
A crise dos bumbás ameaça o brilho da maior festa folclórica da Amazônia
Os bumbás de Parintins, Caprichoso e Garantido, estão em crise profunda. O Garantido perdeu o patrimônio mais valioso e o Caprichoso luta para escapar de leilão do curral e escola de arte. A situação é tão calamitosa que tudo o que foi adquirido com sangue, suor e lágrimas, por gerações de parintinenses, está em risco. No meio disso, o Garantido faz uma eleição que pode se tornar encarniçada, inviabilizando a união futura, único caminho para escapar desse estado de coisas.
A coisa é mais séria do que parece. É discriminatório imaginar soluções paliativas, que resolvem os problemas dos próprios bumbás e não fortalecem as raízes da festa. O Festival Folclórico é a festa que traz um dinheirinho muito esperado para tricicleiros, mototaxistas, taxistas, donos de quartos do cama e café da manhã, churrasquinhos, vendedores ambulantes em geral e toda uma gigantesca estrutura. É cruel com essa gente qualquer agressão à festa. O glamour do Bumbódromo é só o corolário de um evento com enorme repercussão social.
Parintins é um Município polo. Diferente. Para ele acorrem as populações de Nhamundá, Urucará, Barreirinha, Boa Vista do Ramos, Maués e até Urucurituba, assim como das cidades paraenses de Faro, Terra Santa, Juruti Novo e Juruti Velho.
Esse povo tem um modo de vida peculiar. A economia do Festival de Parintins irriga grande parte. Deixá-lo definhar é cruel com o caboclo, do humilde ribeirinho ao morador da periferia da segunda cidade mais populosa do Amazonas.
Só resta uma saída, que testa o tal “amor fanático” ou “amor incondicional”, das partes envolvidas: todos renunciam à disputa e formam, em conjunto, um comando para dirigir os bumbás. É a única forma de evitar a tutela, a dependências das autoridades institucionais. Depois, com o comando fortalecido, elas serão procuradas e cobradas, mas de cabeça erguida e não com pires na mão. A própria diretoria da Samel, conforme o presidente Luís Alberto Nicolau e o vice Rogério Ozores, está disposta a ajudar.
No Garantido, a coisa parece muito clara. O presidente atual, Fábio Cardoso, advogado, que sabe melhor que ninguém a situação em que o bumbá se encontra, renunciaria aos poucos dias que lhe restam de mandato. Antes, nomearia a direção colegiada, com os candidatos a presidente já postos na disputa.
No Caprichoso, o presidente Jender Lobato, ainda com bastante tempo de mandato, comporia a direção colegiada. Chamaria os ex-presidentes que compraram patrimônio para o bumbá, como Dodozinho Carvalho e Joilto Azedo, mais outros nomes veneráveis, como Rai Viana. E torcedores realmente comprometidos em recuperar o boi, como o fiscal da Sefaz aposentado Fernando Marinho, cuja conduta ilibada é incontestável.
O que fariam essas diretorias colegiadas? Arregaçar as mangas para:
1) estabelecer conexões entre si, colocando o fanatismo de lado, para tomar decisões sustentáveis e coletivas.
2) colocar os pingos nos “is”, apontando quem provocou as dívidas, sem caça às bruxas, mas com a mais absoluta transparência;
3) promover acordos trabalhistas factíveis, já que as dívidas desse departamento são as piores;
4) estabelecer um orçamento, aplicando 50% das receitas possíveis na preparação do chamado “boi de arena” e 50% no pagamento de dívidas. Os bumbás ficariam menores e com menos brilho? Só pensaria assim quem não conhecesse o talento do artista parintinense.
Todos conhecem alguém que não vai ao médico porque “não quer saber de doença” e temendo o “quem procura acha”. Essa ideia faz a pessoa cair dura, de uma hora para outra, por algo que poderia ter curado. O primeiro passo, portanto, é que os bumbás reconheçam o estado de calamidade em que se encontram.
O Grupo Samel, que adquiriu o patrimônio do Garantido em leilão, se compromete a devolvê-lo pelo mesmo preço. Avisa também que, enquanto o bumbá não conseguir o dinheiro, não cobrará aluguel pelas instalações.
A postura do Grupo Samel é elogiável. Mas o Garantido não pode perder de vista o que houve: o patrimônio, que vale R$ 3,5 milhões, foi perdido, com força judicial, por R$ 1,3 milhão. Qualquer empresa que fizesse um negócio desses fecharia as portas. Estava falida. E o Caprichoso sabe que pode viver o “efeito Orloff”, aquele do “eu sou você amanhã”.
É hora de união. Onde está o orgulho e a fibra parintinenses? Aquele que saiu de batucada e marujada feitas com tambores de lata para uma festa internacional? Cadê o respeito pelas memórias de nossos pais, irmãos e demais parentes?
Ecoam longe as ameaças do empresário Francisco Vasconcelos, o Chiquinho, dizendo que “tem muito dinheiro e não perde o próximo leilão”. Teria ficado furioso porque perdeu o patrimônio do Garantido para o Grupo Samel.
Alguém que vive do dinheiro do povo parintinense, caso de Chiquinho, não pode ser inimigo desse mesmo povo. Dizem que, quando ganhou o outro curral do Garantido, entrou com máquinas para “limpar tudo” e chegou a quebrar alegorias. Agora estava com equipe e máquinas prontas para raspar o terreno da Cidade Garantido e dizimar o Festival Folclórico de Parintins pela raiz.
Quem é Chiquinho? Empresário de postos de gasolina. Mas a margem de lucro desses estabelecimentos não é mínima? Como é que circulam relatos de que ele tem “salas cheias de dinheiro”? De onde vem a grana para peitar Parintins inteira e provocar tanto pavor?
Esse e outros precisam ser enfrentados. Corajosa e decididamente. Parintins não se curva. A vida termina, mas, caso algo não seja feito, a história levará pela eternidade o relato do fracasso desta geração.
Aliança. União. Amor por hoje, ontem e amanhã. Garantido e Caprichoso precisam sobreviver. Egoísmos e egocentrismos políticos não podem continuar sufocando as soluções. Chegou a hora de ver quem gosta desse boi de verdade. E quem está apenas querendo, cinicamente, se aproveitar do suor de tantas gerações.
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