
O legado de Benedito Azedo (esquerda), na foto com o prefeito Bi Garcia (centro) e o artista Jair Mendes (direita)
Bené, como é conhecido o jornalista, advogado, ex-prefeito de Parintins e procurador do Estado aposentado Benedito Azedo, está lutando pela vida. Internado sexta-feira (24/07), com uma queda de glicose, melhorou segunda e hoje piorou. Está na clínica Check-Up. Amigos e familiares se mostram muito preocupados. Bené é muito querido.
Bené foi prefeito no período de 1973 a 1977, chegando ao cargo aos 38 anos. Aos 81, por indicação do amigo de 40 anos Serafim Corrêa, recebeu a Medalha do Mérito Legislativo da Aleam. Aos 86 anos, lutando contra um câncer, ele vinha perdendo rapidamente a memória. Exceto para os velhos amigos e pessoas queridas de Parintins.
Benedito de Jesus Azedo sucedeu o primo, Gláucio Gonçalves, e antecedeu Raimundo Reis, o Xibiu. Gláucio, falecido em 2014, era filho de Pedro Ferreira e Nazaré Bentes Gonçalves. Dona Nazaré era irmã da mãe de Benedito, dona Suzana Azedo, hoje nome de escola no bairro de Palmares. O pai de Bené foi Joaquim Prestes Azedo, comerciante muito conhecido, da travessa Rio Branco, em Parintins.
O ex-prefeito teve vários gestos de grandeza, na vida pública. O maior deles foi, sem dúvida, abdicar totalmente da possibilidade de concorrer novamente à Prefeitura. “Dei minha contribuição”, dizia. Mas foram muitos outros gestos.
O bairro de Palmares, por exemplo, chamado de “Cohab-AM de Palha” (parintinense pronuncia Cohabam de Palha, tudo junto), no princípio, surgiu numa iniciativa arrojada dele. O Município foi assolado por grande enchente. A população rural, ribeirinha, correu para a cidade, deixando para trás todo um estilo de vida. A Prefeitura não tinha como socorrer tanta gente e Bené decidiu inovar: no lugar de telha e tijolos recorreu aos regionais tábua e palha, construindo habitações do dia para a noite, abrigando a maioria.
Como ficou a questão fundiária? Não dava tempo para vencer a burocracia e o prefeito conversou com os proprietários das terras. Ficou tudo na base do boca-a-boca e no “depois a gente acerta, vamos socorrer nossa gente”. Advogado, cioso da legalidade, Bené sabia das implicações do gesto e arriscou tudo para atender à calamidade.
Capítulo à parte foi o investimento que fez no esporte.
Benedito Azedo entendeu com profundidade a importância do esporte na educação de base. Era o tempo do Projeto Rondon e Parintins tinha um Campus Avançado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Prefeitura e UERJ fizeram um acordo, acertando acomodação e manutenção das equipes. A FAB providenciava o transporte. A universidade tinha um dos cursos mais procurados de Educação Física do Brasil, onde abrigava os grandes atletas da atualidade, aposentados ou em vias de aposentadoria.
Desembarcaram em Parintins os campeões sul-americanos de ginástica olímpica (barras e solo) e ginástica rítmica, ex-jogadores de vôlei, handebol, atletismo, basquete e até um ex-jogador de futebol. Sem contar, claro, com o professor e coordenador da turma, Ceuby Rodrigues, ex-campeão sul-americano de 110 metros com barreiras.
Era o tempo da Superintendência de Educação Física e Desporto do Estado do Amazonas (Sedam), sob o comando de Roberto Gesta de Melo. Bené e Gesta logo fizeram dobradinha. Desceram em Parintins Geraldo Teixeira, técnico que chegou a comandar a seleção brasileira da modalidade. Foram também Thales Verçosa e Antônio Lasmar, do vôlei. Walmir Alencar, que também integrou seleção brasileira, e Almir Liberato, ministraram handebol.
O resultado forjou o caráter de uma geração parintinense das mais valorosas. Foi o desabrochar e disseminar da prática esportiva pela cidade.
Bené fundou a Comissão Central de Esportes (CCE) e chamou para lá o desportista Terêncio Fernandes. A casa ficava aberta o dia inteiro e, a todo momento, algum esporte estava sendo praticado. Não havia limites para a compra de equipamentos.
Uma ideia de cenário? Elias Moura, técnico da seleção de voleibol de Parintins, participou de um curso com Yasutaka Matsudaira, técnico medalha de ouro pelo Japão, na Olimpíada de 1972. Uma lenda. Voltou com todas aquelas ideias na cabeça. E logo estava com o equipamento de treino também. Ou seja, o time de Parintins, que chegou à medalha de bronze nos Jogos Estudantis do Amazonas, treinava com método e equipamento da melhor escola de vôlei do mundo. Perdeu para a Escola Técnica de Paulo Avelino e o Christus de Álvaro e Edvard, todos da seleção brasileira da modalidade.
Maria Nilba dos Reis Fernandes virou, por essa via, tricampeã sul-americana de arremesso de peso (1981, 1983, 1985). Ela manteve, por muitos anos, o recorde sul-americano da prova.
Não é à toa que o prefeito atual de Parintins, Bi Garcia, ofereceu o nome de Benedito Azedo ao complexo cultural e esportivo da cidade.
“Nunca teve uma postura arrogante”, lembra o primo e amigo João Pedro Gonçalves, ex-senador pelo Amazonas.
Arrogante? Bené é a própria simplicidade. Fazia questão de manter, apesar de ser da elite política e intelectual da ilha, o sotaque caboclo. Ficava orgulhoso quando alguém, por não conhecê-lo, o confundia com “a cabocada”, como dizia. Passeava e andava para o pouco caso, às gargalhadas.
Aposentado, retirado para os amigos e familiares mais íntimos, fazia questão de cultivar as amizades. E se movia nas sombras, conversando com um e outro, chegando até governadores, na defesa de Parintins. Disso fazia questão que só soubesse quem fosse inevitável.
O deputado estadual Serafim Corrêa o frequentava, assiduamente, e se divertia com as histórias parintinenses. O genro, Antônio Carlos, revela que, entre lágrimas, o sogro costumava repetir um pedido: “Quando morrer quero ser cremado e que minhas cinzas sejam jogadas no rio Amazonas, em frente a Parintins”.
Que assim seja. Mas que ainda demore muito, né Bené??.
Veja mais notícias em Opinião