
As lições da pandemia precisam ser apropriadas pelos sobreviventes, até em memória das quase 3,5 milhões de vítimas. Foto: Divulgação
A pandemia de coronavírus, que ainda não terminou, deixa um terrível passivo de mortos e sequelados, físicos e mentais. São mais de 156 milhões de infectados, no planeta, com 3.256.034 óbitos, em números desta quarta (12/05). É como se tivesse perecido toda a população de Manaus e metade do interior amazonense. Ainda assim, o Armagedom ensinou novas formas de convivência humana, revelou fragilidades e, sobretudo, mostrou alternativas para a gestão pública. Colocar esse aprendizado em prática é obrigação de todos, sobreviventes, até para honrar esses milhões que tombaram.
As contas ainda não estão fechadas. Mas, se tantos órgãos públicos transferiram o trabalho em seus prédios suntuosos para casa, qual foi a economia? Quanto todos deixaram de gastar em água, energia elétrica, telefone, limpeza, manutenção e equipamentos? Qual o tamanho da redução do gasto com horas extras?
Um conselho de especialistas da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), outro dia, fez a primeira reunião online da história. Com a evolução dos aplicativos (APP) que permitem reuniões na Internet, isso se tornou possível e até corriqueiro. Os conselheiros deixaram de perder pelo menos duas horas, para ir e voltar no trânsito. Os carros deles deixaram de contribuir nos engarrafamentos. Até os “caríssimos” cafezinho e água já podem entrar na conta da economia.
Trânsito, aliás, cujas soluções sempre demandam desapropriações e obras caras, com o recolhimento social ficou uma maravilha.
Processos virtuais, que ainda tinham gargalos e cujas ações diziam mais respeito a advogados e jurisdicionados, agora também são julgados de casa.
Presos perigosos, que impõem terror a magistrados e demandam escoltas pesadas para comparecer às audiências, são ouvidos da cadeia. Isso, embora já fosse prerrogativa iniciada antes da Covid-19, foi executado na prática e mostrou total viabilidade.
Líderes do e-commerce, que acumulam bilhões em lucros, pela primeira vez foram incomodados pela lojinha da esquina. A venda de produtos em plataformas virtuais usou da mais simples mídia social até sofisticados – e novos – sites.
Haverá sabedoria entre os humanos para reduzir os megas e luxuosos prédios públicos a espaços menores, mais racionais, onde atuem apenas funcionários realmente essenciais?
Outra pergunta que não quer calar: quanto foi a economia, dado o enorme avanço da inteligência artificial, do poder público com pessoal? Um computador responde a perguntas e soluciona inúmeros problemas pelo telefone. Basta ver Alexa (Amazon), Siri (Apple), Bia (Bradesco), Aura (Vivo) e muitas outras.
Tudo isso precisa ser apropriado pelos gestores. Afinal, em tempos de queda nos PIBs, é preciso reduzir custeio para aumentar o investimento.
A Feira da Manaus Moderna, herança dos tempos em que o gestor fazia as cacas e ninguém discutia, recebe maromba nos anos de cheia grande, como agora. Maromba é o último recurso de ribeirinhos despossuídos, em nome da sobrevivência. Não cabe no ambiente que é o principal fornecedor de alimentos da Capital da Zona Franca. Mas de onde virá o dinheiro para novo prédio, com piso levantado e capaz de enfrentar a subida das águas? A pandemia pode ter oferecido boa parte da resposta.
PS: O funcionalismo público não é, de forma alguma, vilão nessa história. Cada cargo obtido por concurso é mérito. Ponto final. O que se discute é o emprego do dinheiro economizado com os extras cortados. E, com o fim da pandemia e dos auxílios emergenciais, a possibilidade de manter práticas austeras, para sobrar mais dinheiro no combate à fome e à miséria.