
Festival de Parintins tem chance de mostrar respeito com torcedor que é a alma da Festa dos Bumbás
A TV A Crítica, detentora da exclusividade de transmissão do Festival de Parintins, acaba de perder a cabeça de rede. A TV Record, do bispo Edir Macedo, rompeu o contrato com a emissora da Rede Calderaro. Pela “grade de programação” da “rede”, por anos a fio, os dirigentes mexem na hora de entrada dos bumbás. Foi assim com a Band e com A Crítica/ Record. O preço mais cruel quem paga é o torcedor, movido pelo fanatismo, obrigado a esperar pela entrada do seu bumbá. O fim do contrato oferece a chance de diminuir o sofrimento dessa gente humilde. Que é, em síntese, a alma da Festa dos Bumbás.
O fanatismo desse torcedor é testado, todos os anos, até o limite. A “galera” disputa o item 19 do julgamento, mas come o pão que o diabo amassou. Precisa passar, antes de qualquer coisa, pelo teste mais cruel que alguém possa imaginar. Chega cedo, enfrenta sol e chuva, não arreda pé e espera até 21h pela entrada do seu boi. É o preço que paga pelo acesso gratuito à “arquibancada do povão”. E nesse local acontece a mais acirrada e bela disputa do Festival de Parintins.
O fim do contrato A Crítica/ Record permite, por exemplo, o início da festa às 19h. “As arquibancadas estarão vazias”, dirá alguém mais apressado. Mas como assim, se o torcedor chega à famigerada fila às 7h, 8h, 9h no máximo? Ele garante o quórum, a lotação, o prestígio ao primeiro bumbá que se apresenta.
O “bacana” tem lugar cativo, comprado a preço de ouro, na “arquibancada dos turistas” ou nos camarotes. Chega à hora que quiser. Isso tem efeito mínimo sobre as notas dos bumbás porque eles ficam ocultos dos jurados, principalmente os turistas. E, quando souber que a festa começa mais cedo, logo eles deixarão os bares antes.
Começando às 19h, com duas horas e meia para cada bumbá, mais intervalo de 30 minutos, 0h30 acabou a festa.
Restará tempo para os bares, restaurantes e clubes da cidade captarem clientes. Isso significa girar um pouco mais a economia de Parintins, sem precisar majorar preços. É incentivar o empresariado a buscar alternativas de atração do público.
Las Vegas, a capital mundial do entretenimento, é exemplo do sucesso na administração do tempo. Os shows – Elton John, Celine Dion, Cirque du Soleil etc. – começam às 19h. Às 21h, 22h no máximo, essas atrações encerram e entram em cena os restaurantes e cassinos. Esse é um dos segredos da cidade.
A Prefeitura de Parintins pode criar regras para clubes, bares e restaurantes. Rigor na segurança é uma delas. Deu bronca? Não vai funcionar no dia seguinte. A polícia e o juizado de menores podem aumentar o rigor na fiscalização da venda de bebidas para menores.
A polícia circula até mais tarde. Parintins, não vamos esquecer, é uma ilha. É só consultar o delegado local e ele indicará onde estão os focos de tensão da cidade.
Os bumbás vivem em clima de correria. Isso começa no fim do festival e vai até o momento da apresentação no ano seguinte. Instantes antes de entrar no Bumbódromo – é parte da tradição – todo artista estará retocando alegorias. Será sempre assim, se adiarem o início para meia-noite ou se anteciparem para as 19h.
Sem desculpas ou obstáculos resta o óbvio: é questão humanitária iniciar o Festival de Parintins mais cedo. E se a autoridade insensível se lixa para o povão, então saiba que o turista também sente o tranco. São cinco horas e meia de cadeira para ver os dois bumbás. Depois do primeiro dia, a maioria chega ao sábado aos farrapos. Pouquíssimos ficam para o domingo.
Quem vai de barco, se a festa termina mais cedo, consegue retornar a Manaus depois de assistir a todas as apresentações.
São muitas vantagens envolvidas. Mas diminuir o tempo de espera do povão…. isso não tem preço.
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