14/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

As cotas da UEA e a educação real no mundo atual

Publicado em 27 de abril, 2023

As cotas da UEA

As cotas da UEA permitiram a formatura de 68 indígenas e não-indígenas na longínqua São Gabriel da Cachoeira (foto)

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a destinação de 80% das vagas da UEA aos estudantes amazonenses é ilegal. Essa política de cotas se consolida pela exigência de que esse percentual seja preenchido por quem cursou os três anos do Ensino Médio no Estado. O tribunal entendeu que, em outras palavras, tal sistema fere a isonomia federativa, um princípio constitucional.

As cotas promoveram uma pequena revolução no interior do Amazonas.

A Universidade do Estado do Amazonas (UEA), no lugar de se restringir a Manaus, deitou ramificações nos Municípios interioranos. Na forma presencial ou online, os campi foram se espalhando e formando universitários.

O fato mais recente é a formatura de 68 profissionais, indígenas e não-indígenas, na distante e isolada São Gabriel da Cachoeira. São das áreas de Arqueologia (22), Gestão Ambiental (24) e Tecnologia de Alimentos (22). A solenidade foi segunda (24/04).

São Gabriel fica a 852 quilômetros de Manaus. Uma lancha rápida, subindo o rio Negro, leva muitos dias para chegar até lá. As balsas, encarregadas do abastecimento, passam semanas viajando. O Município é conhecido como “capital dos povos indígenas”. Abriga 23 etnias e é o único no Brasil com quatro idiomas oficiais, nheengatu (língua geral), tukano, baniwa e português.

Foi lá que a UEA meteu a colher e formou todos esses brasileiros. Numa população, estimada pelo IBGE, em pouco mais de 47 mil.

Os povos marubo, matis, matses e kanamari, etnias do Alto Solimões, no Vale do Javari, também passaram por esse processo de transformação.

A UEA, enfim, furou o olho dos cursinhos que aprovavam endinheirados nas poucas vagas destinadas ao Ensino Superior no Amazonas. Até a década de 1990, a Ufam fazia vestibulares, concorridíssimos, para apenas 1,5 mil vagas. Ou tinha dinheiro para cursinho ou era gênio.

A UEA admitiu, de 2015 até este ano, 2023, 18.772 alunos de escolas públicas do Amazonas, pelo sistema de cotas.

O STF julgou e bateu o martelo. As cotas deixaram de existir. Só resta tentar juntar o leite derramado. Mas o esforço vale a pena.

Faz tempo que a Educação formal perdeu o rumo. Bilhões de informações, como números, datas, estatísticas e fatos históricos, o terror secular dos estudantes, agora estão ao alcance da mão de qualquer criança.

As casas dos “cultos” tinham que ostentar nas paredes exemplares capa dura da Enciclopédia Barsa. O último ser humano a deter todo o conhecimento de sua época, dizem os livros de história, foi o filósofo Aristóteles, professor de Alexandre, O grande. Nem aquele cérebro privilegiado, no entanto, poderia competir com um Google ou uma Wikipedia.

A universidade de Harvard, uma das mais conceituadas do mundo, tem especialistas trabalhando para propor uma formação capaz de atender às necessidades do mundo atual. Ainda não concluiu o estudo, que já dura mais de uma década.

A UEA, enquanto isso, sem muito salamaleque e talvez até movida por algum espírito populista, atravessou os obstáculos na prática e ofereceu formação aos mais carentes.

O canudo é o baile de debutantes do mundo atual. É a porta de admissão às oportunidades mais privilegiadas da sociedade. O fim das cotas interrompe a música, justo na hora da dança, quando o Amazonas começa a colher os frutos do que foi plantado com tanto sacrifício.

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