
Amazonino e Coca-Cola têm uma longa história, mas tudo indica que a história da empresa com o Amazonas não termina agora
O ex-governador Amazonino Mendes, pré-candidato ao Governo do Amazonas, divulgou vídeo em que afirma, textualmente: “Notícias recentes, extremamente preocupantes, procedentes de fontes fidedignas, nos dão conta de que a Coca-Cola Brasil vai embora”. A saída da empresa da Zona Franca de Manaus (ZFM) seria a pá de cal no Polo de Concentrados. Ou seja, o fim de cerca de 7 mil empregos diretos. O portal ouviu uma fonte ligada à empresa, que não quis se identificar: “Isso é muito grave. Passa por Atlanta (EUA, sede internacional) e, antes de chegar lá, há muita coisa para acontecer. Não creio”, disse. O panavueiro foi em frente e explica mais, para você formar sua própria opinião.
O presidente Jair Bolsonaro emitiu o Decreto 11.058, que zera o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) da indústria de concentrados. O IPI é o principal atrativo de indústrias como a Coca-Cola. Depois, em outro Decreto, aumentou a redução do IPI geral de 25% para 35%. São dois duros golpes.
É preciso entender: indústrias incentivadas pela ZFM não pagam IPI. Quanto maior o IPI nacional, mais as concorrentes fora do Amazonas pagam. E as empresas locais podem tirar diferenças, como a do frete mais caro por falta de estradas ligando o Estado ao resto do País.
A fonte do portal afirma que o Decreto que, supostamente, aniquila o Polo de Concentrados, ainda está em estudo. “É tudo muito confuso e cheio de detalhes”, disse. O departamento jurídico da Coca-Cola ainda não tem conclusão sobre os impactos na empresa.
A cúpula da Recofarma, a Coca-Cola Brasil, faz uma leitura política e contextual do decreto. “Ele (Bolsonaro) quer negociar, politicamente, com o Amazonas”. O problema é saber até onde a população entende esse processo e o quanto o presidente pode esticar essa corda.
Bolsonaro tem se mostrado vingativo. Mira seus alvos sem piedade e é seguido por uma legião de partidários. O ex-governador de São Paulo João Dória e os ex-ministros Sérgio Moro e Henrique Mandeta são exemplos claros. Os senadores Omar Aziz (PSD-AM) e Eduardo Braga (MDB-AM), além do deputado federal Marcelo Ramos (PSD-AM), são os inimigos amazonenses do presidente. Parece inacreditável, mas os decretos recentes têm os três como alvos sim.
O presidente da República, por outro lado, jogou na água o governador Wilson Lima e o pré-candidato ao Senado Alfredo Menezes. Os dois estão em vídeo, com Bolsonaro afirmando que ele vai resolver o problema da Zona Franca e até “ampliar as vantagens”. Isso um dia antes do descalabro dos dois decretos que ameaçam seriamente o Polo Industrial de Manaus (PIM).
O governador,, via das dúvidas, ajuizou duas ações contra os decretos no Supremo Tribunal Federal (STF).
A Pepsi-Cola, principal concorrente da Coca-Cola, não aguentou o vaivém federal e deixou o Amazonas, em 2018.
A Recofarma, ao se instalar em Manaus, trouxe para a Zona Franca 12 empresas que fornecem apenas para ela. São exclusivas. É o caso da Jaioro, situada no Município de Presidente Figueiredo. A multinacional pensará muito, antes de deixar esse cluster ao relento.
Amazonino faz campanha nas redes sociais. Precisa alimentá-las. Veja como encerra o vídeo no qual “anuncia” (ou “denuncia”) a saída da Coca-Cola: “Coitados de nós todos. Mas nos resta o que? Uma esperança. As eleições vêm aí.” Ao mesmo tempo em que se coloca, ele próprio, como “salvador da pátria”.
Bolsonaro tem uma visão enviesada da política e da administração pública. É preciso criatividade e até inventividade para entender as lógicas dele. Nesse caso específico, da Zona Franca, tudo indica que está mirando, além de Omar, Braga e Marcelo Ramos, os votos paulistas. Não esqueçamos, ele nasceu em São Paulo. É o Estado que mais combate, embora se beneficie da Zona Franca: a indústria amazonense produz, o comércio paulista vende para todo o Brasil, incluindo Manaus. Bolsonaro e Guedes? Caso de médicos que, para matar a doença, estão matando os doentes.
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