26/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Festival de Parintins chega aos 53 anos ainda usando fraldas e precisando de profissionalismo fora do Bumbódromo

Publicado em 05 de julho, 2018

Festival de Parintins chega aos 53 anos ainda usando fraldas

Festival de Parintins chega aos 53 anos ainda usando fraldas, fora do Bumbódromo, sem acompanhar o talento dos artistas e dos itens como as cunhãs. Fotos: Marcos Santos

O Festival de Parintins, que acaba de concluir a 53ª edição, virou um senhor maduro, mas continua usando fraldas. O evento está no topo de elementos como criatividade, brilho, inventividade, alegria. Faz pouquíssimo por coisas como atratividade, divulgação, estrutura e organização. Atingiu o auge como festa. Precisa fazer mais pelo produto ou sofrerá ciclos de crises, como aconteceu recentemente. Este ano, espera-se pelo menos, ninguém atirou no próprio peito e pagou facínoras conhecidos para fraudar o resultado.

Fraldas? Sim. A festa levou um soco de pugilista peso-pesado quando o governador José Melo anunciou que não haveria patrocínio governamental. Quase não acontece. Só aconteceu porque, no final, Melo caiu em si e forneceu a estrutura básica de saúde, segurança e até patrocínio. Anunciou em entrevista coletiva que não daria e deu na surdina. Fez o oposto do proposto por Maquiavel, para quem o bem deve ser ministrado em conta-gotas e o mal de uma só vez.

A dependência governamental é terrível. Traz males que vão do engessamento da organização às indefectíveis escaramuças com prepostos. O mal humor transita pelos bastidores do Bumbódromo, como se fosse um fantasma da ópera. Isso não teria razão de ser, se os bumbás estivessem maduros e organizassem a própria festa.

O governo do Estado ou a própria Prefeitura de Parintins são, porém, muletas indispensáveis ao Festival. Os dois bumbás, afinal, até hoje não entenderam a premência de profissionalismo organizacional. Parecem, em termos gerenciais, crianças brincando com o enorme talento do artista parintinense. É por isso que, sem um gerentão, mandando e desmandando, a coisa seria pior ainda.

Repercussão do Festival de Parintins na economia parintinense e potencial turístico da festa, num Amazonas sem produto turístico, são enormes. Sem produto turístico? Sim. Sem evento ou lugar estruturado turisticamente e capaz de provocar no consumidor o desejo de voltar e impulso de convidar. A Festa dos Bumbás é a que chega mais perto disso.

O governo do Estado ganha. O investimento – este ano fala-se em R$ 40 milhões – retorna no ICMS recolhido. Bebidas, combustíveis, produtos de supermercados, mercados etc. recolhem o imposto.

Prefeituras ganham, inclusive as demais 61 do Estado inteiro. Porque parte do ICMS recolhido com o Festival de Parintins é rateado entre elas.

A iniciativa privada ganha. Tem os donos de portos em Parintins, que oferecem energia e água de poço para os barcos ancorados. Bares, lanchonetes, restaurantes, hotéis, pousadas, donos de suítes no projeto cama e café da manhã. Os recreios regionais, ajatos e companhias aéreas. Todos ganham.

Mas isso não é estrutura? É. Mas falta amarrar as pontas dos nós. Falta um item por item, o checklist profissional de cada coisa. Só então é possível oferecê-las num pacote para o turista e fiscalizar se o produto está sendo entregue como prometido.

Item por item? Vamos a alguns:

 

Internet

A frase “ninguém vive sem internet” se tornou um axioma moderno. Imagine um social influence embasbacado pela beleza de alegorias e itens, querendo conectar milhares de seguidores… e esbarrando na pane de Vivo, Claro, Tim e Oi no Festival 2018.

O Bumbódromo deveria ter Internet grátis, em troca de cadastro muito simples (e-mail e telefone). Todo telefone se transformaria em veículo de comunicação. Imagine milhares de stories no Instagram, posts no Face e Twitter ou compartilhamentos no WhatsApp.

O planeta estaria online. Caprichoso e Garantido figurariam facilmente nos trend topics das mídias sociais. A divulgação, com linguagem moderna e antenada, superaria até a da TV, sem concorrer diretamente com ela. O investimento seria bem menor.

 

Infraestrutura de transporte

O Festival de Parintins é abastecido de público por Manaus, Belém, Santarém e Municípios amazonenses e paraenses vizinhos. A oferta se dá pelo gargalo da acomodação – pouquíssimos se aventuram à viagem sem ter onde ficar na Ilha.

O desafio da organização é melhorar o conforto do viajante e procurar diminuir o tempo de viagem. As lanchas, tipo Ajato, fizeram uma parte importante. A viagem Manaus-Parintins diminuiu das antigas 18 para oito horas. Subindo o rio, sentido Parintins-Manaus, caiu de 36 para 10, 11 horas. Ainda é possível, no entanto, fazer mais.

Itacoatiara pode se tornar um porto de saída, uma espécie de hub. Recolheria passageiros de Manaus, Municípios da calha do rio Madeira etc. De Manaus, via AM-010 – basta dar asfaltamento decente. O tempo no rio cairia pela metade e a viagem ficaria mais rápida.

 

Preços

Os preços do Festival de Parintins são europeus. Em euro. Ou em libra. Está caro. Beirando o risco de transformar a festa em evento elitista. Isso a afasta do caráter popular, que é a própria alma dos bumbás – a explosão da torcida é o melhor momento.

O povo pena na famigerada fila. Este ano, este portal registrou, os primeiros torcedores chegaram na quarta-feira. Tomaram chuva e sol, sol e chuva, até as 21h30 da sexta (29/06).

Parte do valor cobrado em camarotes e arquibancadas de turistas deveria ser revertido, obrigatoriamente, para conforto do torcedor de arquibancada.

 

Tempo

O tempo de apresentação dos bumbás, duas horas e meia a cada noite, mais meia hora de intervalo, é demasiado. Faz tempo. Mesmo a beleza, em overtime, é capaz de cansar.

Aqui cabe breve explicação da estratégia de demanda reprimida. A Apple, por exemplo, quando lança iPhone novo, manda fabricar milhões. As lojas, porém, são abastecidas uma vez por dia com número limitado. Às 10h, invariavelmente, acabaram-se os telefones. Aí começa o fenômeno da “demanda reprimida”: o mercado negro vende pelo dobro do preço; as filas começam no dia anterior; o iPhone se torna um produto raro e cobiçado.

Com menos tempo de apresentação – uma hora por noite, cada boi, é o ideal – e começando mais cedo, o torcedor deixaria o Bumbódromo com um “gostinho de quero mais”. Abandonaria o “amanhã não venho, tô quebrado”. Eliminaria o pesadelo dos bumbás, logo cedo, quando as arquibancadas demoram a ser preenchidas. Ou, idem, para o que se apresenta por último.

Imagine o cenário: começa às 19h, cada boi se apresenta uma hora, com meia hora de intervalo. Às 21h30, o Bumbódromo estaria encerrado.

A noite seria uma criança. Bares, lanchonetes, restaurantes, clubes esperariam abertos e estruturados os 50 mil ocupantes do Bumbódromo. A cidade lançaria mão de faceta econômica diferente. O dinheiro giraria.

Os bumbás, por outro lado, tornariam as apresentações mais enxutas. Não haveria espaço para encher linguiça. O gasto seria menor. Novas tecnologias seriam desenvolvidas, como quando Simão Assayag criou os módulos e revolucionou os tamanhos das alegorias.

 

Divulgação

Sim, os bumbás estão pecando na divulgação. A publicidade está dividida em institucional e de varejo (venda).

Claro que o Festival de Parintins não precisa ser anunciado para juntar público. Não neste momento.

Precisa criar a imagem correta e dizer a mensagem cultural que pretende transmitir.

A publicidade institucional serve, ao mesmo tempo, para posicionamento da festa e balizamento dos roteiros.

O público “lê” o que vê, o que lhe é apresentado. O fanático “vê” o que lhe parece mais favorável ao objeto do fanatismo.

Um torcedor do Garantido, fanático, dizia, no aeroporto: “É evidente a diferença do poder econômico do Caprichoso para o Garantido”. Como? Ambos recebem os mesmos patrocínios, divididos meio a meio. As doações voluntárias de antigamente acabaram faz tempo. Os “doadores”, hoje, são agiotas à espreita das necessidades de diretorias incautas para emprestar a juros. Estão aí os leilões de currais e armazéns demonstrando isso.

O “boi do povão” e “boi da sociedade”, muito útil na discussão de bar, é um obstáculo à fiscalização da aplicação correta dos recursos. Mascara brigas internas, que este ano engessaram o Garantido e no passado já engessaram o Caprichoso.

O Amazonas, com esse tamanhão todo, recebe menos turistas/ano (1,2 milhão, mais ou menos, em 2017), que Gramado (RS). A cidade gaúcha, com 35 mil habitantes, recebeu ano passado 1,5 milhão de turistas.

 

Playlists

Os bumbás ainda falam em “gravar CD” e “filmar DVD”. Isso os deixa algumas gerações tecnológicas atrás.

Chegaram ao Spotify e ao iTunes. Ótimo. Agora falta mirar nos exemplos de Justin Beaber e do “Trem Bala”, de Ana Vilela. O fenômeno que os dois criaram no YouTube, curvando a mídia tradicional, é ideal para Caprichoso e Garantido.

A era é do playlist. E o clip, grátis, sem amarras, ancorado apenas nos patrocinadores, é o caminho da toada.

Os canais dos bumbás nas mídias sociais deveriam compartilhar tudo, o ano inteiro. Os playlists seriam disponibilizados, videoclipe a videoclipe, toada por toada, à medida que fossem concluídos. Algo como faz a cantora Anita, com enorme sucesso internacional.

Parintins tem potencial para ser uma dessas cidadezinhas xodós do turismo receptivo. Como chegar a 1 milhão? A ilha ia afundar?? Não, se a festa, bem divulgada e posicionada, tivesse “filhotes” espalhados pelo ano inteiro: festivais de toadas, shows, disputas para escolhas de itens etc.

Por que ignorar a Festa do Carmo, no Bumbódromo, quando se trata do maior evento religioso do Estado? E ela começa nesta sexta (6/7), indo até 16/7, com público semelhante ao do Festival.

Um lugar agradável, como a Ilha Tupinambarana, é bom para visitar a qualquer hora. Falta prepará-la, empacotá-la devidamente. E dizer isso ao interessado, o turista.

O Festival de Parintins é produto valioso. O parintinense precisa dele. O Amazonas, como se vê, também.

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