24/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Arrascaeta, para ver em vídeo ou em texto a epopéia flamenguista na final da Libertadores

Publicado em 27 de novembro, 2019

Arrascaeta

Arrascaeta saiu de cirurgia delicada para construir ópera de três tenores, com Bruno Henrique e Gabigol, na final da Libertadores

Esse texto resulta do vídeo abaixo. Se quiser, você poderá vê-lo:

 

A conquista da Libertadores da América pelo Flamengo, no sábado (23/11), foi épica. Torcedores de outros times dirão que foi sorte, mas, ok!, faz parte do jogo. Nenhum épico deixa de ter heróis e vilões ou a receita falha, o bolo sola. A repetição exaustiva dos gols da decisão deixou os detalhes mais nítidos. Arrascaeta, por exemplo, autor do primeiro gol do Flamengo, está lá no alto do panteão.

Giorgian Daniel De Arrascaeta Benedetti, 25, uruguaio de Nuevo Berlín, chegou ao Brasil em 2015. Foi contratado pelo Cruzeiro ao Defensor, de sua terra, após uma bela Libertadores. Foi bicampeão da Copa do Brasil (2017-2018), sobre Flamengo e Corinthians.

A contratação dele, pelo Flamengo, em janeiro deste ano, foi a mais cara do futebol brasileiro: R$ 63,7 milhões, até 2023. A cobrança, lógico, quase faz o craque naufragar nos primeiros jogos.

Arrascaeta foi se firmando e, contra o Ceará, no jogo de ida do Campeonato Brasileiro 2019, marcou um golaço de bicicleta. Vai concorrer ao Prêmio Puskas, da Fifa.

 

Cirurgias

No dia 4 de outubro, sexta-feira, uma sombra passou na carreira do jogador. Precisou recuperar o menisco do joelho esquerdo e o ligamento colateral medial.

Garrincha teve a carreira ceifada precocemente porque sofria “infiltrações” nos meniscos para suportar as dores. Essa era uma prática comum no futebol e usada à exaustão no Brasil.

Zico parou antes porque os ligamentos não resistiram às contusões seguidas, provocadas pela marcação duríssima, implacável.

Arrascaeta teve problemas no menisco e nos ligamentos, mas, demonstrando o avanço da Medicina, na segunda-feira seguinte iniciou fisioterapia.

 

Agora relembre o lance do primeiro gol do Flamengo.

Lucas Pratto tinha a bola dominada. Puxava o contra-ataque. Tenta o primeiro passe e Diego se atira para barrá-lo. Arrascaeta fica entre dois adversários, esperando a decisão de Pratto. Quando este toca a bola para a direita, no lugar de passá-la, Arrascaeta explode atrás dela. Pratto está bem mais perto, mas o uruguaio tira a diferença com um carrinho, sem falta. Levanta, ágil, e conduz a bola até tornar seguro o passe para Bruno Henrique.

Bruno está marcado por dois adversários. Todos esperam que ele siga para a linha de fundo, mas o atacante volta em direção ao próprio campo. Depois, marcado por quatro, prefere conduzir um pouquinho mais que servir a Gabigol, impedido, do outro lado.

Aí vem o passe genial, em profundidade, no chamado “ponto futuro”. A bola, porém, está mais para os defensores. E lá vem Arrascaeta, depois do pique para atravessar o campo, se jogando num carrinho.

Duas explosões físicas. Dois carrinhos. Um pique da área defensiva à pequena área adversária. Tudo isso feito por jogador que passou por cirurgia delicada, 40 dias antes.

Jorge de Jesus e a comissão físico-técnica do Flamengo têm seus méritos. Botaram Arrascaeta para jogar, contra todos os prognósticos da torcida. Nada de poupá-lo. Ele estava naquele “expressinho”, um time de reservas, que enfrentou e venceu o Grêmio.

 

Parênteses.

Sabe aquela bobagem de “poupar jogadores?” O Flamengo não poupou ninguém e estava com todos eles, inteiros, na hora da final. Cai um tabu caríssimo para alguns técnicos brasileiros.

Fecha parênteses.

 

O gol ainda vai passar muitas vezes. Notem que Arrascaeta levanta a cabeça antes de se jogar. Terá visto Gabigol? Pensou mesmo em passar e não em finalizar, tão perto que estava da linha do gol? O certo é que chega limpo, sem falta, na bola, deixando o companheiro na cara do gol, empatando a decisão.

 

Tenores

Sabe aquela voz maravilhosa dos tenores? Ela resulta de muita técnica. O cara usa o corpo inteiro, postura, diafragma, pulmão, cordas vocais e cavidades supraglóticas (espaços internos da boca, nariz etc), para que a voz atinja as notas cristalinamente. Treina todo dia, horas a fio. Limpa “a voz” com insistência. Nada disso, porém, acaba num resultado redondo, se ele não estiver concentrado. Só com entrega total, o artista cantor, tenor especialmente, chega ao ápice.

Arrascaeta, estrangeiro, no Brasil há apenas quatro anos, executou uma ária. Entrou no concerto de três tenores, ele, Bruno Henrique e Gabigol, abrindo o caminho dos três minutos mágicos do título.

Na pescaria, outro dia, bom-humor inflado pelo contato com a natureza, puxei uma isca especial e avisei os colegas na canoa: “Agora vai entrar o Arrascaeta!”. Aquele, infelizmente, foi o dia do peixe. Meus companheiros, Manoel e Cid, ambos vascaínos, passaram semanas me gozando, com toda justiça. A analogia a Arrascaeta não foi feliz.

Quando saiu o gol do empate, na decisão, fui buscar de novo a isca, que já estava fora da caixa. Ela volta na próxima pescaria?.

 

Arrascaeta fez gol?

Arrascaeta foi o autor do primeiro gol do Flamengo? Gabigol não fez os dois? Fez, verdade. Mas, no primeiro, recebeu o passe tão açucarado que o gol já estava prontinho. O artilheiro do Brasil e das américas só fez empurrar para as redes. A ópera já estava pronta.

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