20/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Caboco Jomar e a poesia no discurso de posse na presidência do TJAM

Publicado em 09 de janeiro, 2025

Caboco Jomar

Caboco Jomar sorri, no dia da posse como desembargador, em 2016, sem saber que o sonho ainda chegaria mais longe. Foto: Rafael Alves/ TJAM/ Divulgação

O desembargador Jomar Fernandes, 64, tomou posse como presidente do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) no Teatro Amazonas. E, num discurso impactante, fez jus àquele templo das artes.

Jomar, sem um traço de pieguice, derramou o coração. A emoção estava presente. Tanto que o representante do colegiado, desembargador Délcio Santos, cunhado do empossado, se emocionou ao lembrar o falecido sogro, José Fernandes, com quem compartilhou sonhos.

Quebrando o protocolo, o novo dirigente abriu espaço para um líder dos povos indígenas do Alto Solimões. Ele agradeceu a assistência recebida, a partir do desembargador que se despedia da Corregedoria para assumir a presidência. Mas deixou, incontinente, o apelo por ajuda semelhante aos congêneres habitantes do Amazonas inteiro.

O empossado foi afável com a diretoria que sai e não economizou na citação de colegas. O mesmo com o novo vice-presidente, Ayrton Gentil, e Hamilton Saraiva, que o substitui na Corregedoria.

Estavam na posse Mauro Campbell e Reynaldo Soares da Fonseca, ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ), além da primeira mulher presidente do Superior Tribunal Militar, Maria Elizabeth Rocha. Campbell, amazonense, é também o corregedor do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O governador Wilson Lima, o prefeito em exercício Renato Jr. e o presidente da Assembleia Legislativa, Roberto Cidade, também foram.

 

Sonho de um sonho

O presidente empossado lançou mão do samba-enrêdo “Sonho de um sonho”, de Martinho da Vila, como fio da meada para expressar as quimeras familiares. A mãe, Dona “Candura”, servidora do TJAM, o embalou sonhando que ingressaria na carreira jurídica. Vieram a esposa, falecida precocemente; a atual, alvo de uma expressão de carinho público raro de se ver; os filhos (“anjos”) e os netos (“querubins”); a lembrança do falecido pai e, finalmente, o desaguar na poesia de Taiguara, em “Teu sonho não acabou” (“foi escrita em Manaus”): “Lá onde eu estive o sonho acabou/ cá onde eu me encontro só começou”.

A ciência criou cânones para a poesia. São versos isométricos, heterométricos e livres, dentro do caixote que define cada linha de criação como monossílabo, dissílabo, trissílabo, tetrassílabo, pentassílabo (redondilha menor), hexassílabo, heptassílabo (redondilha maior), octossílabo, eneassílabo, decassílabo, hendecassílabo, dodecassílabo (alexandrino) ou bárbaro. Jomar narrou sua trajetória em poesia, sem precisar de nada disso.

 

O sonho não acabou

Taiguara, no poema citado, canta que o sonho acabou porque retornava ao Brasil, depois do exílio imposto pela ditadura. Foi o “lá onde eu estive o sonho acabou”. Ao mesmo tempo, diante de um novo amor, “cá onde eu me encontro só começou”. No refrão, o artista entrega o jogo com a repetição do “eu preciso”, que culmina em “preciso muito de você”.

O novo presidente do TJAM, com voz calma, sem empostação e cheia de emoção, agradeceu por tudo que aprendeu em Humaitá (AM), a primeira comarca sob seu comando. Em seguida, sem pestanejar, deixou nos anais o auspicioso registro de que seu “livro de aprendizado” não se fechou.

O TJAM tem, nos atuais 26 desembargadores, dois compositores, parceiros, letristas do sambista Paulo Onça, que hoje luta na UTI pela sobrevivência, após o brutal espancamento de que foi vítima. Eles são os ex-presidentes Flávio Pascarelli e Yedo Simões. Agora, o Caboco Jomar, como os amigos mais próximos o tratam, demonstra mais dessa sensibilidade escondida sob a toga.

O mundo jurídico do Amazonas, como a sociedade em geral, não navega entre pagodes e sambas. Não é um mar de rosas. Juiz (a) e desembargador (a) são homens e mulheres, não arcanjos. O discurso de Jomar, humano e sensível, afastou de um Teatro Amazonas, em silêncio obsequioso, por aqueles momentos mágicos, qualquer traço da famosa juizite, cuja máxima é a de que “o juiz acha que é Deus e o desembargador tem certeza”.

Foi, afinal, uma posse sem discurso do empossado. A plateia ouviu poesia, em forma de narrativa, com a arte da vida ecoando em seu templo, o Teatro Amazonas.

Parabéns, Caboco Jomar.

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