
Na guerra como na guerra. Todos contra o coronavírus, o inimigo invisível e letal
As bombas caem a todo momento. Aos milhares, milhões, bilhões… Ninguém sequer consegue saber. O inimigo é invisível. Visíveis são familiares e amigos que se vão e, entre consternação e saudade, deixam a certeza de que estamos na linha de tiro.
A frase de Carl Von Clausewitz, o implacável ideólogo de Hitler, parecia distante. Agora, mais até que naquela Londres esburacada pelas V-8 do Führer, as bombas que deram origem à aviação moderna, a humanidade luta pela vida. Na guerra contra o coronavírus, diferente da guerra tradicional, não há quartel e líderes à altura do combate são exigidos a todo momento.
As bombas caem, vindas de todas as direções, penetrando em cada desvão, e, no meio da batalha, um e outro indaga pelo próprio umbigo.
Em Parintins, em tempos idos, houve uma inexplicável crise de farinha. Isso mesmo: faltou farinha de mandioca nos mercados e mercearias.
Restava, de vez em quando, um arremedo inaceitável, para a ilha tradicionalista, branca, fina, moída, logo apelidada de “farinha surui”. Quando chegava um carregamento da farinha tradicional, a baguda, do jeito que o caboclo gosta, a correria era grande. Os compradores adquiriam o produto no grito, na beira do barco ou canoa.
Quase ninguém conseguia um paneiro inteiro. O cesto forrado de folhas, que mantinha a farinha fresquinha e até crocante, hoje é raro. Naquele tempo era o único modo usado para transportar o produto. Na crise, só era vendido fracionado.
Quando chegava às casas, mais ainda, o paneiro virava frasco, litro ou xícara. O importante era que logo estava repartido com os vizinhos.
Tempo em que a máxima era “farinha pouca, um pouco do meu pirão para todos”. Hoje impera inacreditável “farinha pouca, meu pirão primeiro”.
O pior da pandemia vai se tornando, de longe, a miséria humana. Mas há exceções que precisam ser destacadas.
Maduro, o ditador da Venezuela, mandou oxigênio. Todos os governadores abriram mão de 5% das vacinas que receberiam, em favor do Amazonas. João Dória doou 50 mil doses. O presidente da Eletros, amazonense José Jorge do Nascimento Jr., desistiu do sono até conseguir a fantástica doação de 300 mil metros cúbicos de oxigênio.
É preciso parênteses aqui. A sensibilidade da doadora recorde de oxigênio, a executiva da Aço Verde Brasil (AVB), Sílvia Nascimento, foi emocionante. Uma boa ação não pode ser dimensionada pelo volume ou valor da doação. Não esqueçamos da pobre viúva que deixou uma moeda, tudo que tinha, no gazofilácio do templo, e Jesus disse que foi a maior das ofertas. Aplausos para os 150 cilindros de Gusttavo Lima e o outro tanto de Whindersson Nascimento e Tirulipa. Sílvia Nascimento, entretanto, doou 28 mil cilindros, o equivalente a 300 mil metros cúbicos de oxigênio.
A opinião pública ficou meio baratinada com as notícias de doações de oxigênio. Como se o número de doadores cobrisse a demanda.
Desde 14 de janeiro, fatídico momento em que explodiu a crise de oxigênio na rede hospitalar do Amazonas, todo dia virou uma guerra. Houve mortes por falta do produto. Na capital e no interior. O consumo pulou de 15 mil metros cúbicos (m3), no auge da primeira onda, para 76,5 mil m3 e depois para 83 mil m3 agora.
Os 28 mil cilindros doados por Sílvia Nascimento, para se ter ideia, abasteceram menos de quatro dias. Os 150 cilindros de Gusttavo Lima, com 10m3 cada, cobriram pouco mais de meia hora.
Uma vida salva, uma só, e todo esforço terá valido a pena. Aplausos a todos os que contribuíram. Anônimos ou famosos. Empresas do Polo Industrial de Manaus (PIM) ou não.
A lógica impunha a presença de todos na frente de batalha. Como aquela moradora dos arredores do 28 de Agosto, que ofereceu a própria casa para quem precisasse tomar banho e trocar de roupa. Ou os profissionais de saúde que passaram a dormir poucas horas, abandonaram consultórios particulares e mergulharam nos sofridos plantões da crise.
Na guerra como na guerra, dizia Clausewitz. Dispa-se. A guerra não terminou.