em trazer de volta a indústria nacional – quase todos os produtos made in EUA são produzidos ou em países africanos ou na China, dos tênis ao iPhone. Se, de quebra, conseguir uma guerrinha no quintal, ainda poderá desovar o arsenal, obsoleto para enfrentar Rússia e China, ainda letal contra os desarmados vizinhos da América Latina.
O nacionalismo, que já serviu de biombo para todo tipo de atrocidade, de Mussolini a Hitler, passando pela ditadura militar do Brasil, pressupõe um verniz de heroísmo, quando revestido de real espírito público. A história é farta em exemplos da fórmula aí contida, com um dado comum: o sacrifício do indivíduo pela coletividade.
Nelson Mandela, o herói sul-africano, do qual todos lembrarão como herói estadista, jamais exigiu que os sul-africanos se sacrificassem por ele.
No caso brasileiro atual, as entrevistas de Jair Bolsonaro têm tido o mote de que basta dar anistia para o 8 de janeiro que o tarifaço não vem. Há muitos a serem beneficiados, caso um ato assim viesse a ocorrer, mas o principal deles é o próprio Bolsonaro.
O que faria um estadista legítimo? Apelaria ao aliado norte-americano, que demonstra enorme apreço por ele, contra o tarifaço, mesmo que isso significasse um ou dois anos de prisão. Seria o sacrifício do indivíduo pelo coletivo. Lula amargou dois anos na cadeia de Curitiba e saiu de lá para vencer Bolsonaro e voltar à Presidência.
O agro, grande aliado do ex-presidente, é o setor mais atingido pela sobrecarga de impostos. A luta, muito justa!, contra a gastança nacional, esbarrará no corte, sem trocadilho, na própria carne. E continuará o Congresso, inteiramente sem freio, administrando o País via bilhões em emendas.
Jair Bolsonaro, presidente, anunciou economia de US$ 80 bilhões, no primeiro ano, graças ao combate à corrupção. Passou a campanha inteira criticando Lula e o PT, por conta do populismo contido no Bolsa Família. Esperava-se dele, no mínimo, que passasse a régua no programa, num crivo que certamente tornaria mais leve o peso de quem paga impostos. Acabou, ao invés disso, optando por lutar pela popularidade nesse nicho petista, aumentando o valor da bolsa e ampliando o número de beneficiados.
Os tais US$ 80 bilhões economizados seriam suficientes para construir dois metrôs de Manaus. Sim, com US$ 300 milhões por estação, a melhor alternativa ao trânsito caótico manauara avançaria do porto à Cidade Nova, via Constantino/ Torquato. De lá, na altura do viaduto Rei Pelé, prosseguiria pela Zona Leste, voltando ao Centro, via Alameda Cosme Ferreira. Uma volta completa. Milhares de carros fora do trânsito. Sem o argumento de que “você cava e dá na água”, quando existe o túnel do Canal da Mancha e São Paulo prepara o igualmente submarino Santos-Guarujá.
Essa dinheirama, que poderia iniciar a estruturação ferroviária do Brasil – não há país desenvolvido sem ferrovia – foi parar no “auxílio emergencial” da pandemia. Levou milhões a filas infectantes. Feriu de morte as manifestações, do próprio Bolsonaro, na linha do “que posso fazer, não sou coveiro?”
Tomara que os senadores, a caminho de Washington, consigam êxito. O bê-á-bá da diplomacia, porém, é que a conversa seja entre chefes de Estado.
O Brasil tem, em resumo, nesse momento grave, um presidente preocupado com a reeleição e um ex-presidente cultivando o próprio umbigo. Tadinhos de nós.
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