27/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Bolsonaro versus governadores e prefeitos ou o artigo do general Mourão e a política em tempos de pandemia

Publicado em 14 de maio, 2020

Bolsonaro versus governadores e prefeitos

Bolsonaro versus governadores e prefeitos, mais o artigo do general Mourão, nesse momento do terror imposto pela pandemia. Foto: Arquivo

Luciana, jovem, três filhos, cheia de vida, contraiu o coronavírus. Foi para o hospital, lutou pela vida, mas não resistiu. Ela é mais uma das 13.149 vítimas brasileiras da pandemia de Covid-19, até 13/05. A morte é uma tragédia familiar que, progressivamente, enluta lares e mortifica a sensibilidade coletiva. A eleição de outubro, porém, parece se impor como elemento mais forte. É a materialização da muralha que separa o caos, nos centros de saúde, da prática da maioria dos políticos.

O presidente Bolsonaro entende que o melhor é praticar a “imunidade de grupo”. Significa que, com todos nas ruas, os tais 60% de infectados, ponto de declínio das pandemias, seriam atingidos mais rapidamente. A economia sairia da estagnação e o risco de quebradeira seria menor. Leia-se: a falta de quem pague impostos, ou seja, abasteça os cofres governamentais, estaria afastada.

Os defensores dizem que há outras implicações. Economia em crise, provocada pela falência governamental, significa falta de remédios, hospitais, segurança e até salário dos servidores.

Governadores e prefeitos, por outro lado, preferem o isolamento social, para achatar a curva e desafogar os sistemas de saúde. Com todos nas ruas, os números de infectados seriam exponenciais e o atendimento ficaria impossível. O Amazonas, mesmo com isolamento social, assistiu ao colapso dos hospitais e despertou a necessidade de socorro internacional. Hospitais, do Delphina Aziz ao 28 de Agosto, tornaram-se caóticos, obrigando muitos a preferir morrer em casa que procurá-los.

 

‘Imunidade de rebanho’

A “imunidade de rebanho”, aquela que não fecha nada e expõe a população ao contágio, está sendo praticada na Suécia. Mesmo lá, um país escandinavo, rico, com apenas 10 milhões de habitantes, não é unanimidade. A população, com nível sócio-econômico-educacional altíssimo, resolveu se auto isolar. Os transportes públicos quase não são usados. O próprio governo proibiu reuniões com mais de 50 pessoas. Nove em cada dez suecos mantêm distância regulamentar de um metro, um do outro. Há testes em profusão.

No Brasil há diferenças notórias. Numa comunidade rural do Careiro, um cacique proibiu os jogos de futebol, que continuavam diária e regularmente. Os moradores montaram partidas de vôlei, no quintal de uma das casas, como rebelde alternativa. Um dos residentes foi à sede municipal, sacar auxílio, e voltou contaminado. Agora não se sabe como será a reação da pandemia no local. É distante, isolado, tem apenas transporte individual e a assistência médica mais próxima está a horas.

O filme “O mestre dos gênios”, contando a história do editor Max Perkins e o escritor Thomas Wolfe, tem cenas que ilustram as diferenças entre os dois países. Suécia e Brasil estão, numa comparação rasa, como Wolfe estava para qualquer menino de hoje, com um computador na mão. O escritor produziu manuscritos que significaram 5 mil páginas datilografadas, no original de “Of Time and the River (1935)”. A publicação ocorreu dois anos após a revisão/redução de Perkins e o autor, com 912 páginas.

Na Suécia, o povo decidiu, espontaneamente, ficar em casa. No Brasil, apesar dos decretos de isolamento, a população está nas ruas. Numa conta matemática, segundo o jornal “O Estado de Minas”, o índice de mortos por habitantes, na Suécia, é quase sete vezes maior que o do Brasil.

A conclusão é que nunca se saberá quem tem razão, se governadores e prefeitos ou Bolsonaro. O maior problema, no entanto, é a forma como os dois lados estão conduzindo a batalha pela opinião pública. E o impacto que essa condução terá sobre as tragédias que a pandemia pode, está e continuará causando.

 

O artigo de Mourão

O vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, publicou artigo no jornal “O Estado de S. Paulo”, intitulado “Limites e responsabilidades”. Tem safanão para tudo quanto é lado, do STF ao Ministério Público, dos políticos aos juízes. E um dado sutil, um “efeito Gioconda” (aquele sorriso enigmático no canto da boca da Monalisa): “Não é só uma questão de saúde: por seu alcance sempre foi social; pelos seus efeitos, já se tornou econômica; e por suas consequências pode vir a ser de segurança”.

Segurança? Já há uma penca de analistas dizendo que o recado é: se a bagunça ficar muito grande haverá ruptura institucional.

Teorias da conspiração ou a ideologia superior das coisas, quando cada gesto é tido como parte de um plano maior, articulado, não combinam muito com Bolsonaro. Ele parece mais o boquirroto superprotetor dos filhos, que fala hoje o desmentido na prática por seu próprio governo amanhã.

Já os generais que estão ao seu redor, estes são estrategistas por natureza.

Resta à Nação vigiar o patriotismo, com amor e espírito crítico, de olho em resvaladas nacionalistas, berçários de ditaduras e aventuras totalitárias vergonhosas, como fascismo e nazismo.

Vigilância. Espírito público. Altruísmo. São o protocolo da Democracia, parafraseando o tal “Protocolo Médico” de combate à Covid-19.

Altruísmo? Que tal os políticos aproveitarem, já que estão todos em casa, para doar as verbas de gabinete para o combate à pandemia? Ninguém está gastando gasolina, telefone, ar-condicionado ou limpeza. E esse dinheiro, parado nos cofres do Legislativo, faz uma falta danada nos hospitais.

 

PS: O mais profundo lamento por Luciana. Que Deus dê ao viúvo, aos filhos, amigos e demais familiares consolo e forças para a luta que vem por aí. Que tenham o apoio necessário.

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