
O centro é decisivo, em meio à radicalização entre adeptos de Lula e Bolsonaro
O Brasil vive inacreditável momento de polarização entre os ditos de esquerda e os ditos de direita. Aos mais radicais só interessa a famosa máxima do ex-ministro Rubens Ricúpero: “O que é bom a gente fatura e o que é ruim a gente esconde”. Em momentos assim, que a história coleciona aos montes, o desenvolvimento, maior interesse público de um Brasil desestruturado, vai para baixo do tapete. É aí que o centro – ou os não-radicais – se torna fundamental.
Os dados são claros. Lula estava preso em Curitiba, acossado pela Lava Jato. Indicou Fernando Haddad para presidente e este obteve 29,28% dos votos, contra 46,03% de Jair Bolsonaro, no 1º Turno de 2018.
Bolsonaro, apesar de ter trabalhado diariamente para afastar o Centro, perdeu por apenas 0,9% para Lula, em 2022.
A polarização, neste momento, aponta ligeira vantagem para o ocupante do Palácio do Planalto. Mas Bolsonaro, refugiado nos EUA, em plena vigília em frente aos quartéis, mantém Manaus como reduto eleitoral.
O quadro se torna mais claro recorrendo a Margaret Tatcher: “Não existe dinheiro público, existe apenas dinheiro de quem paga impostos” (“There is no such thing as public money, there is only the taxpayer money”). Ou seja, o eleitor vota para indicar quem vai cuidar do dinheiro que ele tira do supermercado e do transporte para entregar ao governo. A coloração política desse gestor é irrelevante, diante da capacidade administrativa exigida para o cargo.
Sob esse aspecto, o da governança do dinheiro de todos, no caso da Prefeitura de Manaus, significa orçamento superior a R$ 9 bilhões/ano. Como diria o falecido Amazonino Mendes “é muito dinheiro, caboco”.
A filosofia do pagamento de impostos é bem simples. Todos precisam contribuir para melhorar as condições de vida em comum. Asfalto, saneamento básico, água potável, saúde, educação, esportes, segurança, tudo está contemplado nesse espectro.
Manaus tem um gargalo evidente, a título de exemplo, no transporte coletivo. O sujeito sai da Zona Leste para se divertir na única praia que subsiste no rio Negro durante a enchente, a Ponta Negra. Leva duas horas para ir e duas para voltar porque faltam ônibus. Mas se a Prefeitura aumentar o número de carros nas linhas isso vai engarrafar o trânsito. É preciso manter um “limite extremo”. Isso significa que o ilustre eleitor precisa esperar mais de uma hora nas paradas, amontoando passageiros, e viajar a maior parte do trajeto em pé.
A saída para o transporte de Manaus – a única – é a construção de metrô. Londres, que fez o primeiro do mundo, tinha menos de 1 milhão de habitantes no início da construção. A capital dos amazonenses, com 2,5 milhões de moradores, não tem nenhum candidato à gerência do dinheiro público falando nisso.
Por que nenhum candidato aborda a construção de metrô? Porque é obra para 10, 15, 20 anos. Terá que ser feita em etapas. Em quatro anos, um prefeito precisará tocar o projeto. O sucessor (ou ele mesmo, se reeleito) fará duas ou três estações. O seguinte, num horizonte de 12 anos, fechará o anel Cidade Nova-Centro e iniciará (reeleito) o que ruma do Centro à Zona Leste.
Como ninguém quer iniciar uma obra coletiva, cuja inauguração vai além do próprio umbigo, Manaus continuará construindo gargalos no trânsito. Como se observa, muito claramente, no cruzamento da Avenida das Torres com a Alameda Cosme Ferreira, no Coroado, e na Ponta Negra – que já virou uma viagem de hora e meia, do Vieiralves até lá, na hora do rush, e continua recebendo mais e mais condomínios.
A eleição para prefeito ocorre, então, sem propostas. É a hora dos candidatos arregimentarem partidos e aliados. Isso, pragmaticamente, é bem mais decisivo, no afogadilho da disputa. O perigo é que, cheio de gente pedindo voto do lado, o eleitor esqueça que está entregando o próprio dinheiro ao futuro gestor. E de cobrar propostas.
Manaus é um gargalo. Se o centro não reagir, continuará sendo.