
Foto: Roberto Carlos
O estudante amazonense da rede pública João Victor Ventura Cavalcante, 20 anos, está em Brasília representando o Estado no programa Parlamento Jovem Brasileiro (PJB). Único participante surdo do PJB, na ocasião, João Victor apresenta proposta de acessibilidade de surdos em hospitais e prontos-socorros. No dia 26 de setembro se comemora o Dia Nacional dos Surdos.
Dentre tantas dificuldades de ser uma criança com deficiência auditiva, frequentar hospitais talvez tenha sido uma das mais marcantes na vida de João Victor. A dificuldade de comunicação, tanto com a mãe ouvinte, quanto com os médicos, afetava e ainda afeta a qualidade de vida do estudante.
Pensando que outras milhares de pessoas com deficiência passam o mesmo problema em hospitais pelo Brasil, ele decidiu formular um Projeto de Lei que prevê não só a inclusão de intérpretes e tradutores em hospitais e prontos-socorros, como também torna obrigatório que médicos, enfermeiros e demais profissionais das unidades de saúde façam curso de Língua Brasileira de Sinais (Libras).
“A ideia do meu projeto foi pensando na acessibilidade, de mostrar a necessidade dos surdos. Os médicos também precisam ter o domínio das línguas de sinais, e com fluência. Às vezes o médico não entende o surdo ou vice-versa, então acabam inventando e até mesmo dando diagnósticos errados, ou uma medicação errada”, destaca o estudante.
Estudante da 3ª série do Ensino Médio da Escola Estadual Desembargador André Vidal de Araújo, bairro Cidade Nova, zona norte de Manaus, João Victor contou com o auxílio e impulso de outros colegas para participar do PJB. Ele conta que tinha muita confiança que o seu projeto fosse escolhido para representar o Amazonas no Distrito Federal.
“Eu estou muito feliz e emocionado também, porque futuramente isso pode mostrar e projetar os surdos. É um incentivo para os surdos poderem participar outras vezes, porque para nós é um grande sofrimento estar nessa área da sociedade sem poder ter intérprete, sem poder se comunicar, sem poder ser entendido. É difícil você ir a um consultório conversar com um médico e você não entendê-lo e ele não te entender”, afirma o amazonense.
Inclusão
Após sair de uma escola particular que, segundo João, tinha um sistema rígido que o obrigava a falar, o encontro com a inclusão aconteceu na EE Desembargador André Vidal de Araújo, que hoje faz parte do grupo de 315 escolas inclusivas da rede estadual de ensino do Amazonas – sendo 189 no interior e 126 na capital.
Ao todo, são 26 alunos com alguma deficiência na escola. Segundo o gestor da unidade, Maurício Teixeira Lima, o aumento do número de estudantes surdos mobilizou a comunidade a querer aprender Libras. Os professores intérpretes decidiram, então, ofertar um curso aos demais profissionais da escola.
“Nós tivemos uma grande surpresa porque a demanda foi muito grande, veio o porteiro, vieram os professores daqui, as merendeiras e nós ficamos maravilhados. E aí o que aconteceu? Eles foram conversando e vieram várias pessoas de fora pra cá fazer o curso aqui e nós formamos várias turmas. Então nós estamos observando o crescimento da esfera aqui na Cidade Nova, nesse eixo central aqui da zona norte”, afirmou Maurício Teixeira. Atualmente, a escola conta com seis professores intérpretes, de 56 que atuam nas escolas estaduais de Manaus.
Hospital inclusivo
Em Manaus, o Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto firmou parceria com a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Seped) e há pelo menos um mês oferece aulas gratuitas de Libras aos funcionários.
A enfermeira Ana Núbia participa das aulas desde o começo e comentou a iniciativa do hospital. “Muitas vezes a gente recebe pacientes que têm dificuldade auditiva, são deficientes auditivos, e a comunicação ficava muito difícil. Então, com o curso, qualquer um de nós que está fazendo parte dessa comissão – que é uma equipe multidisciplinar, multiprofissional – vai poder ter acesso e vai poder ajudar essas pessoas quando chegarem à emergência, ou então na enfermaria, o que facilita o atendimento”, explica Ana Núbia.
No Brasil, 9,8 milhões de brasileiros possuem deficiência auditiva, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No Amazonas, atualmente, aproximadamente 150 mil pessoas são surdas.
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