04/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Amazonino Mendes

Publicado em 18 de fevereiro, 2023

Por Felix Valois

No domingo, quando soube da morte de Amazonino Mendes, passou-me pela mente, como em um filme, um dia do longínquo ano de 1964. O mês era abril e fazia pouco mais de trinta dias que havia sido dado o golpe que derrubou o presidente João Goulart e implantou a ditadura militar no país. Estávamos no velho prédio da Praça dos Remédios, aguardando o início de uma aula na Faculdade de Direito, por volta das quatro da tarde, quando em frente estaciona uma camionete do Exército. Dela desembarcam uns dez soldados, sob o comando de um oficial, entram na escola e, de lá, levam preso o Amazonino que, àquela altura, cursava a terceira série.

Era apenas mais um dos atos de arbitrariedade do novo governo, mas para nós, estudantes, de marcante significado porque tolhia a liberdade de um colega sem qualquer explicação ou justificativa plausível. Afinal de contas, o ideário defendido pelo movimento estudantil da época, se tinha conotação visivelmente esquerdista, não representava nenhuma ameaça real para o funcionamento do Estado.

Acontece que os militares tomaram ilegalmente o poder e se impuseram a missão de implantar, a qualquer custo, a doutrina da segurança nacional e, para fazê-lo, era imperativo cercear qualquer movimento que, de longe, pudesse lembrar o que eles, genericamente, chamavam de “comunismo”. Na verdade, ser “comunista” para os militares era apenas não pensar como eles e manifestar qualquer opinião que, mesmo por via transversa, pudesse representar contrariedade à tal doutrina da segurança.

O certo é que Amazonino foi preso e na prisão ficou por mais de noventa dias. Foi solto por absoluta falta de provas, mas, no cárcere, se mostrou firme e intransigente na defesa de seus pontos de vista, sem jamais chegar à vergonha da delação de seus companheiros de luta e ideal.

Amazonino era um dos melhores oradores políticos daqueles tempos anteriores à ditadura. Lembro-me de que ele e Álvaro Gaia Nina (infelizmente também já falecido) formavam dupla imbatível nos comícios e congressos de que participávamos. Com uma retórica vibrante e impecável dialética, as palavras de ambos eram como chicotes a vibrar contra as injustiças sociais e as iniquidades de um regime que se sustenta do suor e do sangue da maioria para benefício de minoria indiscutivelmente privilegiada.

Depois, Amazonino ingressou definitivamente na política partidária, onde se traduziu como um fenômeno de popularidade, bastando lembrar, para confirmação da assertiva, o número de vezes em que foi eleito prefeito de Manaus e governador do Estado, além da passagem pelo senado da República.

Jamais traiu suas origens e seus mandatos sempre tiveram o timbre da preocupação com os mais humildes, mormente no que diz respeito à política educacional e cultural. A criação do bumbódromo em Parintins é um atestado do que se afirma e, mais transcendente, a completa restauração do Teatro Amazonas, que voltou a figurar como uma das casas de ópera mais importantes do mundo.

É impossível, porém, deixar de reconhecer que a implantação da Universidade do Estado do Amazonas foi a obra prima dos governos de Amazonino, a traduzir, como já bem o frisaram os professores Ademir Ramos e Lourenço Braga, o compromisso do governante com uma juventude ávida de conhecimentos. Com ela, expandiram-se as perspectivas de milhares de jovens amazonenses, principalmente os que vivem em nosso interior.

Em termos pessoais, minha família e eu temos um dever de eterna gratidão a Amazonino, em razão do que ele fez em favor da recuperação de meu filho Alfredo, vítima de brutal acidente. Tratou-se e recuperou-se em São Paulo, graças à ajuda do então governador.

Ontem, fui-lhe ao velório. Repassei, então, o tempo em que servi como Secretário de Justiça. E de tudo o que passou, da época estudantil à governança, ficou-me a certeza de que estava diante do corpo de um amazonense ilustre por todos aspectos. Humano e justo.

Adeus, velho companheiro. Muito obrigado por tudo, Amazonino Armando Mendes.

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.