
Festival, organização e Finanças trouxeram para a arena do Bumbódromo resultados como esse, o tombamento de alegoria do Garantido
Organização, gerenciamento das finanças e habilidade política entraram na arena, este ano, no 56º Festival Folclórico de Parintins. No julgamento dos jurados, o Caprichoso venceu por apenas 0,2, mas ficou patente na arena que gastou melhor o dinheiro recebido. O presidente do Garantido, Antônio Andrade, e sua diretoria terão que explicar onde meteram os R$ 14,6 milhões recebidos pelo bumbá, mesmo valor do adversário. Até porque, se a diferença na pontuação que deu vitória ao azul e branco foi uma mixaria, os valores entregues a ambos são simplesmente o recorde de todos os festivais.
Andrade revelou que não pretendia publicar a carta de pires na mão, que teve repercussão bombástica e levou ao afastamento dele. O documento seria destinado apenas ao secretário estadual de Cultura, Marcos Apolo, e ao governador Wilson Lima. O Governo, no entanto, condicionou qualquer ajuda extra ao afastamento do presidente. Ele pedia R$ 2,5 milhões. Foram liberados R$ 1 milhão para cada bumbá.
A correria para “salvar” o Garantido teve momentos de tensão no Caprichoso. O prefeito Bi Garcia antecipou a liberação do recurso que a Prefeitura repassa aos bumbás, relativo à arrecadação extra no período do Festival. Os valores, R$ 170 mil, foram solicitados como socorro para o pagamento do som do bumbá. Andrade revelou a ajuda em entrevista e provocou uma corrida do azul e branco pelo mesmo valor, em nome da isonomia entre os bumbás, que é obrigatória. O prefeito estava preparado e repassou de imediato a parte do outro bumbá.
A agonia do vermelho e branco levou torcedores que há muito tempo não iam ao curral a se apresentar e oferecer ajuda. A alimentação nos galpões foi suprida por essa via. Os artistas, porém, com parcelas do que havia sido acertado atrasadas, soldaram as portas para impedir saída de alegorias. O responsável pelas cabeças da Batucada se negou a entregar o material, até receber.
O tempo urgia, os problemas não foram todos resolvidos e acabaram entrando na arena. Na primeira noite, os cabos da alegoria em que se apresentava a Rainha do Folclore, Edilene Tavares, se romperam com ela e foram segurá-la, milagrosamente, a centímetros do chão. O sutiã da cunhã-poranga Isabelle Nogueira se desprendeu e ela teve que desfilar, visivelmente constrangida, com os seios de fora. Na segunda noite, outra alegoria se desmanchou e foi ao chão, durante a apresentação.
No quesito alegoria, na primeira noite, o Garantido chegou a ser vexatório. Depois de quase duas décadas, o bumbá voltou a apresentar itens em alegorias de um bloco só. A solidão e a pobreza desses artefatos, na imensidão da arena do Bumbódromo, foram um duro golpe no torcedor. Mesmo nas noites seguintes, com raras exceções, a falta do acabamento esmerado, que caracteriza os artistas parintinenses, saltou aos olhos.
O reflexo desses problemas na nota desnuda a razão da diminuta diferença no resultado da competição. Os jurados, com o descarte, retiraram apenas 0,2 no item alegoria, na primeira noite. A jurada Marysette P. Alves de Oliveira deu nota 10 para o Garantido, na dita primeira noite, apesar das falhas. A mesma diferença foi atribuída na segunda e na terceira noites.
O apresentador Israel Paulaim e a torcida do Garantido carregaram o bumbá nas costas. Ele viveu um daqueles momentos em que o item é obrigado a levantar o piano e não deixar a peteca cair. Os itens individuais do vermelho e branco, em geral, deram o máximo. Edilene e Isabelle continuaram dançando, apesar dos sustos, com mais garra ainda.
Antonio Andrade conseguiu dar a volta por cima, ano passado, demitindo todos os membros da Direção Geral de Espetáculos (DGE). Da penca de levantadores, Sebastião Jr, David Assayag e Edilson Santana pediram demissão. Este ano, ele próprio assumiu a comissão de artes e não tem mais como terceirizar o fracasso.
O Garantido, segundo o presidente afastado, gastou no ano passado R$ 8,5 milhões. E este ano, para onde foram os R$ 14,6 milhões que recebeu? As autoridades, com tanto dinheiro público envolvido, não podem fazer vistas grossas. É hora de cobrar e punir.
Jender Lobato deixa a diretoria do Caprichoso com dois títulos e uma gestão muito elogiada.
O resultado deste ano, com essa diferença mixuruca, periga se transformar em péssimo exemplo para o futuro do Festival de Parintins. Um bumbá some com o dinheiro público e ainda assim “raspa” o sucesso e chega muito perto da vitória. Ano passado foi do mesmo jeito, a ponto de Andrade dizer, candidamente, que “sem os descartes o Garantido teria vencido”.
Doravante, já que não adianta contar com os jurados, os próprios bumbás deveriam acrescentar um artigo aos seus estatutos: qualquer dívida remanescente, ao fim dos mandatos, será repassada ao CPF do presidente. E revogam-se as disposições em contrário. Ponto final.