
Lula e Maduro se esse encontro ocorresse durante a campanha eleitoral do ano passado, mexeria no 0,9% de diferença do resultado final? Contra ou a favor?
O presidente Lula recebeu em Brasília, nesta segunda (30/05), o chefe de Estado da Venezuela, Nicolas Maduro. Os dois participam, hoje (31/05), de um encontro de líderes das Américas.
Lula adotou o tom, em relação à ditadura de Maduro, daquela mãe que vê o filho no pelotão, marchando, e exclama para as amigas: “Viram como todos estão com o passo errado e só o meu filho está certo?”. Com efeito, o presidente criticou o resto do mundo, que não aceita a supressão de direitos humanos, nem o sufocamento de opositores promovidos por Maduro.
O presidente, eleito para falar pelos brasileiros, disse que há “uma narrativa” internacional estigmatizando o presidente vizinho. Oferecendo pompa e circunstância à visita, apesar da presença de outros presidentes do continente, Lula condenou o bloqueio econômico como “pior do que guerra”.
Ações internacionais têm repercussões sérias nos relacionamentos entre países. O bloqueio econômico à Venezuela, por exemplo, é comandado pelos Estados Unidos. O governo dos EUA chegou a taxar Maduro de “narcoterrorista”, além de emitir mandados de prisão contra ele.
É em solo brasileiro, no entanto, que o presidente encontra evidências do erro no tratamento oferecido ao colega venezuelano.
O que dirão, por exemplo, os macuxis, os brasileiros de Roraima? Foram eles, afinal, que receberam no peito a repercussão mais direta do descalabro promovido por Maduro. Boa Vista, cidade pacata, índice de violência baixíssimo, ruas largas e trânsito dos sonhos, mudou do vinho para a água. Mais que dobrou de população. Ganhou favelas. Falando espanhol, tanto quanto português ou mais, a capital roraimense se transformou num dos locais mais problemáticos do País.
Na véspera do Dia das Mães, este portal presenciou o abraço cheio de lágrimas de mãe e filha, num estacionamento de supermercado. Era um reencontro de venezuelanas, separadas por, no mínimo dos mínimos, a incompetência administrativa de Nicolas Maduro.
Lula tem deveres para com o Brasil. Iniciou a gestão atual dando de ombros ao mercado, em meio a medidas polêmicas, afirmando que a reação seria a mesma, fizesse o que fizesse.
Virar o rosto e romper relações, como fez Jair Bolsonaro, atraindo a torrente migratória, sem canais de diálogo com a origem, não é o mais sábio a fazer. Apoiar um país vizinho em crise, social, econômica e politicamente, não teria nada de errado, não fosse o apoio à ditadura, emprestado incondicionalmente.
Espera-se, no entanto, do presidente, eleito em coalizão democrática, que se rebelou, diante de sinais ditatoriais do antecessor, o mínimo de compromisso com a Democracia.
Maduro está no poder desde março de 2013. São mais de dez anos de descalabro, caos, incompetência, intolerância. A última reeleição, em 2018, foi marcada por abstenção colossal. Há eleições previstas para o ano que vem, 2024, mas é difícil apostar um centavo na alternância no posto deixado por Hugo Chávez.
O Brasil assistiu, pasmo, a efusividade de Lula diante da visita. Maduro, por incrível que pareça, se mostrou bem mais comedido.
Os brasileiros de Manaus não suportam mais a barra de olhar nos olhos das mães venezuelanas nos semáforos, com pencas de filhos nos braços. O jeito é torcer para que haja lucidez interna no governo. No mínimo para conter o presidente, nos moldes do que se fazia após as bobagens do cercadinho, que, na maioria das vezes, assessores conseguiam parar. Oxalá ainda seja possível, agora que a farofa foi jogada no ventilador das relações internacionais.
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